BEM-VINDOS A ESTE ESPAÇO

Bem-Vindos a este espaço onde a temática é variada, onde a imaginação borbulha entre o escárnio e mal dizer e o politicamente correcto. Uma verdadeira sopa de letras de A a Z num país sem futuro, pobre, paupérrimo, ... de ideias, de políticas, de educação, valores e de princípios. Um país cada vez mais adiado, um país "socretino" que tem o seu centro geodésico no ministério da educação, no cimo do qual, temos um marco trignométrico que confundindo as coordenadas geodésicas de Portugal, pensa-se o centro do mundo e a salvação da pátria.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A CONVICÇÃO MESSIÂNICA DE NITO ALVES

Orlando Ferraz

Em 27 de Maio de 1977, apenas 19 meses depois da independência, teve lugar em Angola uma denominada pelo então regime de Agostinho Neto de "intentona golpista" comandada por Alves Bernardo Baptista, vulgo Nito Alves, membro do Comité Central do MPLA. O golpe é abortado deixando um saldo de mais de 28 mil mortos.
Henriques Teles Carreira, vulgo Iko, então Ministro da Defesa, joga papel importante e decisivo no julgamento extra-judicial e posterior fuzilamento do cabecilha da rebelião armada, feito por um pelotão de fuzileiros no Grafanil, arredores de Luanda.
Para as milhares de famílias, que perderam seus entes queridos durante e depois da repressão dos insurrectos, o trauma causado por esse pesadelo ainda é 28 anos depois, a pura realidade. Mas o segredo por parte do regime em volta desta questão é considerado Segredo de Estado, ou melhor, e para citar o historiador angolano Carlos Pacheco, "o silêncio tem funcionado tal e qual uma espécie de arca fechada a sete chaves, que se exita em abrir".
Mas seja como for, o 27 de Maio constitui a página mais negra que a história de Angola já conheceu, considerado o facto da atrocidade registar-se numa altura fora do domínio colonial português, aí a gravidade acrescida da mesma.
Mas o labirinto de segredos em volta do 27 de Maio, não é o único mistério que marca a existência da história pré e mesmo colonial de Angola. Verdades sobre os verdadeiros motivos e assassínios de Matias Miguéis, José Miguel Francisco irmão do conhecido cantor angolano "Calabeto" braços direito de Viriato da Cruz, alegadamente mortos por ordens expressas de Agostinho Neto em 1965 no regresso de uma Conferência em Jacarta, na Indonésia de Sukharno, são apenas alguns de muitos outros casos por se esclarecer, tal como as verdadeiras razões que levaram o assassínio de Deolinda Rodrigues, heroína do MPLA. Terá sido em retaliação de Holden Roberto pela morte de Matias Miguéis e José Miguel Francisco? Quem e porquê mataram um tal "camarada" Ferro e Aço? Para não revelar as execuções de Matias Miguéis e Miguel Francisco?
Quais foram as verdadeiras razões que levaram Nito Alves sob conivência do Comité Director do MPLA, a executar o conhecido Comandante Lourenço Casimiro, ou simplesmente "Miro", na chamada Primeira Região político-militar?
Voltando ao tema central, afinal o que esteve por detrás do cenário do 27 de Maio? Tinha necessariamente que existir um 27 de Maio, e a repressão teria que ser tão violenta tal como ela se deu? Que relação histórica teve o 27 de Maio com outras rebeliões e Movimentos contestatários no seio do MPLA, tais como as conhecidas "Revolta do Leste" comandada por Daniel Chipenda e a "Revolta Activa" de Gentil Viana? Por mais retóricas que pareçam estas perguntas em certos círculos do Movimento nacionalista angolano, certo é, entretanto, que elas merecem necessariamente respostas, estudos e reflexão adequadas. Nesta modéstia contribuição o meu objectivo não é por isso confrontar-me com tais perguntas, mas sim, sensibilizar aqueles que detêm o talismã das verdades sobre este complexo e controverso dossier, muitos deles espalhados pela diáspora, para que se pronunciem ou que se calem para sempre.
Não restam dúvidas de que a falta de debate interno, a falta de contestação externamente visível nas lideranças partidárias no seio do MPLA e também da UNITA e mesmo da FNLA, excluía e exclui a possibilidade de se sararem feridas com base na aplicação de melhores métodos para aperfeiçoamento de normas político-morais no seio destes Partidos políticos, antigos Movimentos nacionalistas angolanos.
Ao longo da história da existência do MPLA, UPA/FNLA e da UNITA, todas contestações e dissidências foram repelidas com a maior violência possível por parte das respectivas lideranças, e muito particularmente por parte dos líderes "incontestáveis", Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, respectivamente. Desta forma estava excluído qualquer campo para o debate franco e aberto bem como para crítica e muito menos auto-crítica.
Já o histórico Viriato da Cruz, cuja figura e nome foram publicamente apagados pela poderosa máquina de Informação, o D.I.P do MPLA, não levou da melhor com o seu antagónico, Neto. A ambos eram reconhecidas qualidades como: intelectualidade, disciplina, robustez e perfil políticos e outros adjectivos. Em termos comparativos, entretanto, Viariato da Cruz era, segundo seus contemporâneos, o homem que detinha o poder e influência sobre as massas populares aderentes ao MPLA.
Tal como Viriato, no MPLA também existiu um homem, pese embora e em termos de idade não fazer parte da geração dos fundadores do MPLA, conseguiu a dada altura ganhar vários extractos das massas populares e círculos influentes no seio do Movimento. O politólogo e historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, resumiu assim a pessoa política de Nito Alves, bem como sua inserção e carreira no MPLA: "Ele, como outros da Primeira Região, tinha claramente feito entender a sua diferença quanto a visão que tinham, não só da forma como a luta foi dirigida, mas muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial da sociedade e as questões sociais".
Nito Alves, que aproveitando a soberba chance de organizar o MPLA em Luanda até antes da chegada de Neto a Luanda em Fevereiro de 1975, ganhou naturalmente nome e popularidade e era já conotado como sendo líder de uma tendência pró-soviética, mais tarde provada devido sua assiduidade em Moscovo.
Com a chegada de Neto e seu círculo restrito em Luanda, começam as intrigas com o objectivo de o afastar do círculo restrito do Partido e consequentemente do Presidente Agostinho Neto. As divergências internas foram crescendo, ao ponto de mais uma vez chegarem a existir pelo menos três fracções no seio do Partido: os Netistas (de Agostinho Neto), entre eles também o ideológico Lúcio Lara e Iko Carreira; Os Nitistas (de Nito Alves) apoiado por José Van-Dúnen, Bakalov, Sita Vales e outros; os chamados Tugas, conotados com o Partido Comunista Português-P.C.P. alegadamente mais próximos a Nito Alves.
Este cenário é praticamente parte ou sequência de uma norma que no passado longínquo marcaram as Dissidências no seio do MPLA, quase sempre em forma de Trindade: Facção Neto; Facção Chipenda - também chamada de Revolta do Leste e a Revolta Activa.
Ao se aperceber de que as rebeliões no seio do Movimento visavam reduzir o seu protagonismo e carisma, Agostinho Neto aborta a realização de uma Conferência Nacional do Movimento proposta por dirigentes contestatários da sua liderança, entre eles evidentemente Nito Alves. A partir desta altura, as suspeitas de uma rebelião por parte de Nito Alves e sua forte ala, basicamente militar, estava preto no branco, isto é, era mais do que evidente. Aliás os movimentos preparativos de Nito Alves e sua equipa, nunca passaram despercebidos pela liderança do MPLA, foram sim é menosprezados. Este status quo ganha novos e sérios contornos, uma semana antes da tentativa do golpe de estado, com a agudização da situação para os revoltosos.
A Repressão sobre os insurrectos
O Comité Central do MPLA reúne-se nos dias 20 e 21 de Maio, seis dias antes da intentona golpista, e decide expulsar do grémio central do partido, Comité Central, os dois que viriam mais tarde a ser identificados como sendo os "cabecilhas" do Golpe de Estado, a saber: Nito Alves e Zé Van-Dúnen.
Em consequência deste e outros factos, Neto autoriza a temível máquina repressora da DISA, moldada ao estilo e eficácia da PIDE e com métodos repressivos comparados aos da GESTAPO de Adolfo Hitler e da STASI da antiga RDA, para que fizesse um acompanhamento literalmente severo e consequente da preparação de uma provável insurreição.
Resultado da intentona golpista: mais de 28 mil mortos; mais de 3 mil desaparecidos; mais de metade dos oficiais superiores do Exército no activo (Majores e Comandantes na sua maioria) foram abatidos da forma mais selvagem.
Nito Alves, o homem mais falado e procurado em Angola nos meses de Maio e Junho de 1977, viria a ser alegadamente preso dias depois, tendo sido submetido a um longo e rigoroso interrogatório. Para legitimar a sua própria excussão, foi finalmente forçado a redigir a seguinte sentença de morte, que se supõe ter sido redigida pelo seu próprio punho:

"A decisão da eliminação física dos responsáveis eliminados no dia 27 de Maio de 1977 foi tomada por mim, Zé Van Dúnen e Sita Vales.
Mas é de notar que tal decisão visava apenas os responsáveis de que tínhamos conhecimento correcto da sua prisão: Major Said Mingas, os Comandantes Bula, Dangereaux e Nzaji.
Os outros detidos eram desconhecidos por nós".
Nota de realce, é o facto de, o Comité Central do MPLA admitir na sua nota de informação do Bureau Político do MPLA de 12 de Julho de 1977, Pág.15 (Edições Avante!) uma certa "passividade dos órgãos dirigentes, assoberbados com a complexidade da situação, que exigia soluções para os graves problemas de ordem militar", facto que não terá permitido ter calculado com exactidão, o estado avançado em que a preparação do golpe havia alcançado.
Para o MPLA, e segundo se pôde ler do mesmo documento, tanto Nito Alves como o seu braço direito Van-Dúnen, enveredaram o caminho do fraccionismo, pois a sua "acção deixara de se inspirar nas leituras de Mao Tsé-tung para passar a inspirar-se nas leituras superficiais de alguns textos de Lénine e de outros autores marxistas, que nem sempre eram compreendidos dentro do seu verdadeiro contexto".
Com o aborto da rebelião armada de 27 de Maio de 1977, acabava um sonho recém iniciado como bem o descreve Jean-Michel Tali
"Nito [Alves] queria uma revolução pura e dura, do tipo bolchevique, o seu discurso pró soviético não deixara dúvidas sobre isso. [...]
O importante na minha opinião, é entender a dinâmica sócio-política que desemboca nesta tragédia.
Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito e sua convicção quase messiânica, de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano".

