BEM-VINDOS A ESTE ESPAÇO

Bem-Vindos a este espaço onde a temática é variada, onde a imaginação borbulha entre o escárnio e mal dizer e o politicamente correcto. Uma verdadeira sopa de letras de A a Z num país sem futuro, pobre, paupérrimo, ... de ideias, de políticas, de educação, valores e de princípios. Um país cada vez mais adiado, um país "socretino" que tem o seu centro geodésico no ministério da educação, no cimo do qual, temos um marco trignométrico que confundindo as coordenadas geodésicas de Portugal, pensa-se o centro do mundo e a salvação da pátria.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

RIO CUANZA, O ELO ENTRE O SUL E O NORTE, ENTRE O PASSADO E O FUTURO (II)

A área total da bacia hidrográfica é de 152 570 km2(rio Tamisa 12 935 km2 , rioTejo 79 800 km2 ). Em grande parte da sua bacia, excepto no Baixo Cuanza, chove abundantemente, em torno de 1 200 mm anuais. Em um ano seco a chuva anual nunca desce abaixo de 900 mm.É um rio onde se não conhece nenhum ano de seca. A maioria dos solos é de constituição arenosa resultando uma grande infiltração de águas e um consequente nível freático muito alto. É uma bacia bem servida de águas superficiais e de águas subterrâneas. É, incontestávelmente, a “mãe de água” de Angola. Os seus afluentes na margem direita são o Lucala (o maior), Mucoso, Lombe, Cuíje, Cuque, Luando, Cuíva, Cuíme e Chimbamdiango. Na margem esquerda o Gango, Cutato, Cunhinga, Lúbia, Cunje e Cuquema.
Vamos “subir” o rio através do seu perfil longitudinal (figs 9 e 10) O trecho entre a Barra e Cambambe é, em termos fluviais, “plano”, porque o rio “sobe” 50m em 200 km, com um declive de 0,00025 ou seja tem uma inclinação de 25 cm por quilómetro. Isto conferiu-lhe, como já vimos atrás, a facilidade de navegação, embora de pequeno porte.
Em Cambambe começam as dificuldades: aparecem uns rápidos prenunciando um perfil muito inclinado. É o início da escarpa Atlântica bem característica da geomorfologia angolana.Da altitude de 50 m, onde se situa a barragem de Cambambe, passa-se para a altitude de 850 m em escassos 150 km. Nesta cota situa-se a barragem de Capanda. É o Médio Cuanza, trecho “de ouro”em termos de geração de energia electrica, porque o rio é extraordinariamente declivoso e já tem quase todo o seu caudal, só estão excluidos os rios Mucoso e Lucala..
Um ponto notável do rio é o Salto de Cavalo assim chamado porque o folclore dizia que o rio podia ser transposto pelo salto de um cavalo. Na verdade não é bem assim.
A cerca de 100 km de Capanda, para montante, deparamos com a ultima ruptura de declive: as cachoeiras do Condo mais conhecidas por Porto Condo, talvez porque a navegação interior, de outra eras, encontrava o primeiro aviso de que “não há mais navegabilidade”, “quem quiser seguir de canoa vai-se rebentar lá em baixo”. As canoas terminavam ali as suas viagens.Muito próximo, e a jusante, está a ponte de Cangandala, já aqui referida.
Depois de Porto Condo, sempre para montante, o Cuanza torna-se manso, com pouco declive, algumas corredeiras e extensas áreas inundadas ou encharcadas. É ao contrário das leis naturais que regem os rios. O normal é os rios serem torrenciais nas nascentes e tornarem-se mais tranquilos à medida que caminham para jusante ( para a foz).
