BEM-VINDOS A ESTE ESPAÇO

Bem-Vindos a este espaço onde a temática é variada, onde a imaginação borbulha entre o escárnio e mal dizer e o politicamente correcto. Uma verdadeira sopa de letras de A a Z num país sem futuro, pobre, paupérrimo, ... de ideias, de políticas, de educação, valores e de princípios. Um país cada vez mais adiado, um país "socretino" que tem o seu centro geodésico no ministério da educação, no cimo do qual, temos um marco trignométrico que confundindo as coordenadas geodésicas de Portugal, pensa-se o centro do mundo e a salvação da pátria.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

27 DE MAIO DE 1977 - ESTAÇÃO DAS CHUVAS

«Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.»

«Na margem sul do Tejo, faleceu recentemente um angolano, antigo membro do MPLA, a quem por alturas do 27 de Maio foi atribuída a tarefa de coveiro. Há quem se lembre de o ouvir contar que fora obrigado a sepultar pessoas vivas. Milhares de famílias de angolanos nunca puderam enterrar os seus mortos.»

«[...] Eram presos e enviados, sem qualquer processo, para campos de concentração. Muitos dos que morreram nem sequer sabiam quem era Nito Alves. E eram muitos os que tinham menos de 18 anos. Entre os detidos encontravam-se, até, soldados que não estavam em Angola no dia 27 de Maio.»

«Houve pessoas que foram presas e até mortas, porque eram amigos ou parentes afastados. Pior, quando eram parentes próximos.»

«De modo que os soldados entravam nas casas perguntando onde estavam os intelectuais ou os estudantes. E acabaram por matar muitos.»

A chamada Comissão das Lágrimas foi criada pelo Bureau Políticos do MPLA com o objectivo de seleccionar os depoimentos dos presos do 27 de Maio. No entanto, como veremos, alguns dos seus membros interrogaram ou provocaram os detidos. Dela fizeram parte: Iko Carreira, Henrique Santos (Onambwé), Ambrósio Lukoki, Costa Andrade (Ndunduma), Paulo Teixeira Jorge, Manuel Rui, Diógenes Boavida, Artur Carlos Pestana (Pepetela), José Mateus da Graça (Luandino Vieira), Mendes de Carvalho, Henrique Abranches, Eugenio Ferreira, Rui Mingas, Beto van Dunem, Cardoso de Matos, Paulo Pena e outros não identificados.»
«O inquiridor principal foi Artur Carlos Pestana (Pepetela). Num registo particularmente agressivo, queria saber quais eram as suas actividades, se e quando tivera reuniões, quem contactava, como funcionavam as ligações entre os sectores da educação, da saúde e da função pública. [...] Foi também interrogado por Manuel Rui. [...] Maria da Luz Veloso, na altura com 47 anos, também se lembra de ter comparecido nesta Comissão, onde foi interrogada por Pepetela e por Manuel Rui. [...] Como não fazia o que pretendiam, Manuel Rui não hesita em dizer: "A minha vontade era dar-lhe um par de bofetadas. Você não colabora. Vejo-me obrigado a entregá-la aos militares." Os detidos passavam para os militares. E para as torturas.»

«Presos atirados pelas escadas e, no pátio, brutalmente espancados. Berravam e pediam clemência. Quase desfalecidos eram atirados para dentro de viaturas. Um mercenário norte-americano comentava: "Já vi muita coisa na minha vida. Mas nunca tinha visto tal coisa."»


«João Jacob Caetano, o lendário Monstro Imortal, morreu com o garrote do nguelel>. Também consta que o tinham cegado. Foi interrogado por Pedro Tonha (Pedalé), o qual, possivelmente como prémio, subirá do 10º para 4º lugar na hierarquia do MPLA. No entanto, nem coragem tinha para lhe fazer as perguntas. Os algozes deixavam na sala um gravador, para depois reproduzirem o que dizia. E iam apertando o garrote. [...] Ao que parece, atiraram o corpo de um avião.» ",



«A indicação para o seu fuzilamento [Nito Alves] terá sido do presidente da República, embora na Fortaleza, onde estava, a ordem tenha sido dada por Iko Carreira, Henrique Santos (Onambwé) e Carlos Jorge. Nito não quis que lhe tapassem os olhos, pois queria ver os que o iam matar. O corpo foi varado por umas três dezenas de balas. E um dos chefes ainda lhe foi dar o tiro de misericórdia. O seu corpo foi atirado ao mar, com um peso.»