Extractos do 7º capítulo da obra "Angola: Depois da Tempestade a Bonança" com 240 páginas a ser lançado brevemente pelo articulista.

O 27 de Maio de 1977

de: Adolfo Maria
Este excelente livro são relatos do percurso político de Adolfo Maria um ex-membro de Revolta Activa do MPLA. O livro tem copyrigt por isso, pedimos a compreensão e condescendência da editora e do autor porque ele não será facimente acessível ao pessoal de Angola. O tema que aqui transcrevemos já descrito anterioemente tem algumas lacunas as quais serão preenchidas aqui neste texto daí o interesse na sua publicação.
A. M. - Procurou-se chegar a um acordo entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Refira-se que Agostinho Neto aceitou entender-se com a Revolta Activa, mas teve uma atitude muito diferente para com a Revolta de Leste. Esta apresentava-se como a facção armada do MPLA e a FNLA queria que Chipenda participasse nas eleições, mas nenhuma das outras partes aceitou. Aliás, a direcção do MPLA rapidamente tentou a sua destruição, atacando a delegação da Revolta de Leste em Luanda, ataque em que morreu o Comandante Valódia (da minha varanda, no 6.° andar, assisti a esse ataque feito de madrugada, pois a vivenda atacada ficava a poucos metros do prédio onde eu habitava, na Avenida do Brasil). Mais tarde, as autoridades portuguesas - baseadas nos Acordos de Alvor - exigiram que Chipenda desarmasse as suas hostes ou integrasse um dos três movimentos.

Mas estava eu a falar das conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Essas conversações começaram em Janeiro de 1975, numa casa do Bairro do Saneamento, em Luanda. Na primeira reunião fomos recebidos por Agostinho Neto, que nos apertou a mão e nos mandou reunir com a delegação da direcção. Essa delegação era constituída por Lúcio Lara, Iko Carreira e Nito Alves, enquanto a nossa era formada por Mário de Andrade, Amélia Mingas e eu.
A direcção propunha que nós fizéssemos uma autocrítica individual e depois poderíamos reintegrar o movimento; a nossa posição era a de criar uma plataforma de princípios básicos que serviriam à nossa integração no movimento. Afirmámos, inclusive, que queríamos entrar como militantes de base. Cada delegação expressou o seu ponto de vista e acordou-se que cada uma iria estudar as propostas da outra e depois seria realizada uma segunda reunião.
Ela realizou-se em Março e, depois, ainda houve uma terceira reunião - já com tiros em Luanda - mas sem resultados positivos. As composições das delegações variavam de reunião para reunião. Pela parte da direcção, além da participação de Lara, houve a participação de Pepetela, Bento Ribeiro (Kabulo). Pela nossa parte, eu deixei de participar, Mário de Andrade era um participante permanente e participaram Maria do Céu e Amélia Mingas.
Para a direcção do MPLA, as conversações connosco deixaram de ter qualquer importância, dado que estava empenhada no próximo aniquilamento da FNLA e da UNITA. As conversações foram interrompidas e a situação caiu num impasse.

Veio a batalha de Luanda, o MPLA expulsou a FNLA e a UNITA da capital, em Julho de 1975. Voltámos a insistir com a direcção do MPLA e realizou-se então uma reunião que decorreu na Vila Alice, na sede do MPLA, estando presentes Nito Alves e Dilolwa pela direcção e Gentil Viana, Monimambo e Adolfo Maria pela Revolta Activa. Nessa reunião, Nito Alves reiterou friamente e com um encolhido Dilolwa a seu lado que era necessário os membros da Revolta Activa fazerem uma autocrítica «perante as massas».
F. P. - Um momento, só um aparte. No contexto do avolumar dos combates entre os três movimentos, qual foi a vossa posição em relação à guerra civil?

A. M. -
A Revolta Activa era frontalmente contrária à guerra civil porque estava ciente das suas terríveis consequências. No terreno, verificava-se que o MPLA não estava em perigo, até tinha uma posição favorável. Mantivemo-nos fora dessa guerra. Mas também é verdade que um ou outro militante da Revolta Activa, a título individual, combateu pelo MPLA contra a FNLA, durante a batalha de Luanda.
A nossa acção enquanto grupo político foi sempre em prol da paz. Por exemplo, durante a conferência de Nakuru, em meados de 1975, os dirigentes de alguns países africanos procuraram conciliar os três movimentos. Nós, então, conseguimos a publicação no jornal Comércio de Luanda de um documento que demonstrava os males que uma guerra civil traria a Angola e onde fizemos um apelo aos líderes políticos angolanos para que recorressem à nação, a fim de se encontrar o caminho para resolver os seus conflitos. O Comércio foi o único jornal que aceitou publicar o nosso apelo, todos os outros (Diário de Luanda, ABC e Jornal de Angola - ex. Província de Angola), tal como as estações de rádio recusaram-se terminantemente a publicá-lo (já estavam sob o total controlo do MPLA). Sublinhe-se que o documento publicado não era um documento da Revolta Activa, mas sim um apelo subscrito individualmente por alguns patriotas: Joaquim Pinto de Andrade, João Baptista, Maria do Céu Reis, Gentil Viana, Adolfo Maria, Amélia Mingas, Luís Carmelino (Jota) e Manuel Videira.
F. P - Podemos continuar com a narração dos factos relativamente à Revolta Activa. Dizia-me que as reuniões entre os delegados da Revolta Activa e os delegados da direcção do MPLA não produziram resultados significativos...

A. M. -
Não houve mais reuniões por largos meses. Mas, logo após a independência, para além dos constantes ataques na imprensa à UNITA e à FNLA, começaram os ataques contra os chamados fraccionistas do MPLA, os ditos «oportunistas» que se tinham levantado contra a direcção do MPLA e contra os quais seria movido um combate impiedoso.
Esses ataques visavam sobretudo os grupos de jovens que tinham ajudado a implantar o MPLA em Luanda, os dos Comités Amílcar Cabral - depois Organização Comunista de Angola (OCA) - e a Revolta Activa.
Nessa campanha do MPLA contra os ditos fraccionistas empenhavam-se raivosamente nos jornais os escribas oficiosos e oficiais como Ndunduma, enquanto nos comícios se empenhava Nito Alves, Ministro da Administração Interna, publicamente apostado na punição dos elementos da então ex-Revolta Activa. A campanha intensificou-se até ao paroxismo após a retirada das tropas sul-africanas de Angola, em Março de 1976.

As cadeias deixadas vazias pelo defunto regime colonial-fascista encheram-se com membros da FNLA e da UNITA que tinham escapado à liquidação física na «batalha de Luanda». Mas não só com estes.
O MPLA começava também a encarcerar nessas cadeias os seus próprios militantes. Os presos eram indivíduos que militavam nos Comités Amílcar Cabral e alguns nos Comités Henda (convém precisar que esta última organização forneceu a maior parte dos quadros que apoiaram Nito Alves na contestação da direcção de Neto).
Entre os presos, estavam os irmãos Rasgado, Manuel, Enes Ferreira, Castro Paiva, Graça Vieira Lopes, Leonel, Rosa da Silva, dos Comités Amílcar Cabral (ou OCA) e também os irmãos Fernando e Carlos Pacheco, Rui Ramos, Loló Kitumba, Aragão, Vasconcelos, Chico Zé (este viria a desaparecer aquando da maciça repressão desencadeada pelo regime, após o golpe de 27 de Maio). Da Revolta Activa estavam presos Rui Castro Lopo e Manuel Videira.
Os ataques públicos contra a Revolta Activa avolumaram-se desmedidamente, muito embora estivéssemos dispostos a retomar as conversações. O nosso mensageiro junto da direcção do MPLA era o médico Eduardo Santos. Este desligara-se da Revolta Activa, fazendo uma autocrítica escrita, que apresentou a Agostinho Neto. Hugo de Menezes fizera exactamente o mesmo. Eduardo Santos conseguiu que Neto recebesse Joaquim Pinto de Andrade. Este explicou-lhe que nós só queríamos reintegrar o MPLA como militantes de base e de modo algum queríamos pôr em causa a sua presidência. Disse-lhe que nem sequer queríamos discutir as questões que tinham levado à constituição da Revolta Activa, uma vez que vivíamos então outro momento histórico completamente diferente.
Por outro lado, crescia, no seio do MPLA, a luta entre Agostinho Neto e Nito Alves. Nesse combate, naturalmente que a Revolta Activa era um excelente instrumento para cada um deles. Aparentemente tinham posições diferentes sobre ela. Agostinho Neto quereria a nossa neutralização política e mesmo banimento, mas talvez não quisesse a nossa liquidação, até porque alguns de nós tinham um certo prestígio fora de Angola; daí que uma atitude menos dura em relação a nós pudesse funcionar positivamente para a sua imagem. Ao invés, Nito Alves queria a nossa liquidação, isto é, o nosso esmagamento político e físico. Naquele momento, a Revolta Activa havia perdido praticamente toda a sua influência e muitos dos seus elementos tinham-se aliado à direcção do MPLA. Neste contexto, um outro factor nos preocupava: víamos prevalecer o desejo de vingança pessoal por parte de alguns membros da direcção, sobrepondo-se ao interesse político ditado por uma resolução pacífica do diferendo.
F. P. - Depois da independência, ainda houve conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA?
A. M. - Nos primeiros meses de 1976 (Janeiro ou Fevereiro) houve uma reunião em casa do médico Eduardo Santos entre uma delegação da direcção do MPLA, constituída por Nito Alves e Dilolwa, e membros da Revolta Activa: Gentil Viana, Jota, Amélia Mingas, Monimambo e eu próprio. Nito Alves disse que era forçoso que os membros da Revolta Activa fizessem publicamente a sua autocrítica. Mas alguns de nós responderam que isso não tinha sentido. Aliás, o próprio MPLA continuava a caluniar-nos e a acirrar a população contra nós, pelo que essa autocrítica em praça pública seria apenas o ponto de partida para o nosso linchamento.
Não havia também quaisquer razões para a autocrítica porque a discussão dos problemas tinha sido interrompida e aquele não era o momento para discutir as questões que estiveram na base do aparecimento da Revolta Activa. Perante a nossa resposta, a tensão subiu muito entre Nito Alves e Monimambo. Este, de dedo em riste e fuzilando com o olhar Nito Alves, disse-lhe mais ou menos isto:
«Quem és tu, camarada, para exigir de mim uma autocrítica?! Mete na tua cabeça que nunca vais ter o prazer de ver-me fazer uma autocrítica perante ti!».
De certa forma, Monimbambo, comandante do MPLA desde 1961, kikongo, ajustava contas com Nito Alves, que integrara aí a Região Militar como professor, vindo de Luanda, em 1969. Nito Alves tinha rapidamente ascendido a comissário político, substituindo Miro (Casimiro), que o Comando dessa lª. Região tinha feito enforcar, em 1970/1971 - Comando de que então Nito Alves já fazia parte. Os olhares de Monimambo e Nito Alves eram de profundo e mortífero ódio. Sentimos, pela expressão de Nito Alves, que o problema era insolúvel. Terminara a reunião, foi glacial a despedida.
F. P - O que sucedeu a partir daí?
A. M. - Nito Alves foi à União Soviética. Quando regressou fez um violentíssimo discurso contra nós no Comissariado Municipal de Luanda, onde afirmou que havia traidores no seio do aparelho de Estado, isto é, indivíduos da Revolta Activa, com empregos e benesses do Estado, cuja acção nefasta era preciso eliminar. Este discurso, feito a 28 de Março de 1976, foi profusamente retomado e difundido pelos jornais e rádio.