Transpostos mais cerca de 75 km, para montante, o rio Cuanza recebe um grande afluente o Luando, na margem direita. O rio foi cartografado pelos expedicionários portugueses Capelo e Ivens em 1878. Eles passaram no trecho próximo da sua foz no rio Cuanza. Neste trecho o Luando apresenta as únicas corredeiras. Tinha 40 m de largura e uma grande velocidade provocada pelas corredeiras e quedas. Era incrível a quantidade de peixe em todo o leito, especialmente nas cachoeiras em que quase se apanhavam à mão. Para montante o Luando é “plano” ocupando grandes áreas lagunadas. Mas nas nascentes apresenta uma monumental queda de água, muito semelhante às de Calandula (Duque de Bragança) no rio Lucala.
Capelo e Ivens escreveram que ali, na bacia do Luando, todos os sobas eram independentes e arrogavam-se que «...eram os maiores, os brancos tinham que pagar tributos para a passagem». Medo era o que eles mais encontravam nas pessoas das terras que atravessavam.
Em Angola, em fins do século 19, ainda perdurava o terror inspirado pela escravatura.É elucidativo o relato dos dois viajantes(41): « É notável a desconfiança que inspira em quase todos os pontos de África o aparecimento de um europeu ou mesmo de um africano mestiço. A sua repentina chegada junto de uma sanzala tem quase sempre a consequência inevitável de retirarem-se os habitantes para dentro das casas, não escapando os próprios animais domésticos, como porcos e cães, que mais de uma vez vimos correr diante de nós espantados, como o poderiam fazer à aproximação de uma fera. Indubitavelmente, a razão deste facto deriva das tristes cenas de que foi teatro o sertão africano, e presenciadas por gerações inteiras, durante a caça aos escravos, que terminava pela condução de grandes comitivas de desgraçados para as duas costas. O terror e o pânico produzidos por esta luta espalhou-se entre os pretos, excitados com as narrações das cenas de requintada crueldade, junto ao receio de que os brancos pretendessem escravizá-los, obrigando-os a trabalhos em terras onde a vida é curta. Esta história, transmitida de pais a filhos e de filhos a netos, alterada de diversas formas, como é tendência natural do indígena, e a demonstração clara da prática mais frequente nesta ou naquela terra foram principalmente os elementos construtivos das terríveis ideias que o preto faz de nós, incutindo-lhe desde os mais tenros anos ódio pelo branco, e fazendo-o fugir à aproximação deste, só o trabalho de muitos anos e os esforços constantes dos exploradores e missionários metodistas, no sentido de suprimir o infernal tráfico, poderão tirar completo partido de tal circunstância. Em verdade, já é tempo de acabar com a misérrima sorte desses milhões de indivíduos, que vivem no continente africano, no meio da mais abjecta desorganização social e na maior dissolução de costumes».
Livingstone, um misssionário inglês que passou por Angola em 1855 já tinha escrito : «A vista de um branco enche-os de terror. Quando eu atravesso um povoado os cães amedrontam-se, e metem o rabo entre as pernas, como se vissem um leão. As mulheres escondem-se atrás de cercados e olham furtivamente por qualquer fresta até ao momento em que me aproximo em que fogem para as suas cabanas. Se uma criança me encontra começa aos altos gritos ao ver esta aparição medonha, faz-me crer que vai ter um ataque epilético».
Da foz do Luando para montante o rio Cuanza apresenta um leito pouco inclinado correndo em um vale aberto, mas de leito bem definido, e com grandes áreas alagoadas. Nas áreas circundantes os solos são hidromórficos ou seja extremamente húmidos.

