Como um dique que rebenta, assim começou o êxodo, perante a estupefação dos líderes do Movimento das Forças Armadas. Estes julgavam que as pessoas se agarrariam aos seus bens. Pensavam que “ia ser igual ao Brasil”. Tinham como certo que os colonos usufruíam de uma vida insubstituível. Que não havia mais mundo para eles! Que não sabiam “fazer pela, vida fora de Angola”! “Que só sabiam explorar os pretos!” “Que não iam deixar o seu património de imóveis”. Mas qual era esse património? Apenas casas modestas ou apartamentos (cochichos copiados dos de Lisboa, sem garagens, com um sanitário por apartamento, as mais das vezes tipo “câmara de expurgo” sem janela). Recordamos, de novo, a frase de Marcelo Caetano:« O português não tem têmpera para suportar demorada e pacientemente contrariedades. Há que assisti-lo a cada passo, sobretudo quando longe da terra natal». O que não funcionou neste caso! Marcelo Caetano abandonou-os.
Ninguém em Angola deixou para trás uma Tara, a fazenda dos O´Hara do filme “E Tudo o Vento Levou” carregada de força telurica. Os donos das boas fazendas, com sedes luxuosas, viviam em Lisboa. As sedes das fazendas dos que residiam em Angola eram modestas e muito recentes. Viviam do seu trabalho. Exceptuando as regiões do café, no resto não eram fazendas, apenas chitacas que não enriqueciam os donos.
Eu só me apercebi disto quando visitei fazendas no Brasil com instalações opulentas. E foram muitas as boas fazendas que visitei no Brasil onde viviam permanentemente os donos. Não viviam no Rio de Janeiro nem em S.Paulo. Ficavam vigiando a manada porque o “melhor pasto é o olho do dono”. Não é sem razão que a cidade de S.Paulo ostenta, orgulhosamente, a divisa:”mando, não sou mandado”. A cidade nunca esperou por decisões vindas de fora! Eles é que decidiam!
No tempo do “marsupialismo colonial” tudo era feito pelos angolanos, mas nada era decidido por eles. Ficava-se sempre à espera das decisões e ordens de Lisboa. Depois da independência, tudo é decidido em Luanda, mas os angolanos, agora, podem esperar eternamente. Tudo é feito pelos doadores, pelas ONG´s, e, ultimamente, pelos chineses. Quando é que Angola começa a “carburar”como país deixando de lado tantos cooperantes ? Alguém acredita que há benfeitores dispostos a ajudar, desinteressadamente, os angolanos ? Alguém acredita que os estrangeiros vão ensinar as suas tecnologias?
Politicamente era uma situação muito complexa agravada pela permanente inacção política, em que se encontravam as gentes de Angola. Inacção filiada na ignorância.E que caracterizou, também, a postura do exército. O exército, em 13 anos de guerra, nunca pensou em soluções políticas, apesar de os militares já estarem saturados de acções no terreno. Infelizmente nunca pressionaram o governo para arranjar uma saída política para o “saco de gatos” em que se tinha transformado o Ultramar.
O exército mantinha-se afastado dos civis, não dialogava com eles, os militares ficavam confinados às suas messes, restaurantes, casões e casulos. Os militares do Quadro só intervinham na vida civil quando “ abichavam um tacho”. E os civis em Angola desinteressaram-se da guerra, “isso é com os militares” dizia a maioria. Mas alguns, com fanfarronices, diziam”qualquer dia vamos nós resolver o problema”. Estes, possivelmente, já tinham comprado sapatos de maratonas, ou até sapatilhas de corridas de 100 m. E tinham um “apartamentozito” em Portugal.
Portugal nunca encarou uma independência endógena, isto é, de dentro para fora (feita pelos residentes angolanos) e o resultado viu-se. Foi uma independência exógena, de fora para dentro, desastrada, em que forasteiros, sem qualquer vínculo com Angola, “esgaravataram”, perante a impotência, a tristeza e muita raiva, dos filhos de Angola. Onde estão agora, e o que fazem, as centenas de “barbudinhos portugueses” que caíram em Angola, como enxames de marimbondos (que me desculpem estes simpáticos ,e úteis insectos, pela comparação), e espalharam o ódio e a discórdia ? E, depois, desapareceram como tinham chegado: sorrateiramente. Será que ainda são marxistas?
O governo central via fantasmas na própria sombra. Marcelo Caetano não se cansava de falar na autonomia progressiva que estava em marcha. Em teoria. Em 1972 foi designado para Presidente da Câmara de Luanda um metropolitano, sem qualquer consulta aos luandenses. Não desmerecendo do ilustre presidente, mas, deste modo, onde é que estava a tal autonomia progressiva? O mesmo se passou em outras Câmaras de Angola. E em quase todos os governos de distrito! Só quando o colonialismo estava agonizante é que houve alguns governadores de distrito angolanos, mas de ascendência europeia.