Perante esta declaração pública tão clara e explícita nas suas intenções, voltámos a contactar Agostinho Neto, alertando-o para o perigo que corriam as nossas vidas e para o desprestígio que a nossa liquidação traria ao MPLA. Por intermédio do médico Eduardo Santos e de Joaquim Pinto Andrade, Agostinho Neto respondeu-nos que devíamos enviar uma declaração ao Bureau Político, que reuniria a 10 de Abril de 1976 (num sábado). Reunidos em casa de Eduardo Santos, redigimos esse documento onde, em síntese, afirmávamos isto: estávamos dispostos a integrar o movimento na condição de militantes; não existiam mais os pressupostos que tinham levado à nossa tomada de posição em Maio de 1974 e, tal como no passado, tudo faríamos para a defesa do MPLA na luta contra os seus inimigos.
O documento foi entregue numa quinta ou sexta-feira a Agostinho Neto. Na segunda-feira à tarde ainda não tínhamos obtido resposta, pelo que resolvemos telefonar ao Secretariado do Bureau Político. Lúcio Lara era o Secretário desse órgão, sendo sua secretária Elsa Sousa Almeida, mulher do Juju, que nos respondeu que teríamos a resposta no dia seguinte.
De facto, a resposta veio no dia seguinte! Na terça feira de manhã, dia 13 de Abril de 1976, a minha mulher irrompeu na repartição onde eu trabalhava e disse-me que António Jacinto (era então ministro da Educação) a chamara para lhe perguntar onde eu trabalhava. A informação seria para Hélder Neto (um dos responsáveis da DISA, a polícia secreta).Temendo a minha prisão, pediu à colega e amiga Rute Magalhães para levá-la de carro ao meu local de trabalho, a fim de me informar do que se estava a passar. Então, eu compreendi que vinham à minha procura para me prender. Dei instruções sobre o serviço e saí da repartição. Vi dois enormes indivíduos a falarem animadamente com uma funcionária do sector das cooperativas, a Clara (vim a saber muito tempo depois que eram os agentes que me deviam prender). Pedi à minha mulher para ir avisar Gentil Viana e Joaquim Pinto de Andrade. Eu também me dirigi de carro a casa do Joaquim, que morava num bairro perto do Hospital Maria Pia. Não estava em casa. Voltei a encontrar-me com a minha mulher que vinha com a Rute no carro avisar o Joaquim. Informaram-me que o Gentil Viana não estava na repartição onde trabalhava, o que me inquietou. Soube depois que ele fora levado pela DISA, na sequência de uma ordem de prisão assinada por todos os membros do Bureau Político.
F. P - Então, em Abril de 1976, houve uma ordem de prisão para vários membros da Revolta Activa. Pode descrever como é que se desenrolou o processo de prisão ou de fuga dessas pessoas? O que é que lhe aconteceu?
A. M. - Na rua, despedi-me da minha mulher e da Rute, sabendo que tudo me poderia acontecer! Dirigi-me sozinho ao local de trabalho do Edmundo Gonçalves, na CAOR Em nome do nosso passado e amizade pedi-lhe para me levar para casa dele, na Vila Alice (ou Vila Clotilde), que estava vazia. Pedi-lhe também para contactar a minha comadre, Helena Morais, a qual me tinha dito que havia uma casa vazia onde poderia ficar, uma vez que a dona estava de férias em Portugal. Refira-se que eu já estava há alguns meses a dormir fora de casa, tal como Gentil Viana, Paiva e outros - nós já conhecíamos bem o MPLA. Edmundo Gonçalves fechou-me na sua casa e avisou a Helena e o Alfredo Morais, os quais me levaram escondido no seu carro para um apartamento, situado no fundo da ferradura do antigo liceu Salvador Correia, em frente à COOPETROL.
Cerca das três horas da tarde desse dia, eu já estava sozinho, bem escondido, mas numa enorme angústia, sem saber o que se passava lá fora. Mais tarde vim a saber que a rusga geral começara às 10. 00 da manhã - o Gentil Viana foi preso mais ou menos a essa hora; depois foram presos os Pinto de Andrade: Vicente, Justino e Merciano, o Talangongo, Capita, Rafael (cunhado de Manuel Jorge), Lukamba, Tito Gonçalves, Brooks. Dois dias depois é preso Fernando Paiva. Dessa rusga geral escaparam, por se terem escondido, Jota Carmelino, Menezes (irmão de Talangongo) e Adolfo Maria.
Os nossos camaradas presos foram todos encaminhados para a antiga prisão da PIDE, na Vila Alice, excepto Gentil Viana que ficou à guarda dos cubanos, creio que na antiga fortaleza do Penedo, na Boavista. Na prisão (a antiga cadeia da PIDE), os primeiros encontraram outros membros da Revolta Activa que já tinham sido presos muito tempo antes: Rui Castro Lopo e Manuel Videira. Depois de preso, Gentil Viana entrou em greve de fome, pelo que foi transportado em coma para a clínica D. João III, no bairro Prenda. Voltou a sair da clínica depois de ter ficado cego de uma vista e de ter debelado uma grave infecção numa costela. Uma semana depois da rusga, Jota Carmelino resolveu apresentar-se. Nove meses depois de estar escondido, Menezes fez saber da sua existência e foi preso. Antes disso, foi alvo de uma tareia monumental, possivelmente dada por homens da DISA (a polícia secreta do regime). Quanto a mim, estive escondido desde Abril de 1976 a Novembro de 1978, mais de dois anos e meio, na mais absoluta clandestinidade, da qual viria a sair mais tarde, porque entretanto Agostinho Neto tinha amnistiado os antigos elementos da Revolta Activa.
F. P. - E onde é que estão os outros grandes expoentes da Revolta Activa? Estou a referir-me a Joaquim Pinto de Andrade, Mário Pinto de Andrade, Maria do Céu Carmo Reis, e outros...
A. M. - Maria do Céu Carmo Reis e Mário Pinto de Andrade estavam ausentes de Angola desde meados de 1975, por razões académicas. Joaquim Pinto de Andrade estava em Angola, mas não foi objecto de prisão, creio que pelo prestígio internacional de que gozava. No entanto, durante o período que foi director do Instituto Pedagógico, foi duramente enxovalhado, através de panfletos colados nas paredes, denunciando-o como traidor, e chegou a ser levado para uma esquadra.
Quando se deu a prisão de Gentil Viana, Joaquim Pinto de Andrade escreveu uma carta a Agostinho Neto. É um vigoroso documento de apelo à razão, com várias frases em latim, alertando o Presidente para o que podia cair sobre ele próprio - Cônsul coveont! (Cuidado Cônsul!), isto é, estás a fazer o que pode vir a acontecer-te. Monimbambo deve ter feito algum acordo com Agostinho Neto ou então Neto não quis afrontar a forte corrente kikongo, mas o que é certo é que ele foi enviado para a Jugoslávia, para frequentar um curso de Altos Estudos Militares. Amélia Mingas não foi presa, possivelmente porque membros da sua família pertenciam à equipa do poder, nomeadamente o seu irmão Saydi Mingas, que era Ministro do Planeamento. Manuel Jorge estava em Portugal, estava em Portugal onde se encontrava desde 1975, a concluir o seu curso, tendo depois ido para França, onde hoje é advogado e professor universitário.
F. P - O período da sua clandestinidade correspondeu a um momento muito conturbado da história do novo Estado angolano. Refiro-me aos acontecimentos que estiveram em torno do golpe de 27 de Maio de 1977. A partir do seu isolamento conseguiu acompanhar a evolução política dopais?
A. M. - Sim, consegui acompanhar a vida política angolana porque recebia semanal ou quinzenalmente (para além de géneros alimentares) jornais e informações do exterior do meu abrigo, que analisava. Aliás, eu próprio enviava para o exterior informações, escritas em letra miudinha, contendo dados biográficos dos presos políticos, para se fazer campanha em Portugal pela sua libertação.
O ano de 1976 caracterizou-se pela consolidação do MPLA no poder: as tropas sul-africanas tinham retirado do Sul de Angola em Março, por instruções de Kissinger; as forças da FNLA, da UNITA e dos seus aliados pareciam ter sido esmagadas; os contestatários da linha política seguida pela direcção do MPLA, isto é, a OCA e a Revolta Activa, estavam presos e aparentemente parecia haver todas as condições para que o MPLA exercesse tranquilamente o poder.
No entanto, não era assim. Através dos jornais e dos noticiários verifiquei que se agudizava a surda luta pelo poder no interior do MPLA, entre Nito Alves e Agostinho Neto. Em Junho de 1976, deu-se já um confronto, visível na campanha das eleições para o poder popular, onde se decidia a escolha dos elementos das comissões de bairro, autarquias, etc. Até apareceu no jornal um poema de Hélder Neto, um delirante hino ao chefe (o Presidente), onde se dizia em óbvia alusão que Neto se escreve com e. Nito Alves apostava fortemente na vitória dos seus elementos nessas eleições e o facto de ser Ministro da Administração Interna favorecia a sua acção. Apesar disso, não conseguiu inteiramente os seus intentos, porque Agostinho Neto e Lúcio Lara mobilizaram fortemente o aparelho do movimento afecto a eles. Mas Nito Alves foi colocando elementos seus nas Forças Armadas e na DISA, preparando o assalto ao poder.
Embora os órgãos de comunicação reproduzissem cada vez mais o pensamento único do MPLA, havia diversas cambiantes, pelo que era possível apreender, através delas, as tensões que perpassavam pelo MPLA. Conforme uma ou outra parte tinha mais influência num ou noutro órgão, trocavam-se acusações do tipo: «as atitudes radicais podem trazer prejuízos para o povo!», «os que propagam o radicalismo actuam criminosamente!» ou «a revolução proletária não se faz com a pequena burguesia» e «há que levar a revolução até às últimas consequências».