3 - As sub-bacias do rio Cuanza
Castanheira Diniz, um notável agrónomo de Angola, dividiu a bacia hidrográfica do rio Cuanza em 4 bacias parcelares ou sub-bacias:(3): Alto-Cuanza, Lucala,Médio Cuanza e Baixo Cuanza.
A primeira sub-bacia (Alto Cuanza) está compreendida entre as nascentes (Mumbué, Catota) e Salto de Cavalo abrangendo uma área de 105 640 km2 o que corresponde a 69% da bacia total. O Alto-Cuanza é a verdadeira “caixa de água “ do rio. Tudo nele se resume a uma palavra:água. Chove abundantemente, com invernadas de mais de um mês ininterrupto; em determinadas áreas arenosas, situadas nos altos, o solo fica saturado e o nível freático atinge a superficie, formando as “anharas húmidas” ” que são riquíssimos “volantes hidrográficos” que regulam cheias e mantêm os caudais de base (que circulam na estação seca) bastante elevados. A densidade de drenagem é altíssima com mais de 3 km/km2 .
No Alto-Cuanza a temperatura média máxima é de 26ºC , raramente atingindo os 30º. O inverno (Maio a Setembro) é frio e seco, com temperatura média mínima de.13ºC. O Verão (Outubro a Abril) é quente e chuvoso. É o clima ideal para árvores exóticas (eucaliptos, cupressus, cedros, casuarinas, pinheiros e grevíleas). Estas árvores adaptam-se bem aos climas planálticos mas encontram na bacia do Alto-Cuanza as condições ideais: solos pobres pouco atractivos para agricultura, muita chuva, temperaturas amenas,áreas despovoadas, peneplanícies (topografia plana e semi-ondulada) onde se podem implantar polígonos racionais (divididos cientificamente em aceiros e arrifes, onde o ataque a incêndios e o corte são fáceis de efectuar). Um eucalipto, em Angola, dá corte ao fim de 9 anos; na Europa é ao fim de 12 anos, se não sofrer um incêndio, infelizmente o mais vulgar nos tempos actuais.
Está na moda vilipendiar o eucalipto: diz-se que é uma árvore invasora, que “chupa” a água freática, que alimenta a ganância dos capitalistas, que é a causa da destruição de florestas antigas, etc.Em tudo deverá haver um bom senso. O eucalipto, por atingir a maturidade em tempo recorde, é a árvore ideal para suprir as necessidades de celulose. Ele pode evitar a destruição de florestas naturais cujas árvores demoram mais de 50 anos para atingirem a plenitude.
O eucalipto, e outras árvores exóticas, podem voltar a ser uma grande fonte de receita e um meio de absorver muita mão de obra (angolana, como é óbvio!). Antes da independência havia muitos polígonos florestais onde se exploravam as árvores exóticas sob vários aspectos: lenha, carvão de retorta, casas pré-fabricadas, combustível para máquinas a vapor, toros e ripas para construção civil, celulose, cera e mel. Como produtos espontâneos nas matas sobressaíam as matúnduas (cujo valor comercial, infelizmente, nunca foi estudado!) e os tortulhos (cogumelos) Estes, após uma grande invernada, faziam jús à fama: “nasciam como cogumelos”, raramente eram venenosos e tinham um alto teor nutritivo. Tal como as matúnduas nunca foram estudados.
Ao longo da ferrovia de Benguela foram implantados diversos polígonos florestais em que predominava o eucalipto. Só assim foi possível manter as românticas máquinas a vapor.
O ponto mais alto da bacia do Cuanza é o Monte Chimbango, popularmente conhecido por “Morro do Chinguar”. O Monte Chimbango é um “inselberg”(monte ilha) que sobrou de uma Fig 7 -As bacias parcelares do rio Cuanza segundo Castanheira Diniz.A maior sub-bacia é o Alto-Cuanza com 105 640 km2 , desde as nascentes até ao Salto de Cavalo. É uma área com uma enorme densidade de drenagem, isto é em 1 km2 há mais de 3 km de linhas de água. É comum que qualquer linha de água de 1ª ordem (sem afluentes) apresente caudais maiores do que 5 l/s.
Fonte: A.Castanheira Diniz. Grandes Bacias Hidrográficas de Angola. Recursos em Terras com Aptidão para o Regadio. Instituto da Cooperação Portuguesa –Agência Portuguesa de Apoio ao Desenvolvimento.Lisboa 2002.