Mas a “troica” de quatro elementos, um autêntico cavalo de Troia (ou um cavalo da Troica ?), dois dos quais com comissões militares em Angola, tinha obrigação de sentir o problema e ver que, pelos factos negativos, acumulados em centenas de anos, apontados ao longo deste livro, e pela acção nefasta dos comunistas em Lisboa, haveria que acautelar os interesses dos angolanos envolvidos neste furacão africano. O que teria então que ser feito? Com uma transição de alguns anos dar tempo a uma retirada com dignidade, salvaguardando os haveres, as economias e, principalmente, os documentos pessoais. A própria ONU perfilharia uma transição de, no mínimo, 5 anos. O então Secretário Geral da ONU Kurt Waldheim esteve em Lisboa em Agosto de 1974 e ofereceu os seus préstimos ao sugerir uma transição. Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Melo Antunes não aceitaram a oferta de Kurt Waldheim, achavam que era desprestigiante para Portugal. Mas aceitaram os milhões de dólares doados pelos Estados Unidos e outros países. O dinheiro foi todo desbaratado. Este dinheiro obstou a que o turismo em Portugal não entrasse em falência. Facto nunca visto, os desalojados foram aboletados em hotéis de cinco estrelas, mas o tratamento era o de um quartel.
Um entendimento para o qual era necessário muito pragmatismo, mas dentro de parâmetros realistas, a ser encarado por políticos excepcionais. O que infelizmente não foi o caso. A clivagem entre as duas comunidades, a europeia e a africana, foi intencionalmente exagerada com o fim de entregar o país ao bloco soviético. Para quê, afinal? Para descambar no impensável: centenas de multinacionais, os tais “cães imperialistas”, que eles apontavam nas suas arengas, instalaram-se em Angola, onde continuam, com a maior das calmas, a explorar todas as riquezas sem que o estado lhes imponha obrigações, ou as fiscalize,como é norma nos países mais evoluídos onde, também, se encontram instaladas. Mas nestes com obrigações trabalhistas.
Em abono da verdade, o que poderiam fazer os angolanos que ficaram, sem quadros e com o país esfrangalhado, face à invasão dos oportunistas e das multinacionais?
E o que fez a Troica ? Nada. Ingenuamente, ou por maldade porque queriam ver-se livres deles, acreditaram que “os brancos não saiem” e limitaram-se a viajar de cidade em cidade, de Alvor para Nakuru, de Nakuru para Lusaca e, nos intervalos, para Nova Iorque, Paris e outras cidades. As agências de viagens podem confirmar. Negociações? Assina-se tudo o que puserem à frente. O chic era aparecer na primeira página da Time, Newsweek, L´Express, Pravda e outros. Mas, já naquela altura, qual era o interesse em aparecer no Pravda ?
Um dos componentes da “Troica” chegou a pronunciar uma frase histórica, uma óbvia conclusão lapaliciana: «Emoção à parte, só não vê quem não quer que a posição de Angola é substancialmente diversa». Mas, pelos vistos, ele não enxergou. O processo foi igual ao da Guiné, sem desmerecimento por este país.
Comigo passou-se um caso hilariante. Tive que sair pelo terminal normal em Agosto de 1975. Apesar de ainda subsistir a autoridade portuguesa fui revistado de alto a baixo, apreenderam-me todos os escudos angolanos, mas consegui sair com 500 dólares, debaixo do saco, onde um apalpanço se torna embaraçoso. Mas o mais hilariante desta revista foi o facto de me terem apreendido um frasco que continha terra de Silva Porto e de Malanje. Desconfiados, julgando ser pó de ouro ou diamantes escondidos. Deve ter sido a primeira terra expropriada e nacionalizada.
A queima de etapas era inevitável. O entusiasmo pela independência atingiu níveis de intolerância difíceis de conter mas, pelo menos, tinha-se que garantir as vidas e os haveres dos angolanos que repudiavam a índole marxista de que se rodeou todo o processo, e a situação caótica que se instalou no dia a dia. Não eram só os colonos que iam ser abandonados. Milhões de africanos estavam na mesma situação e estes não tinham onde se refugiar. Porque o governo português recusou-lhes a nacionalidade, apesar de estar expresso nos seus bilhetes de identidade que eram portugueses. E de se ter afirmado, sempre, “Portugal do Minho a Timor”.
E foi surpreendente. A maioria dos europeus e descendentes resolveu partir, perante a estupefação dos militares que estavam convencidos que Angola era um novo Brasil. E resolveram partir, também, perante a estupefação ainda maior, milhares de africanos, receosos pelo futuro. E como tinham razão. O tempo mostrou-o, sobejamente.