A partir dos finais de 1976, sente-se que está eminente uma qualquer acção ou reacção, seguramente violenta. Entretanto, Agostinho Neto conseguia o controlo quase total dos meios de comunicação, colocando os seus homens nos lugares chave, o que lhe deu uma vantagem substancial em relação a Nito Alves. No geral, a rádio e a imprensa passaram, a veicular as ideias da direcção do MPLA, embora a facção de Nito Alves conseguisse ter alguma expressão nalguns órgãos, nomeadamente a Rádio Nacional e o Diário de Luanda.
F. P. - Então, o golpe de 27 de Maio de 1977 não foi uma surpresa para si?!
A. M. - O que aconteceu em 27 de Maio não foi de modo algum uma surpresa para mim, quanto à sua essência. Pela minha experiência e vivência no MPLA, via que algo de grave iria acontecer, embora não pudesse prever a forma que tomou o desfecho.
Já há muito que esperava um confronto, sobretudo conhecendo as personagens: a ambição de Nito não tinha limites, Neto não perdoava a disputa do seu poder. Portanto, a tensão dos primeiros meses de 1977 nada mais era que o preparar de um golpe final por cada uma das partes disputando o poder: a facção de Nito Alves e a da direcção do MPLA, presidida por Agostinho Neto.
O aparelho de propaganda do MPLA desencadeara uma contínua e violenta campanha contra os chamados fraccionistas. Fora assim antes da proclamação da independência (último trimestre de 1975),visando alguns membros dos Comité Henda, mas sobretudo os do Comité Amílcar Cabral, transformados depois em OCA. Fora assim no período que antecedeu as prisões de membros da Revolta Activa (Março e Abril de 1976). Agora, desde pelo menos o início de 1977, os editoriais do Jornal de Angola, do Costa Andrade (Ndunduma), e a propaganda da Rádio Nacional de .Angola falavam da necessidade de castigar severamente os candidatos a novos fraccionistas.
Entretanto reunia o Comité Central do MPLA e nomeava uma comissão de inquérito para apuramento das «actividades fraccionistas». Tempos depois, em 21 de Maio, em reunião para análise das conclusões dessa comissão, o Comité Central suspendeu das suas funções os seus membros Nito Alves e José Van Dunem. Parece que muitos pensaram que Nito Alves tinha sido neutralizado politicamente. Mas a verdade é que ele decidiu passar à acção e desencadeou o golpe militar em 27 de Maio de 1977. Não se supunha uma capacidade de acção militar tão grande por parte de Nito Alves, mas a verdade é que ele tinha consigo muitos elementos das FAPLA (o exército) e da DISA (a polícia política).
O golpe fracassou, mas foi sangrento. Foram mortos alguns quadros importantes fiéis à direcção do MPLA, nomeadamente Nzaji, Saydi Mingas, Eurico, Dangereux. Os «nitistas» chegaram a apoderar-se da cadeia de S. Paulo, onde Hélder Neto - comandando as forças da DISA defensoras da cadeia - se suicidou no momento em que entraram. Libertaram quase todos os presos e agruparam para o fuzilamento os membros da Revolta Activa ali detidos, que se salvaram in-extremis. De facto, o pelotão de fuzilamento que se estava a formar debandou ao ouvir o som dos blindados cubanos. Eu só soube disto dias depois, mas, ainda na manhã desse dia, vieram-me contar, em sobressalto, que tinha havido um golpe e que os tanques estavam na rua. Até comentei que se calhar isso era bom. Mas estava profundamente enganado e apercebi-me disso quando vim a saber o que se tinha passado na cadeia de S. Paulo e tive outros pormenores dessa acção.
No entanto, julgo que nada justificava a posterior fúria sanguinária de vingança decretada por Agostinho Neto, no fim da tarde de 27 de Maio de 1977, quando afirmou que não haveria perdão. A repressão foi multirracial: militantes e quadros negros, mestiços e brancos foram fuzilados. Só nos primeiros dias subsequentes ao golpe foram fuziladas mais de dez mil pessoas, no conjunto das várias cidades angolanas...
F.P.- Onde é que foi buscar esses números?
A. M. - Repare, em Malange foram fuziladas logo mais de mil pessoas e no Moxico, no Huambo, no Lobito, em Benguela, no Uíge e em Ndalatando aconteceu exactamente o mesmo. No Bié foram mortas menos, cerca de trezentas pessoas. Em Luanda os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses, incluindo pessoas que foram presas por outras razões. As liquidações físicas começaram por ser ordenadas superiormente e depois muitas delas foram feitas arbitrariamente pelo próprio pessoal da DISA, muitas vezes por meros ajustes de contas.
Foi o caso, entre muitos outros, de um amigo meu, Bogalho, que trabalhou comigo na Angola Combatente, aderiu à RA e depois do Congresso tornou-se chipendista. As cadeias eram sucessivamente cheias e sucessivamente esvaziadas, desaparecendo as pessoas.
No total, calcula-se que foram mortas mais de trinta mil pessoas. Entretanto, também eram criados campos de concentração no Cuanza-Sul e no Moxico e reactivados os do tempo colonial.
F. P. - Essas afirmações são muito graves. Quais são as suas provas?
A. M. - As provas são os relatos dos meus camaradas que estiveram na prisão e viram as pessoas a entrar e a sair, não mais voltando a aparecer. As pessoas da OCA e da Revolta Activa sabem bem que, durante meses, as cadeias se enchiam e se esvaziavam rapidamente. Para além disso, há os relatos de fuzilamentos das pessoas que vieram de Malange e de outras cidades e o próprio Ndozi confidenciou à minha mulher que estava a morrer muita gente. E ainda hoje há uma reivindicação das famílias das pessoas desaparecidas, que exigem que as autoridades apresentem, pelo menos, as certidões de óbito. Só que Angola não é a Argentina nem o Chile... Outra prova é o persistente e pesado silêncio do regime de Luanda e dos cúmplices desta monstruosidade.
Também é triste, nisto tudo ocorrido após o 27 de Maio de 1977, saber-se que alguns intelectuais angolanos colaboraram com o regime nos interrogatórios dos presos!
F. P. - Pode descrever a situação política, social e económica de Angola no período subsequente ao golpe do 27 de Maio de 1977, tal como a apreendeu através dos jornais e das informações que lhe chegavam do exterior?
A. M. - 1977 é um ano de profunda cisão no interior do MPLA, nas famílias apoiantes do movimento e no conjunto da sociedade angolana. Dou-lhe um entre muitos exemplos: na família Mingas, o Saydi foi uma das primeiras vítimas dos «nitistas»; o seu irmão, Zé, que era agente da DISA e «nitista», foi preso e desapareceu depois, levado de noite da cadeia para a morte; a irmã, Amélia, era da Revolta Activa, o seu marido, Jota (membro da RA) fora preso pelo regime e escapara de ser fuzilado na cadeia pelos «nitistas».
O ano de 1977 é também um ano de imenso luto e de profundo temor, sobretudo em Luanda. O MPLA ficou muito desfalcado de quadros porque muita gente instruída - sobretudo jovens - estava com o Nito Alves. Simultaneamente, houve um fortalecimento da atitude repressiva do poder, numa conjugação de acções do partido, dos órgãos de informação, da polícia política e das forças armadas. A DISA e as FAPLA foram objecto duma purga enorme, por via da liquidação física dos «nitistas» — ou suspeitos de o serem! O critério principal era eliminar os indivíduos que mais se distinguiam - os quadros que já estavam mais ou menos identificados com o «nitismo». Mas a repressão foi muito para além disso.
Não havia perdão para todo e qualquer indivíduo que fosse denunciado num interrogatório, desde que pertencesse às FAPLA ou à DISA.
No início de 1978 o país estava finalmente (ou aparentemente) em paz: era a paz dos cemitérios e do medo colectivo! Mas o aparelho económico estava totalmente desorganizado; as carências alimentares e de abastecimento à população eram enormes (havia escassos supermercados só para a nomenclatura, enquanto nos chamados armazéns do povo não havia pão, sal, açúcar, óleo, sabão e outros bens básicos); as populações estavam desiludidas com os frutos da independência a ponto de alguns populares lamentarem a própria independência em declarações feitas em reportagens. Essas declarações feitas a órgãos de comunicação social submetidos a férrea censura do director podem espantar, mas elas apareciam porque eram arma de arremesso de uns dirigentes contra outros, em vésperas de remodelações (esse filme já eu conhecia há muito). Aliás, foi e continua a ser a prática corrente do regime angolano.
Mas voltemos a descrever o que se passava. Havia as maiores carências económicas, os estratos populares sofriam com a falta de tudo, géneros aumentares, cuidados de saúde, água potável, energia eléctrica, etc. Entretanto, continuava a crescer o aparelho de Estado — polícia, exército, funcionalismo das empresas estatais — o que trazia benesses a numerosas famílias. Isto significa que o aparelho de Estado começava a ser fonte de privilegiado sustento de numerosos responsáveis. As diferenciações sociais manifestavam-se cada vez mais e de várias maneiras, desde moradias a carros atribuídos a responsáveis políticos ou do Estado, em proporção com a hierarquia dos cargos. Tal prática consubstanciava-se assim em comentários populares: «O professor pede ao aluno para conjugar o verbo devolver. O aluno conjuga: eu de Volvo, tu de Lada, eles a pé!». Casos de corrupção começavam já a ser notórios. A situação interna era, portanto, muito difícil para o regime do MPLA. (...)