intensa erosão geológica ao longo de milhões de anos. Com a altitude de 1 929,74 m é a culminância de duas bacias hidrográficas: o Cuanza e o Cubango. É, também o ponto mais alto na parte oriental de Angola, à direita do meridiano 16ºE Gr. ou seja aproximadamente o meridiano do Huambo. Em uma área de cerca de 850 000 km2 Chimbango é o ponto culminante. Nos meus devaneios sobre o futuro de Angola cheguei a imaginar uma torre de telecomunicações com mais de 72 m de modo a pôr Chimbango com a altitude de 2 000 m. Esta torre teria um farol para os dias festivos da nação.


Fig 8 – O Morro Chimbango ou Morro do Chinguar(a amarelo). É o ponto mais alto da bacia do Cuanza, com a altitude de 1 929,74 m. A vertente Noroeste alimenta o rio Cuanza através do rio Alondo e depois o Cutato das Mongoias. As vertentes Nordeste e Sul alimentam o segundo grande rio de Angola, o lendário Cubango que, ao fim de mais de 1 000 km, dá origem a um dos maiores santuários da natureza: o delta do Okavango já em território do Botswana. O rio Cubango é endorreico ou seja as suas águas não vão para o mar, o rio desagua em uma imensa planície( Delta do Okavango). De notar o contorcionismo da linha férrea, fugindo de todas as linhas de água.Também se pode notar os polígonos florestais(a verde), ao longo da linha, de modo a poderem abastecer de lenha o Caminho de Ferro de Benguela.O da esquerda tem 3 250 ha e o da direita tem 5 000 ha. Estão divididos em aceiros e arrifes (talhões de 16 ha) tornando muito fácil o combate aos incêndios, que eram raros. Os africanos sabiam o valor que representava uma área florestal, onde conseguiam lenha para o seu dia a dia.

Chimbango localiza-se 4 km ao sul do Chinguar. O nome desta cidade provém das palavras Chingue (casa) e Unghuári (perdiz). A ferrovia de Benguela chegou ao Chinguar em 1914, mas a construção parou ali porque rebentou a 1ª Grande Guerra (1914 a 1918). A construção só viria a prosseguir em 1922. Neste interim o Chinguar viu-se promovido a “cabeça de linha”. Em 1914 já os africanos produziam muitos géneros alimentícios e para exportação. Nestes avultavam a borracha, a cera e o milho. E era pelo Chinguar que saíam todas as produções, tornando-o em um empório. Os géneros chegavam ao Chinguar através de imensas caravanas, vindas do Moxico, dos Luchazes e dos Ganguelas. O dinheiro pouco circulava, tudo era na base da troca (permuta ou escambo no Brasil). Os africanos davam preferência aos panos (tecidos),ao vinho, à aguardente, aos artigos de latão para adornos pessoais ,ao sabão, ao petróleo, aos cobertores conhecidos por “cambriquites“, mas especialmente aos cobertores de lã conhecidos por “cobertores de papa”. O avanço do comboio para a fronteira leste, recomeçado em 1922, vibrou um profundo golpe no Chinguar. Como curiosidade acrescentaremos que mais desprotegido ficou quando em 1958 a cidade votou maioritariamente no general Delgado. Desde então passou a ser ainda mais marcada pelo desinteresse oficial. Chinguar era conhecido pelos seus morangos, era a “capital do morango”.
A seguir ao Luando o rio Cuanza recebe um grande afluente, o Cutato que nasce nas terras altas do Chinguar, no morro de Chimbango. A vertente norte deste morro drena para o tio Alondo ou Ualondo um afluente na margem direita do rio Cutato das Mongóias. Na confluência, 6 km para leste, nasce um outro Cutato (das Ganguelas) que corre para Sul, para o Cubango. Esta nascente obrigou a que se fizesse um desvio, muito pronunciado, da ferrovia de Benguela, posicionando o seu traçado sobre a linha da Cumeada Transversal que divide o país em 2 blocos o Norte e o Sul. Por causa deste desvio, e pela quantidade enorme de linhas de água que ele evitou, a cidade do Cuito (Silva Porto) ficou 5 km afastada da ferrovia.
Os silvaportuenses ( cuitanos, cuitenses, cuiteses, cuitetos, cuitocos, cuitondos, cuitenos, cuitangas, como é que se designam, agora, os seus habitantes?) argumentavam que o facto de não usufruirem da ferrovia se filiava em lutas intestinas entre os colonos, mas a verdade é unicamente explicável pela topografia. Do Chinguar ao Cuito (80 km) atravessam-se mais de 25 linhas de água, com 4 rios de grande porte:Cutato das Ganguelas, Cuchi,Cacuchi e Cuquema. Como as pontes metálicas vinham todas da Inglaterra seria uma despesa incomportável. A solução mais barata foi implantar o traçado pela cumeada. Ainda creança, conheci o major-engenheiro inglês Laessoe, chefe da topografia do caminho de ferro. Ele deixou-nos um mapa onde constavam as diversas soluções tendentes a uma optimização do traçado, de modo a evitarem-se as pontes.
A cerca de 30 km, a partir da foz do Cutato, para montante, outro grande afluente do Cuanza: o rio Cunhinga, com as nascentes nas anharas húmidas da Cumeada Transversal.
Sob o aspecto agrícola Castanheira Diniz dá-nos um magnífico resumo da Bacia do Alto-Cuanza :