de: Adolfo Maria

PURGA EM ANGOLA - O 27 de MAIO de 77


Os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 em Angola, que provocaram milhares de mortos, foi um "contra-golpe" resultado de uma provocação, longa e pacientemente planeada, tendo como responsável máximo Agostinho Neto, que temia perder o poder.

Esta é uma das principais conclusões do livro "Purga em Angola - O 27 de Maio de 1977", da autoria dos historiadores portugueses Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, lançado em Lisboa.
Há 30 anos, Nito Alves, então ministro da Administração Interna sob a presidência de Agostinho Neto, liderou uma manifestação para protestar contra o rumo que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) estava a tomar.

Segundo o livro "havia que evitar que os 'nitistas' chegassem ao Congresso, anunciado para finais de 1977" porque "existia o sério risco de conquistarem os principais lugares de direcção".
"A preocupação de Neto e dos seus era, pois, o poder. E pelo poder fariam tudo", acrescenta.
Dalila Mateus afirmou que as informações constantes no livro não serão "a verdade completa" sobre o 27 de Maio, mas serão, "certamente, a verdade possível, que não estará muito longe da realidade".
Por seu lado, Álvaro Mateus afirmou que o objectivo é recordar "um passado sombrio, na esperança de que não se volte a repetir".
Na versão oficial, através de uma declaração do Bureau Político do MPLA, divulgada a 12 de Julho de 1977, o 27 de Maio foi uma "tentativa de golpe de Estado" por parte de "fraccionistas" do movimento, cujos principais "cérebros" foram Nito Alves e José Van-Dunem, versão que seria alterada mais tarde para "acontecimentos do 27 de Maio".
Nito Alves e José Van-Dúnem tinham sido formalmente acusados de fraccionismo em Outubro de 1976. Os visados propuseram a criação de uma comissão de inquérito, que foi liderada pelo actual Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, para averiguar se havia ou não fraccionismo no seio do partido.

As conclusões desta comissão nunca chegaram a ser divulgadas publicamente mas, segundo alguns sobreviventes, revelariam que não existia fraccionismo no seio do MPLA.
De acordo com o livro, o próprio José Eduardo dos Santos e o primeiro-ministro de então, Lopo do Nascimento, seriam também alvos a abater pela cúpula do MPLA. O actual Presidente terá sido salvo pelo comissário provincial do Lubango, Belarmino Van-Dúnem.
Os apoiantes de Nito Alves consideravam que o golpe já estava a ser feito por uma ala maoísta do partido, liderada pelo secretário administrativo do movimento, Lúcio Lara, e que terá instrumentalizado os principais centros de decisão do partido e os media, em especial o Jornal de Angola, pelo que consideraram que a manifestação convocada por Nito Alves foi "um contra-golpe".
Os autores do livro hoje lançado chegam à mesma conclusão depois de cruzarem a informação recolhida, desde entrevistas a sobreviventes, ex-elementos da polícia política (DISA) e antigos responsáveis do MPLA, a notícias ou arquivos da PIDE e do Ministério dos Negócios Estrangeiros português.
De acordo com o estudo, "a purga no MPLA atingiu enormes proporções" e é citado um livro laudatório de Agostinho Neto em que se assinala que "o número de militantes do MPLA, depois das depurações, baixara de 110.000 para 32.000".
Em relação ao número de mortos, os autores optam pela versão dos 30.000, justificando que "no meio-termo estará a virtude", depois de analisarem dados tão díspares que vão dos 15.000 aos 80.000.
O livro tenta reconstruir os acontecimentos antes, durante e pós 27 de Maio de 1977 e dá conta de testemunhos que referem os horrores a que os chamados fraccionistas foram submetidos, desde prisões arbitrárias, a tortura, condenações sem julgamento ou execuções sumárias.
O apontado líder do alegado golpe de Estado terá sido fuzilado, mas o seu corpo nunca foi encontrado, tal como o dos seus mais directos apoiantes como José Van-Dúnem e mulher, Sita Valles, que foi dirigente da UEC, ligada ao Partido Comunista Português, do qual se desvinculou mais tarde, e foi expulsa do MPLA.
Em Abril de 1992, o governo angolano reconhece que foram "julgados, condenados e executados" os principais "mentores e autores da intentona fraccionista", que classificou como "uma acção militar de grande envergadura" que tinha por objectivo "a tomada do poder pela força e a destituição do presidente (Agostinho) Neto".
Segundo os autores do livro, "as principais responsabilidades" do 27 de Maio "recaem por inteiro sobre Agostinho Neto" que "não se preocupou com o apuramento da verdade, dispensou os tribunais, admitiu que fizessem justiça por suas próprias mãos".
O então Presidente da República "acabaria por se revelar o chefe duma facção e não o árbitro, o unificador. Dominado pela arrogância, pela inflexibilidade e pela cegueira, foi incapaz de temperar a justiça com a piedade", referem.
Quanto à herança do 27 de Maio, o livro conclui que "Angola perdeu muitos dos seus melhores quadros: combatentes experimentados em mil batalhas, mulheres combativas, jovens militantes, intelectuais e estudantes universitários".
"Os vencedores do 27 de Maio parece terem conseguido o milagre de fazer desaparecer os que sonhavam com um futuro melhor, mais igualitário e mais fraterno para os angolanos", dizem, acrescentando que se "impôs no país um clima de medo e de violência" porque falar do 27 de Maio se tornou "um tabu".
Destacando que este é um livro "para gente boa", Álvaro Mateus cita uma frase de Martin Luther King: "O que mais nos preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem carácter, nem dos sem moral. O que mais nos preocupa é o silêncio dos bons".

LUANDA - PALCO DE HORRORES


A norte de Angola, na aldeia Kaleba, Francisco Karicukila esconde Sita Valles.
Não se lembra do ano em que nasceu, mas sabe que em 1966 já lutava pela libertação de Angola. Foi preso e torturado pela PIDE no campo de São Nicolau, onde conheceu Zé Van Dunem, companheiro de clandestinidade. Depois da independência, a UNITA por duas vezes arrasou a aldeia, matou mulheres e crianças. Agora os seus sonhos caíam por terra, os antigos perseguidos vestiam-se de perseguidores, calavam os seus próprios companheiros. Mas Sita ainda não perdeu as esperanças. «A revolução é assim: lenta», dizia-lhe. Luanda tornava-se palco de horrores.
Todos os que se haviam cruzado com Sita têm a vida por um fio. As cadeias enchem-se. Costa Martins, ex-ministro do Trabalho de Vasco Gonçalves, exilado em Angola desde 25 de Novembro de 1975, é novamente embrulhado pela História. Publicamente, é acusado de pertencer aos serviços secretos franceses e de estar do lado dos fraccionistas. Mas, na cadeia, acusam-no de pertencer ao PCP e de ser espião do KGB. É um misto de tragédia shakespeariana e ópera bufa. Na sala de tortura, elementos da DISA, portugueses e angolanos, apuram técnicas. Carlos Jorge, Pitoco e Eduardo Veloso espancam-no durante um interrogatório algo insólito: se Spínola presidia ao Conselho de Ministros em Portugal, se chamou corrupto a Neto, se José Eduardo dos Santos é das suas amizades...
Os objectos de tortura são um chicote e um espigão de ferro, aos quais chamam Marx e Lenine. O capitão de Abril ainda guarda no corpo as cicatrizes, e não percebe como sobreviveu. Um dia levam-no de jipe para uma praia. Guardas armados até aos dentes ordenam-lhe que saia para apanhar banhos de sol. Mas o militar, que conhece a traição de longa data, recusa-se a sair.
Em Junho, Sita Valles assina a sua sentença. De Kaleba, envia, através de um filho de Karicukila, uma mensagem para a família Van Dunem. Entretanto, o seu irmão Edmar já tinha sido preso, e a mulher dele, que recebe o bilhete, aposta numa troca de vidas e entrega a missiva ao director-adjunto da DISA. «Na carta, ela dizia à secretária de Agostinho Neto para pedir aos soviéticos que lhe preparassem a fuga», garante Onambwe. O mensageiro é preso, e depois de torturado encaminha os militares para a cubata de Karicukila.
A 16 de Junho, Sita e Van Dunem entram de mão dada no Ministério da Defesa. Emagrecera, mas a paixão não abrandara. Amadeu Neves, que também lá se encontra preso, recorda-a nada intimidada. Quando alguém lhe oferecia comida, respondia: «A um comunista não se dá leite, dá-se porrada.»
Entretanto em Portugal o PCP, acusado por muitos de ter mexido os cordelinhos em Angola, lava daí as mãos. Em Agosto, as Edições Avante publicam uma brochura do MPLA. É a versão oficial do 27 de Maio. «Sita Valles, vinda de Portugal, da União dos Estudantes Comunistas, sem o mínimo conhecimento das realidades da nossa luta e do nosso Movimento, é colocada por Nito Alves à testa deste esquema e imediatamente toma nas mãos o comando das operações.»
Edgar Valles, que saíra de Angola meses antes do 27 de Maio, é contactado por Pedro Serra, do sector intelectual do PCP. «Pediu-me para suspender a militância e não aparecer nas sedes, a fim de evitar especulações.» Os 4200 exemplares do seu livro A Crise no Apartheid, que estava para ser editado nesse mês pela Seara Nova, foi destruído.
José Garibaldi, responsável da editora, explica:
«Agostinho Neto tinha muitas amizades entre os seareiros
Todas as portas se fecham. O almirante Rosa Coutinho, antigo membro do Conselho da Revolução, assegurou ao irmão de Sita que nada havia a fazer. Pelas informações que lhe chegavam, ela já tinha sido executada. A extrema-esquerda portuguesa salta para a arena e crucifica Sita. Apresenta-a como a mentora política do «golpe de estado» e traça-lhe um perfil de Mata-Hari. A conspiradora dormira pelo menos com dois dirigentes do MPLA: Nito e Van Dunem.
No jornal «Página Um», a 4 de Agosto, lê-se: «A conspiração nasce no quarto.» E, no mesmo número, são publicadas cartas dos «criminosos reaccionários», em que estes admitiam ter dado ordens para matar comandantes do MPLA. Seguem a versão oficial, perdem a memória dos métodos utilizados pela PIDE para arrancar confissões. Dias antes, às cinco da manhã de 1 de Agosto, sem julgamento, depois de ter sido torturada e violada por vários homens da DISA, Sita Valles, aos 26 anos, morria. Recusa a venda e olha o pelotão de frente:
«A cabra parecia que não queria morrer»
gabava-se nessa noite um português das fileiras da DISA. Ao lado de Sita, compartilhando o mesmo destino, está José Van Dunem. Não se sabe onde foram enterrados: os seus cadáveres estão numa das muitas valas comuns, cavadas de norte a sul do país para afogar a rebelião.
Durante esse ano, jovens e velhos militantes do MPLA, ministros e chefes militares, desaparecem.
Um tribunal militar, chefiado pelo coronel João Neto (Xieto), chefe de Estado-Maior Geral, decide quem deve ou não sobreviver.
A corrupção campeia: guardas das prisões e chefes de operações da DISA saqueiam e apropriam-se de casas e carros dos presos.
A madrugada de 23 de Março de 1978 fica na História como «a noite das estrelas». Quando Pitoco entra na cadeia de S. Paulo, Costa Martins sabe como tudo vai terminar. Era a última vez que veria Edmar, o irmão mais velho de Sita. A sangria estende-se a todas as prisões de Luanda. Jeitoeira vê as listas dos condenados que chegam do Tribunal Militar. Nos cadernos não constam acusações, só o nome próprio e, ao lado, o nome de guerra das vítimas.
Eram assinadas pelos dois chefes da DISA, "Rodrigues João Lopes (Ludy) e Onambwe, e pelo Presidente da República.
«Nessa noite, Neto mandou matar 300 pessoas. A partir daí
não se matou mais ninguém» - «flash-back» de Jeitoeira.
No dia seguinte, as carrinhas voltam cheias de sangue e os mercenários continuam a apagar os vestígios do crime.
Em 1978, Neto sabe que tem os dias contados: os médicos diagnosticam uma cirrose a este bebedor inveterado.
O Presidente sacode à última hora as culpas que lhe são atribuídas e entrega alguns dos seus fiéis seguidores. Ludy e Onambwe, os chefes da polícia secreta, caem em desgraça.
No mesmo ano, são nomeadas comissões de inquérito para averiguar os «excessos» cometidos na sequência do 27 de Maio, e juízes militares deslocam-se do norte ao sul de Angola e contam as vítimas.
Um deles, José Nunes, investiga os massacres cometidos no Leste de Angola. Quando chega a Luena, província do Moxico, um prisioneiro do «centro de recuperação», que deveria ser fuzilado no dia seguinte, conta-lhe como decorreu a vida ali durante esse ano.
Centenas de homens tinham morrido na mira da espingarda de Maninga, o chefe do centro. E os que escaparam, lutavam como podiam pela sobrevivência. Por uma mandioca qualquer preso se oferecia para coveiro. E era o próprio que, à noite, fugindo à vigilância dos carcereiros, levava os outros prisioneiros à vala onde se encontravam os corpos dos companheiros. Desenterravam os cadáveres para os comer: era a única forma possível de pôr cobro à fome.
«Foi um verdadeiro genocídio, em Angola devem
ter morrido umas 30 mil pessoas» - afirma José Nunes.