«No que se refere ao valor agrícola dos solos poderá atribuir-se-lhe dum modo geral e atendendo ao grau de fertilidade natural, padrões baixos e muito baixos, estes últimos levando em conta as características físicas das extensas manchas arenosas. Todavia em relação aos solos argiláceos, técnicas culturais convenientes e fertilizações equilibradas poderão proporcionar níveis satisfatórios de produção ou mesmo até elevados, principalmente em relação às superfícies planálticas consideradas de média altitude (1000/1400 m)».
Este laudo técnico sugere-nos várias directrizes: a bacia do Alto-Cuanza, enorme, é muito sensível, tem solos pobres e de fraca coesão, pelo que terá que se ter o máximo cuidado em futuras explorações agrícolas. Fica claro que a bacia não aguenta agricultura industrial, devido à debilidade dos solos, pouco férteis, obrigando à utilização maciça de fertilizantes e pesticidas e a medidas de conservação do solo. As chuvas de grande intensidade (75 mm/hora é normal todos os anos, em Portugal uns escassos 15 mm/hora provocam desagradáveis inundações) e os solos pouco coesivos, e portanto de elevada erodibilidade, provocam erosões violentas, algumas de tal jaez que já se não conseguem repor as condições naturais.
Antes da independência os africanos cultivavam segundo as técnicas ancestrais, baseadas na itinerância das culturas, ou seja cultivava-se durante 2 ou 3 anos e depois optava-se por outras áreas, deixando os antigos terrenos em pousio até recuperação natural. Os rendimentos por hectare eram baixos mas a agricultura era sustentável. Só assim se explicam os grandes sucessos de produção. Na bacia do Alto-Cuanza produziam-se todos os géneros agrícolas e quase todas as frutas de climas temperados.Estas frutas apresentavam deficiências que podiam ser atenuadas através de tecnologia apropriada, que estava sendo iniciada pelo Instituto de Investigação Agronómica.O arroz, produzido em Camacupa por africanos, era um sucesso com volumes de produção crescendo a mais de 7% ao ano. Estava-se entrando, lentamente, numa mecanização racional e cautelosa.
A segunda sub-bacia do Cuanza é a do rio Lucala. Com 24 085 km2 o rio Lucala está muito individualizado pois já não contribue para o vigor energético do Cuanza. A sua foz é no Baixo Cuanza a uma altitude de 45 m. Mas, mesmo assim, o rio Lucala tem muita energia, basta lembrar as célebres quedas de Calandula ( Duque de Bragança) com 110 m de altura. No tempo colonial chegou a considerar-se o seu total aproveitamento mas, felizmente, nada foi feito. Apenas uma micro turbinagem cujo caudal subtraído não era perceptível na magestade dos turbilhões de água.
Somos de opinião que qualquer aproveitamento hidroelectrico só poderá fazer-se desde que não interfira nos caudais das quedas que devem ser mantidas no seu estado natural. Na parte final desta sub-bacia pode fazer-se, com cautelas, agricultura empresarial com irrigação, conforme aconselha Castanheira Diniz.
A sub-bacia do Médio Cuanza desenvolve-se entre o Salto de Cavalo e Cambambe.
Já vimos que o rio Cuanza é farto de água, de bons climas, de uma variedade de solos e de vocações agrícolas .Mas ele alberga outra grande riqueza: a energia hidroelectrica.
Observando a Fig 7 –perfil longitudinal total do rio, desde Munbué até à foz (Barra do Cuanza)-, deduzimos que é um rio manso no Alto Cuanza (Munbué/Porto Condo), é bravio no médio Cuanza(Porto Condo/Cambambe) e volta a ser muito manso na parte final (Cambambe/Barra).
Detenhamo-nos no médio Cuanza (Fig 8), o mais rico em energia hidráulica. Ele vai desde o Salto de Cavalo até Cambambe. Pelo perfil longitudinal verifica-se que o rio tem um enorme potencial hidroelectrico. Desde a barragem de Capanda até à barragem de Cambambe o rio desce, abruptamente, cerca de 900 metros. O caudal médio de estiagem,( numeros sujeitos a rectificações devido à precariedade de informações de que dispomos), é de 250 m3/s. A barragem de Capanda armazena mais de 5 km3 de água garantindo um caudal médio fixo de 750 m3/s. Mas o rio em anos normais “produz” mais de 10 km3 de água.
Com a água das chuvas armazenada em Capanda obtém-se, logo de início, uma potência de 520 MW. Mais mais 35 km para jusante, podem-se obter, com barragens a fio de água, cerca de 6500 MW de potência.É um Kuwait de energia hidráulica, corresponde a um poço, com produção sustentável de 140 000 barris de petróleo por dia. E sem recorrer a técnicos estrangeiros ou a multinacionais. Em resumo: 2 grandes barragens (Cambambe e Capanda) e 6 pequenas barragens a fio de água (sem albufeiras) podem produzir mais de 7 000 MW de potência.
Em Cambambe, no rio Cuanza a 200 km de Luanda, foi construída uma barragem(Cambambe) em 1959 Para mim esta construção sempre foi intrigante. A barragem está precisamente no local onde o rio já não tem energia potencial. Foi erguido um “muro” de betão com 65 m de altura, com promessa de subir para 90 m (para quê?), que dá origem a uma minúscula albufeira com 1,5 km de comprimento. A partir do pé da barragem, para montante, o leito do rio Cuanza “sobe” 120 m em escassos 2 km.
Fig.9 – Perfil longitudinal total do rio Cuanza. Ele está longe de atingir o perfil de equilíbrio, ou seja quando a inclinação do leito do rio diminui à medida que caminha para a foz. Pelo contrário, o rio “apanhou” a rocha dura da “Escarpa Atlântica” e formou, apenas, quedas, rápidos e cachoeiras.É um formidável potencial hidroelectrico.