Sita Valles acreditava na revolução, e essa aventura levou-a à morte. Passados 15 anos, o seu destino continua envolto em mistério. O governo angolano nunca entregou à família a certidão de óbito, e as notícias variam. Uns dizem que estava grávida quando morreu, outros que não, que teve o filho antes de ser fuzilada, e há mesmo quem afirme que não morreu. «Pode ser que ainda esteja viva», deseja Maria Lúcia, a mãe.
Não foi difícil condená-la, e agora não é difícil desculpá-la. Mendes de Carvalho, embaixador angolano na ex-RDA, acusado de ser um dos principais repressores do 27 de Maio, viu Sita pela última vez no Ministério da Defesa, onde estava a ser interrogada. «Era uma mulher tão linda e fresca, não merecia morrer». Sobe ao palco um único culpado. «A DISA é a responsável pelo massacre que houve em Angola. Só da Juventude do MPLA morreram milhares e milhares de jovens», denuncia o embaixador. Mas o jogo não pára. Pitoco, que foi expulso da polícia secreta em 1979, contra-ataca: «Pergunte ao Mendes de Carvalho quem matou o Fortunato».
Pedro Fortunato era o Comissário Provincial de Luanda. Pitoco quer fugir de Angola, sente que a sua vida está por um fio, que o querem matar. O destino não o poupou, está a ficar cego, mas não perdeu vícios antigos:
«Se me pagarem,
conto a verdadeira história dos mortos do 27 de Maio».
Não tem rebates de consciência, apenas cumpriu ordens; quando actuava não levava a farda da DISA, trajava de militar. O hábito fazia o monge. Pitoco faz equilibrismo, agarra-se ao que pode e joga para a arena mais nomes. Vítor Jeitoeira é o atingido. E este? Que não, que não fez nada, até salvou alguns condenados! Tinha marchado na tropa com Dodó Kitumba, um dos acusados de fraccionismo, gostava dele, e quando descobriu que o outro tinha os dias contados, forjou uma história e vendeu-a a Ludy:
«Não o mates, porque o tipo tem diamantes escondidos no valor de
50 milhões de dólares e é o único que nos pode indicar o esconderijo

É Eduardo dos Santos, quando assume as rédeas do país, que faz o ajuste de contas. Alguns ministros fiéis ao seu antecessor são afastados do governo. Entre eles, Iko Carreira, ministro da Defesa, acusado por Nito de ser traficante de diamantes.
Luís dos Passos, que dirigiu o assalto aos quartéis e a tomada da Rádio Nacional em 27 de Maio, só volta a Luanda em 1990. Durante 13 anos viveu escondido na mata, a norte de Angola. Comeu raízes de árvores, sofreu de paludismo, mas sobreviveu.
«Se a DISA não tivesse sido extinta, garanto que ele não ficava organizações
internacionais para que o Governo seja levado a esclarecer tudo o que se passou, mas as autoridades de Luanda permanecem mudas.
Em Dezembro último, João Van Dunem, jornalista da BBC, requer ao ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, certidões de óbito do seu irmão José e de Sita. O governante limita-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, alegando:
«Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito - o que não aconteceu -, solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas
Longe das intrigas de Estado, em Kaleba, Francisco Karicukila envelheceu e perdeu a esperança. Ouviu dizer que a União Soviética, a mãe de todas as revoluções, está moribunda. Também ele acreditou no socialismo e em Neto, mas na sua aldeia os homens trabalham na lavra e bebem vinho de palma para esquecer a fome.
A casa onde escondeu Sita está agora abandonada e cercada de capim, o filho que levava as mensagens dos fugitivos também foi fuzilado, e ele foi torturado durante dois anos.
Com um sorriso triste, recorda as últimas palavras de Sita: «Fomos traídos, mas um dia haverá igualdade no nosso país.»*

*A Revista "O Expresso"

HABLA USTED CASTELLANO?

Comentava há dias a Economist sobre a Bélgica ser tempo de acabar “com a coisa”, pretendendo com isso dizer que nada justificava, no actual quadro europeu, a manutenção do estado belga.
A melhor solução, diziam os (tradicionalmente) anónimos articulistas da revista britânica, seria entregar a parte flamenga à Holanda e a parte francófona à França.
Estas duas partes de um estado artificial nunca se tinham entendido (como mostram as canções de Brel – apesar de “Marieke”) e sempre tinham vivido de costas voltadas uma para a outra.
O divórcio era uma solução de puro bom senso e a integração das partes desavindas nos vizinhos a Norte e a Sul seria a forma mais expedita de resolver os problemas burocráticos da separação.

Escrevia António Barreto há uns anos (“Tempo de Incerteza”) que Portugal, no seu actual calamitoso estado, corria pura e simplesmente o risco de desaparecer.
O filosofo José Gil inquietava-se com o destino da nação em “Portugal, o Medo de Existir”.
José Saramago não tem dúvidas: Portugal deve integrar-se na Espanha.
Carlos Saura, o cineasta espanhol que acaba de realizar um filme sobre o Fado, é mais generoso. Segundo ele, a solução ideal é mesmo Portugal e Espanha serem substituídos por um novo pais, a Ibéria, com capital rotativa entre Madrid, Lisboa e Barcelona.

Nós, os portugueses, temos também uma ideia sobre o assunto. A união com Espanha, ou a pura e simples integração, não mereciam, numa recente sondagem, grandes objecções: grande parte de nós pensa que faríamos bem melhor deixarmo-nos de tretas e passar a ser espanhóis.
- Podem, se quiserem, começar a erigir estátuas a Miguel de Vasconcelos, começando pela Plaza Mayor de Olivença.
- Podem escarnecer do Santo Condestável, vestir luto por Aljubarrota ou começar a falar “Portunhol” (os jornalistas da TSF já o fazem).
- Podem fazê-lo, mas tenho algumas questões prévias, que acho deverem ser discutidas previamente.

Antes de mais, parece evidente que os portugueses que querem ser espanhóis pensam que podem ganhar com a mudança. Que a sua qualidade de vida se poderia aproximar da qualidade de vida que têm hoje os espanhóis. Significa isto que acham que a maneira espanhola de gerir a coisa pública é melhor que a nossa, que as empresas espanholas são mais eficientes. No fundo, que os políticos e gestores de Espanha são melhores, mais qualificados que os de Portugal.

É verdade que tivemos Santana Lopes como primeiro ministro, que o cargo é hoje ocupado por Sócrates (sendo certo que Espanha tem Zapatero, o que não parece ser especial motivo de orgulho).
É verdade que havia Marques Mendes e há hoje Luís Filipe Menezes (o “Pacheco” de uma célebre e certeira crónica de Miguel Sousa Tavares, inspirado num sinistramente boçal personagem de Eça de Queiroz).
Numa palavra, queremos ser espanhóis porque não só não acreditamos nas nossas elites como as desprezamos profundamente.

Posto isto, o meu problema passa a reduzir-se a um. Se nos integrarmos em Espanha por culpa da incompetência das nossas elites, e por maioria de razão de todos nós, que lugar nos estará reservado na Grande Espanha, ou na Ibéria?
Que lugar acima de serventes, “auxiliares de serviços gerais”, empregados e empregadas de limpeza?
Ou ainda, não será esse desejo de integração senão um generalizado sentimento de derrota?

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

100 MILHÕES DE DÓLARES DO PRESIDENTE ANGOLANO - EDUARDO DOS SANTOS





"Suíça ameaça cleptocracia mundial"
Bloqueados 100 milhões de dólares
do presidente angolano.
Que se passa na banca portuguesa, neste como noutros casos de branqueamento de capitais?"
TRANSCREVENDO NOTÍCIA SOBRE O SR. JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS e sua volumosa FORTUNA.
SEM COMENTÁRIOS DA MINHA PARTE, FICA TUDO À CONSIDERAÇÃO DOS LEITORES.
"Há dez anos que os tribunais suíços iniciaram um longo processo para bloquear os fundos depositados nos seus bancos por ditadores e políticos corruptos de todo o mundo, cujas fortunas, por vezes colossais, foram obtidas através da espoliação de bens públicos pertencentes aos povos que governam, usando para tal os mais diversos expedientes de branqueamento de capitais. O processo começou em 1986 com a devolução às Filipinas de 683 milhões de dólares roubados por Ferdinando Marcos, bem como a retenção dos restantes 356 milhões que constavam das suas contas bancárias naquele país.
Prosseguiu depois com o bloqueamento das contas de Mobutu e Benazir Bhutto. Mais tarde, em 1995, viria a devolução de 1236 milhões de euros aos herdeiros das vítimas judias do nazismo. Com a melhoria dos instrumentos legais de luta contra o branqueamento de capitais, conseguida em 2003 (também em nome da luta contra o terrorismo), os processos têm vindo a acelerar-se, com resultados evidentes: 700 milhões de dólares roubados pelo ex-ditador Sani Abacha são entregues à Nigéria em 2005; dos 107 milhões de dólares depositados em contas suíças pelo chefe da polícia secreta de Fujimori, Vladimiro Montesinos, 77 milhões já regressaram ao Peru e 30 milhões estão bloqueados; os 7,7 milhões de dólares que Mobutu depositara em bancos suíços estão a caminho do Zaire; mais recentemente, foram bloqueadas as contas do presidente angolano José Eduardo dos Santos, no montante de 100 milhões de dólares.
É caso para dizer que os cleptocratas deste mundo vão começar a ter que pensar duas vezes antes de espoliarem os respectivos povos. É certo que há mais paraísos fiscais no planeta, mas também é provável que o exemplo suíço contagie pelo menos a totalidade dos off-shores sediados em território da União Europeia, diminuindo assim drasticamente o espaço de manobra destas pandilhas de malfeitores governamentais.
No caso que suscitou este texto, o bloqueamento de 100 milhões de dólares depositados em contas de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola há 27 anos, pergunta-se: que fez ele para se tornar o 10º homem mais rico do planeta (segundo a revista Forbes) ?
Trabalhou em quê para reunir uma fortuna calculada em 19,6 mil milhões de dólares? Usou-se o poder para espoliar as riquezas do povo que governa, deixando-o a viver com menos de dois dólares diários, que devem fazer os países democráticos perante tamanho crime de lesa humanidade?
Olhar para o outro lado, em nome do apetite energético? Que autoridade terá, se o fizerem, para condenar as demais ditaduras e estados falhados?
Olhar para o outro lado, neste caso, não significa colaborar objetivamente com a sobre-exploração indigna do povo angolano e a manutenção de um status quo antidemocrático e corrupto que apenas serve para submeter a esmagadora maioria dos angolanos a uma espécie de domínio tribal não declarado?
Na Wikipedia lê-se: "Os habitantes de Angola são, em sua maioria, negros (90%), que vivem ao lado de 10% de brancos e mestiços. A maior parte da população negra é de origem banta, destacando-se os quimbundos, os bakongos e os chokwe-lundas, porém o grupo mais importante é o dos ovimbundos. No Sudoeste existem diversas tribos de boximanes e hotentotes. A densidade demográfica é baixa (8 habitantes por quilometro quadrado) e o índice de urbanização não vai além de 12%.
Os principais centros urbanos, além da capital, são Huambo (antiga Nova Lisboa), Lobito, Benguela, e Lubango (antiga Sá da Bandeira). Angola possui a maior taxa de fecundidade (número de filhos por mulher) e de mortalidade infantil do mundo. Apesar da riqueza do país, a sua população vive em condições de extrema pobreza, com menos de 2 dólares americanos por dia."
O recente entusiasmo que acometeu as autoridades governamentais e os poderes fáticos portugueses relativamente ao "milagre angolano" (crescimento na ordem dos 21% ao ano) merece assim maior reflexão e, sobretudo, alguma ética de pensamento. Os fundos comunitários europeus aproximam-se do fim. Os portugueses, entretanto, não foram capazes de preparar o país para o futuro difícil que se aproxima. São muito pouco competitivos no contexto europeu. As suas elites políticas, empresariais e científicas são demasiadamente fracas e dependentes do estado clientelar que as alimenta e cuja irracionalidade por sua vez perpetuam irresponsavelmente, para delas se poder esperar qualquer reviravolta estratégica.
Quem sabe fazer alguma coisa e não pertence ao bloco endogâmico do poder vai saindo do país para o resto de uma Europa que se alarga, suprindo necessidades crescentes de profissionais nos países mais desenvolvidos (que por sua vez começam a limitar drasticamente as imigrações ideologicamente problemáticas): Espanha, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Noruega... No país chamado Portugal vão assim ficando os velhos, os incompetentes e preguiçosos, os indecisos, os mais fracos, os ricos, os funcionários e uma massa amorfa de infelizes agarrados ao futebol e às telenovelas, que mal imaginam a má sorte que os espera à medida que o petróleo for subindo dos 60 para 100 dólares por barril, e destes para os 150, 200 e por aí a fora...
A recente subida em flecha do petróleo e do gás natural (mas também do ouro, dos diamantes e do ferro) trouxe muitíssimo dinheiro à antiga colónia portuguesa. Seria interessante saber que efeitos esta subida teve na conta bancária do Sr. José Eduardo dos Santos. E que efeitos teve, por outro lado, nas estratégias de desenvolvimento do país. O aumento da actividade de construção já se sente no deprimido sector de obras e engenharia português. As empresas, os engenheiros e os arquitectos voam como aves sedentas de Lisboa para Luanda.
É natural que o governo português, desesperado com a dívida...
E com a sombra cada vez mais pesada dos espanhóis pairando sobre os seus sectores económicos estratégicos, se agarre a qualquer aparente tábua de salvação. E os princípios? E a legalidade? Se a saída do ditador angolano estiver para breve, ainda se poderá dizer que a estratégia portuguesa é, no fundo, uma estratégia para além de José Eduardo dos Santos. Mas se não for assim, e pelo contrário viermos a descobrir uma teia de relações perigosas ligando a fortuna ilegítima de José Eduardo dos Santos a interesses e instituições sediados em Lisboa, onde fica a coerência de Portugal?
Micheline Calmy-Rey, ministra suíça dos Negócios Estrangeiros, veio lembrar a todos os europeus que tanto é ladrão o que rouba como o que fica à espreita ou cobra comissões das operações criminosas."
Joaquim Oliveira de Almeida - São Paulo

terça-feira, 4 de setembro de 2007

NAINAS DA BANDA


Há coisas fantásticas, não há?



CURVA DO TRABALHO


CHOQUE TECNOLÓGICO

Agora é que vai ser.
Com o encerramento definitivo da Universidade Independente (porque terá sido verdadeiramente?) e com a distribuição de computadores a começar pelos estudantes e a acabar nas pequenas aldeias, o povo português passará a ser dos mais educados e informados.
O novo crédito para estudantes, também é uma excelente ideia. Acredito mesmo que José Sócrates será o primeiro a dar o exemplo e a pedir esse crédito.
Afinal desde pequenino, sempre sonhou em ser Engenheiro Civil ... com MÉRITO!


quarta-feira, 29 de agosto de 2007

CUBA - ARQUITECTURA PAISAGÍSTICA



Se pensam que nestas casas vive a classe mais privilegiada de Cuba - patentes militares, membros do aparelho comunista do governo e, prostitutas - estão muito enganados. Aqui vive, em ditadura, o povo anónimo, sem liberdade e sem democracia.

SUCESSÃO DE FIDEL DE CASTRO - CUBA CONTINUARÁ LIVRE E DEMOCRÁTICA.

A todos os defensores das mais amplas liberdades

Estejam descansados que a liberdade e a democracia estão "amplamente" asseguradas em nome do povo e pelo povo.

Cuba continuará a ser um país livre e o povo cubano um povo feliz.

A sucessão de Fidel de Castro está assegurada.

JUNTAS MÉDICAS - A NOVA ÁRVORE GENEALÓGICA

O Governo decidiu alterar a legislação que regula o funcionamento das juntas médicas, depois de terem sido conhecidos os casos de uma professora de Aveiro com leucemia e de um doente de Braga com cancro na traqueia, que trabalharam nas respectivas escolas praticamente até à data da morte, depois de lhes serem negados por juntas os respectivos pedidos de aposentação.
As novas regras do projecto-lei sobre a composição das juntas médicas que confere aos doentes o direito a indicarem um médico nas futuras juntas de recurso estão actualmente em fase de apreciação pelos sindicatos

DO LIMIAR DA POBREZA AO SALÁRIO MÉDIO ... EM PORTUGAL

Mais uma medalha para Portugal.
O limiar da pobreza é o mais baixo da União Europeia.
Apenas falta calcular o limiar da pobreza dos políticos em Portugal que nos têm governado.
Talvez aí fossemos os melhores.


sábado, 18 de agosto de 2007

terça-feira, 7 de agosto de 2007

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

PIDÓCRATES

Percebem, não percebem?
Os exemplos multiplicam-se como cogumelos.
É só acordar no dia seguinte e ler o jornal.
Surpreendidos?
Não! Tudo Normal, dizem que é um governo socialista! ... a caminho do nacionalismo!

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

ATÉ PARECE QUE SOMOS PARVOS ...

1 - Este é o Comunicado da Procuradoria Geral da república que manda ARQUIVAR o inquérito devido à queixa sobre o percurso académico do primeiro-ministro José Sócrates apresentada pelo advogado Dr. José Maria Martins.

"COMUNICADO

1. Em 13 de Março de 2007, um ilustre Advogado denunciou ao Senhor Procurador-Geral da República um crime de falsificação de documento autêntico, envolvendo a licenciatura em engenharia civil na UNI – Universidade Independente de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

2. O Senhor Procurador-Geral da República nomeou, por despacho de 30 de Abril de 2007, a Procuradora-Geral Adjunta Maria Cândida Almeida para dirigir o respectivo inquérito e a Procuradora-Adjunta Carla Dias para a coadjuvar.

3. No decurso do inquérito foram determinadas e realizadas vinte e nove diligências, das quais vinte e sete inquirições, duas buscas e recolha de variada documentação proveniente da Câmara Municipal da Covilhã, Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Superior, Inspecção-Geral do Ensino Superior e Ordem dos Engenheiros.

4. Da análise conjugada de todos os elementos de prova carreados para os autos
resultou não se ter verificado a prática de crime de falsificação de documento
autêntico, p. e p. pelo art.º 256º, n.º 1 e n.º 3, do Código Penal, na modalidade de falsidade em documento, ou de crime de uso de documento autêntico falso, p. e p. pelo citado preceito, n.sº 1, al. c) e 3, envolvendo a licenciatura em engenharia civil de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

5. Em consequência, determinou-se o arquivamento dos autos nos termos do art.º 277º, n.º 1, do Código de Processo Penal, por despacho exarado em 31 de Julho de
2007.

A PROCURADORA-GERAL ADJUNTA___(Maria Cândida Almeida)

A PROCURADORA-ADJUNTA ____(Carla Dias)"

2 - Este é o DN que, dirigido pelo antigo futeboleiro João Marcelino, conclui:

"no despacho de arquivamento consta, expressamente, que Sócrates não foi objecto de nenhum tratamento de favor relativamente à sua licenciatura"

e aproveita o espaço para publicitar a descarada manipulação que José Sócrates faz:

"a campanha desenvolvida contra o primeiro-ministro foi uma campanha
totalmente destituída de fundamento e
não teve outro objectivo senão o de caluniar e atacar pessoalmente o primeiro-ministro
".