Fig 10 – Perfil longitudinal do Médio Cuanza. Observa-se o mau posicionamento da barragem de Cambambe (não aproveita a enorme inclinação do rio e não armazena os caudais de cheia). Pelo contrário, a barragem de Capanda e, a jusante, mais de 6 bons aproveitamentos a fio de água.

Salta à vista que uma pequena barragem, a montante de Cambambe, no local onde se situa a ponte da estrada que vai para o Huambo,ou um pouco mais para cima, e aproveitando o desnível natural de 150 m , era de mais fácil construção e sobretudo muito mais barata.
A barragem de Cambambe sugere a velha piada de um indivíduo que nota que tem o cordão do sapato esquerdo desapertado; põe o pé direito em cima de uma cadeira e, curvadíssimo, aperta o
cordão do sapato esquerdo. Fez-se a barragem no sítio menos indicado e mais trabalhoso. A barragem não aproveita as quedas do rio e não aproveita os caudais de cheia do rio. Está, manifestamente, sub-dimensionada, não tem em conta o potencial do rio Cuanza que é imenso. Por isso é que, com 65 m de altura e uma bacia de 105 640 km² produz uns míseros 65 MW. Foi inaugurada com grande espalhafato mas ela não satisfazia um progresso acelerado. É muito muro para pouca água. A queda é conseguida, apenas, com a altura da barragem.
Cambambe trabalha a fio de água. São três os tipos principais de aproveitamentos hidroelectricos: a fio de água, com armazenamento e com reversão.O fio de água corresponde a um sistema que gera energia através da queda natural do rio e só com o próprio caudal do rio, que está sujeito sempre a grandes variações. Se os estudos não forem bem executados podem surgir surpresas com a drástica diminuição do caudal, e neste caso as turbinas podem entrar em colapso, devido à implosão de bolhas de ar que destroem até o melhor aço. Esta ocorrência é conhecida por cavitação. Os fios de água em Angola serviram para uma primeira fase, até 1945 e foram todos fiascos (Mabubas, Biópio, Matala e Lomaum). Depois disso era notório que teria que se armazenar água, através de grandes barragens. No Cunene ainda se construiu o Gove.
Um aproveitamento com armazenamento consiste na construção de uma grande barragem que possa acumular o maior volume possível de água, proveniente das chuvas. Designa-se como transmissão de água no tempo. A água das grandes cheias é retida na barragem para depois ser utilizada em qualquer ocasião. É a chamada regularização estival. Isto permite aumentar os caudais na grandeza que se deseja ( até ao seu limite natural, é lógico), evitando assim que se produza a indesejável cavitação que provoca a ruína das turbinas. Resumindo: uma barragem de armazenamento acumula água e energia que podem ser, depois, utilizadas ao longo do tempo. É o caso de Capanda.
Os aproveitamentos por reversão são de origem recente e destinam-se a “acumular” energia sobrante. Durante a noite, quando está sobrando energia, podem algumas turbinas funcionar como bombas que devolvem, para a albufeira, parte da água que sai das outras turbinas, que se encontram a gerar energia. Às vezes a água é bombeada recorrendo à energia nuclear que está sobrando no sistema geral.As barragens de reversão são construídas em países cujo potencial hidroelectrico se encontra a caminho da exaustão.Em Portugal vão-se construir (Abril 2008) dez barragens de reversão para aproveitarem as potências voláteis das torres eólicas que não podem “entrar” na rede geral.