3 - Estas são as minhas mais ingénuas perguntas:

a) - Afinal o que é que foi arquivado? O caso da "falsificação de licenciatura de Sócrates" como teima em publicitar uma certa imprensa ou foi arquivado o inquérito sobre falsificação do documento falso que não é, nem mais nem menos o tal certificado, entregue na C.M. Covilhã para a sua "requalificação profissional", em 26-8-1996 com indicativo telefónico "21" que apenas surgiu em Outubro de 1999 ?

b) - E porquê que o caso da "falsificação de documentos" não pôde ser arquivado mas sim o inquérito?

c) José Sócrates não tem de explicar CLARAMENTE aquele seu patético dito-por-não-dito, isto é, MENTIRA, que nos deixou sem saber se afinal se licenciou em Agosto ou Setembro face à duplicação de datas nos certificados?

d) Como se pode explicar que um documento pedido em 2000 dê entrada na Câmara Municipal da Covilhã com data de 1996? Isto ARQUIVA-SE ou INVESTIGA-SE?

e) - E que dizer da utilização ABUSIVA do título de engenheiro pelo primeiro-ministro, reconhecido aliás por ele ao retirá-lo do portal do governo? E das dúvidas levantadas sobre a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade Independente no que se refere à inscrição, ao processo de equivalências, à frequência, às provas e exames e os vários certificados de licenciatura? E o que é um "Pós-Graduação em Engenharia Sanitária"? ISTO NÃO SE EXPLICA? ARQUIVA-SE?

Por isso é que foi arquivado, com pompa e circunstância de alguma imprensa e do Gabinete do Primeiro Ministro, o ... Inquérito. Do resto, espera-se uma INVESTIGAÇÃO CUIDADA e uma EXPLICAÇÃO VERDADEIRA E AUTÊNTICA.

terça-feira, 31 de julho de 2007

XV JOGOS PAN-AMERICANOS


Países participantes - 42
Atletas participantes - 5500 aprox.
Eventos - 332 em 32 esportes
Cerimônia de Abertura - 13 de julho
Cerimônia de Encerramento - 29 de julho
Abertura oficial - Carlos Arthur Nuzman
Juramento do Atleta - Natália Falavigna
Juramento do Árbitro - Yumi Yamamoto Sawasato
Tocha Pan-americana - Joaquim Cruz
Local - Estádio do Maracanã

IMAGENS DA HISTÓRIA

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Fotos difíceis de se olhar, amigos!
As vi com as lágrimas salgando meu rosto..
Infelizmente o "ser humano"
tem muito mais coisa dorida para oferecer
e menos bela para abarcar!
É um animal,
com arma de matar,
usando o "seu poder"
(Aaah, se este ser soubesse..);
o querer segurar
de quem lhe foi arrancado;
o olhar distante
de quem era POETA,
parecendo até antever
como "sua história" seria contada;
a criança..
que cena mais triste essa criança abandonada
pelos que deveriam cuidar,
não atacar,
amar
e
que respeito absoluto
desse animal
que aguarda não mais fazer um gesto,
não mais ter um som de voz,
não mais se salvar,
pois existem "homens" que raptam nossas crianças
e elas ainda falando,
elas chorando,
as matam!
Fotos difíceis de se olhar,


.....para profunda reflexão.....


A agonia de Omayra
Omayra Sanchez foi uma menina vítima do vulcão Nevado do Ruiz durante a erupção que arrasou o povoado de Armero, Colômbia em 1985.Omayra ficou três dias jogada sobre o lodo, água e restos de sua própria casa e presa aos corpos dos próprios pais. Quando os paramédicos de parcos recursos tentaram ajudá-la, comprovaram que era impossível, já que para tirá-la precisavam amputar-lhe as pernas, e a falta de um especialista para tal cirurgia resultaria na morte da menina. Omayra mostrou-se forte até o último momento de sua vida, segundo os paramédicos e jornalistas que a rodeavam. Durante os três dias, manteve-se pensando somente em voltar ao colégio e a seus exames e a convivência com seus amigos.O fotógrafo Frank Fournier, fez uma foto de Omayra que deu a volta ao mundo e originou uma controvérsia a respeito da indiferença do Governo Colombiano com respeito às vítimas de catástrofes. A fotografia foi publicada meses após o falecimento da garota. Muitos vêem nesta imagem de 1985 o começo do que hoje chamamos Globalização, pois sua agonia foi vivenciada em tempo real pelas câmaras de televisão de todo o mundo.

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A menina do Vietname
Em oito de junho de 1972, um avião norte-americano bombardeou a população de Trang Bang com napalm. Ali se encontrava Kim Phuc e sua família. Com sua roupa em chamas, a menina de nove anos corria em meio ao povo desesperado e no momento, que suas roupas tinham sido consumidas, o fotógrafo Nic Ut registou a famosa imagem. Depois, Nic levou-a para um hospital onde ela permaneceu por durante 14 meses sendo submetida a 17 operações de enxerto de pele. Qualquer um que vê essa fotografia, mesmo que menos sensível, poderá ver a profundidade do sofrimento, a desesperança, a dor humana na guerra, especialmente para as crianças. Hoje em dia Pham Thi Kim Phuc está casada, com dois filhos e reside no Canadá onde preside a "Fundação Kim Phuc", dedicada a ajudar as crianças vítimas da guerra e é embaixadora da UNESCO.

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Execução em Saigon
"O coronel assassinou o preso; mas e eu... assassinei o coronel com minha câmara? - Palavras de Eddie Adams, fotógrafo de guerra, autor desta foto que mostra o assassinato, em um de fevereiro de 1968, por parte do chefe de polícia de Saigon, a sangue frio, de um guerrilheiro doVietcong. Adams, correspondente em 13 guerras, obteve por esta fotografia um prémio Pulitzer; mas ficou tão emocionalmente tocado com ela que se converteu em fotógrafo paisagístico.

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A menina Afegã
Sharbat Gula foi fotografada quando tinha 12 anos pelo fotógrafoSteve McCurry, em junho de 1984. Foi no acampamento de refugiados NasirBagh do Paquistão durante a guerra contra a invasão soviética. Sua foto foi publicada na capa da National Geographic em junho de1985 e, devido a seu expressivo rosto de olhos verdes, a capa converteu-se numa das mais famosas da revista e do mundo.No entanto, naquele tempo ninguém sabia o nome da garota. O mesmo homem que a fotografou realizou uma busca à jovem que durou exactos 17 anos.

Em janeiro de 2002, encontrou a menina, já uma mulher de 30 anos e pôde saber seu nome. Sharbat Gula vive numa aldeia remota do Afeganistão, é uma mulher tradicional pastún, casada e mãe de três filhos. Ela regressou ao Afeganistão em 1992.

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O homem do tanque de Tiananmen
Também conhecido como o "Rebelde Desconhecido", esta foi a alcunha que foi atribuída a um jovem anónimo que se tornou internacionalmente famoso ao ser gravado e fotografado em pé em frente a uma linha de vários tanques durante a revolta da Praça de Tiananmen de 1989 na República Popular Chinesa. A foto foi tirada por Jeff Widener, e na mesma noite foi capa de centenas de jornais, noticiários e revistas de todo mundo. O jovem estudante (certamente morto horas depois) interpôs-se a duas linhas de tanques que tentavam avançar. No ocidente as imagens do rebelde foram apresentadas como um símbolo do movimento democrático Chinês: um jovem arriscando a vida para opor-se a um esquadrão militar. Na China, a imagem foi usada pelo governo como símbolo do cuidadodos soldados do Exército Popular de Libertação para proteger o povo chinês: apesar das ordens de avançar, o condutor do tanque recusou fazê-lo se isso implicava causar algum dano a um cidadão (hã hã).

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Protesto silencioso
Thich Quang Duc, nascido em 1897, foi um monge budista vietnamita que se sacrificou até à morte numa rua movimentada de Saigon em 11 de junho de 1963. Seu acto foi repetido por outros monges. Enquanto seu corpo ardia sob as chamas, o monge manteve-se completamente imóvel. Não gritou, nem sequer fez um pequeno ruído. Thich Quang Duc protestava contra a maneira que a sociedade oprimia a religião Budista em seu país. Após sua morte, seu corpo foi cremado conforme a tradição budista. Durante a cremação seu coração manteve-se intacto, pelo que foi considerado como quase santo e seu coração foi transladado aos cuidados do Banco de Reserva do Vietnã como relíquia.

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Espreitando a morte
Em 1994, o fotógrafo Sudanês Kevin Carter ganhou o prêmio Pulitzerde foto jornalismo com uma fotografia tomada na região de Ayod (umapequena aldeia em Suam), que percorreu o mundo inteiro. A figura esquelética de uma pequena menina, totalmente desnutrida, recostando-se sobre a terra, esgotada pela fome, e a ponto de morrer, enquanto num segundo plano, a figura negra expectante de um abutre se encontra espreitando e esperando o momento preciso da morte da garota. Quatro meses depois, abrumado pela culpa e conduzido por uma forte dependência às drogas, Kevin Carter suicidou-se.

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The Falling Man
The Falling Man é o título de uma fotografia tirada porRichard Drew durante os atentados do 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas do WTC. Na imagem pode-se ver um homem atirando-se de uma das torres. A publicação do documento pouco depois dos atentados irritou certos setores da opinião pública norte-americana. Acto seguido, a maioria dos meios de comunicação auto censurou-se, preferindo mostrar unicamente fotografias de actos de heroísmo e sacrifício.

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Triunfo dos Aliados
Esta fotografia do triunfo dos aliados na segunda guerra, onde um soldado Russo agita a bandeira soviética no alto de um prédio, demorou a ser publicada, pois as autoridades Russas quiseram modificá-la. A bandeira era na verdade uma toalha de mesa vermelha e o soldado aparecia com dois relógios no pulso, possivelmente produto de saque. Sendo assim foi modificada para que não ficasse uma má imagem para os soviéticos.

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Protegendo a cria
Uma mãe cruza o rio com os filhos durante a guerra do Vietname em 1965 fugindo da chuva de bombas americanas.

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Necessidade
Soldados e aldeãos cavam sepulturas para as vítimas de um grande terremoto acontecido em 2002 no Irão enquanto um menino segura as calças do pai antes dele ser enterrado.