Quando Cambambe foi inaugurada em 1960 proclamou-se que “ tínhamos barragem para 50 anos”, o que era verdade uma vez que se faziam extrapolações para as taxas de desenvolvimento do marasmo colonial durante o “tempo de jogo” ( 479 anos). Nos 3 minutos do Tempo Extra ( 13 anos de desenvolvimento) começou a ficar patente que a potência de 65 MW, em Cambambe, não iria ser suficiente para Luanda. Para uma taxa de consumo de 300 W por habitante, número baixo se atentarmos ao facto de ser uma cidade de muitas geleiras, frigoríficos, ar condicionado e especialmente indústrias, a barragem atenderia ao consumo de 220 000 habitantes. Ou talvez ela fosse suficiente uma vez que só se contavam os europeus, segundo a optica colonialista .
A independência acabou por não nos mostrar a fraqueza de Cambambe. Aliás em 1972 o relatório anual da empresa concessionária Sonefe consignava uma potência na rede de 72 MW, o que provava a saturação de Cambambe. A independência, e a desorientação que se lhe seguiu, acabaram por disfarçar a fraqueza de Cambambe.
O governo nacionalista de Angola empreendeu a construção da grande barragem de Capanda, no melhor eixo do rio Cuanza, o local por onde se deveria ter começado a geração de energia electrica em Angola, marcada no tempo colonial por muito pouca ambição, que se pode filiar na falta de vontade no desenvolvimento da colónia. A obstrução ao progresso de Angola provinha, totalmente, de Lisboa. Tudo era gerado na Metrópole, de acordo com os interesses dos oligas (oligarquia monopolista).
Mas não é só o Médio Cuanza que pode gerar energia; também os seus afluentes têm caudais e quedas propícias para a obtenção de MW. Já mencionámos o rio Lucala. O Cutato das Mongóias tem condições de armazenar grandes volumes de água e apresenta grandes quedas e corredeiras. No rio Cunje foi implantada, facilmente, uma mini-hídrica que fornecia energia à cidade de Camacupa. O rio Cuquema, a 18 km de Cuito, podia ter abastecido a cidade com cerca de 30 MW, através de uma fácil barragem de terra. No rio Cuito, que passa pela cidade do mesmo nome (ex-Silva Porto) foi inaugurada em 1938 a segunda hidroelectrica de Angola. A primeira foi construída no rio Cuando (afluente do Cunene), no Huambo, por iniciativa do Caminho de Ferro de Benguela, em 1929. A barragem do Cuito foi a primeira hidroelectrica na bacia do rio Cuanza.

1 comentário:

Maria disse...

Sr. Francisco
O seu texto foi muito apreciado, pelo coordenador de um livro "do Cunene a Cabinda" que irá sair durante o IV Raid Kwanza Sul, que decorrerá entre 16 e 29 de Maio.
Curiosamente temos um capítulo sobre o rio Kwanza, com as mesmas fontes. Gostariamos muito de estabelecer contacto consigo.
Agradeciamos, se possível que nos contactasse para o mail mvrestinga@gmail.com
Com os cumprimentos
Vi