«Carlos Jorge, Pitoco e Eduardo Veloso chicoteia-no [a Costa Martins], batem-lhe com um pau com espigão de ferro, massacram-lhe as costas com correias de uma ventoinha de camião. Ao chicote chamavam Marx e, ao espigão, Lenine. Uma das vezes puseram-no numa sala, junto a uma máquina de choques eléctricos. Ainda cheirava a carne queimada.»


«Em meados de Junho [Sita Valles] é presa com o marido [José Van Dunem]. Entra no Ministério da Defesa de mão dada com José. [...] Terá ido para a Fortaleza de S. Miguel. Terá sido torturada e violada por elementos da DISA. [...] Várias fontes, entre as quais um responsável da DISA, declaram que se encontrava novamente grávida. ",

Terão esperado que tivesse a criança para depois a fuzilar. O bebé nunca foi entregue à família.

[...] Uma presa ouviu contar que, antes de a matarem, lhe deram um tiro em cada braço e em cada perna.»

«Os cálculos sobre o número de mortos variam. Um responsável da DISA, ouvido por nós, fala em 15 000. A Amnistia Internacional fez um levantamento e avançou com 20 000 a 40 000. Adolfo Maria, militante da Revolta Activa, e José Neves, um juiz militar, falam de 30 000 mortos. O jornal Folha 8 falou de 60 000. E a chamada Fundação 27 de Maio foi até aos 80 000. [...] Quedemo-nos pelos 30 000 mortos. Dez vezes mais mortos do que no Chile de Pinochet. Na própria família política. Sem qualquer julgamento. E em muitos casos sem qualquer relação com os acontecimentos.»

«Em Malanje foram fuziladas mais de mil pessoas. No Moxico, Huambo, Lobito, Benguela, Uíje e Ndatalando aconteceu o mesmo. No Bié mataram cerca de 300 pessoas. Em Luanda, os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses.»

«As cadeias eram sucessivamente cheias e sucessivamente esvaziadas, desaparecendo as pessoas. [...] Um grupo de militares foi morto na periferia de Luanda, junto a uma praia. Foram abatidos um a um, com tiros na cabeça. Os vivos que assistiam à cena pediam clemência. Os verdugos divertiam-se. E continuavam a matar, com um tiro na cabeça.»

«As forças de segurança prenderam muita gente jovem que, na manhã de 27 de Maio de 1977, andava nas ruas de Luanda. Centenas deles foram levados para um Centro de Instrução Revolucionária na Frente Leste e os dirigentes locais assassinaram-nos friamente.»

«Estudantes que estavam na União Soviética, na Bulgária, na Checoslováquia e noutros países do Leste, foram mandados regressar. No aeroporto de Luanda foram presos. E muitos foram decapitados, sem saberem a razão. [...] Nas Faculdades desapareceram cursos inteiros. No Lubango, dirigentes e quadros da juventude foram atados de pés e mãos e atirados do alto da Tundavala.» "

«Onde param os fuzilados? Uns foram depositados em valas comuns. Outros lançados de avião ou de helicóptero para o mar ou para a mata. [...] Um ano depois do 27 de Maio, ainda se matava. Ademar Valles [irmão de Sita Valles] foi morto em Março de 1978.» «O juiz José Neves conclui: "Foi um verdadeiro genocídio. Em Angola devem ter morrido umas 30 000 pessoas."»
«A questão dos presos portugueses em Angola era tratada com a máxima moderação, ao contrário do que acontecia com na imprensa ocidental com casos de idêntica natureza. [...] A solidariedade com os presos políticos angolanos era, também, um tema de excepção na imprensa portuguesa, evitando-se qualquer crítica ao regime do MPLA. Apenas a poetisa Natália Correia, no Jornal Novo, se referira a um regime de sistemática repressão policial, falando mesmo no Gulag angolano.»«Muitos dos "libertadores" sonhavam com a casa, o carro, os privilégios e as posições dos colonos. Conquistaram-nas e tornaram-se piores do que estes. Desculpar-se-ão com a guerra. Só que a guerra, que tantos matou e estropiou, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas.» Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus,
Purga em Angola. Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem e o 27 de Maio de 1977

Associação 27 Maio
Edições Asa.

PURGA EM ANGOLA

Nº págs.: 208 ISBN: 978-972-41-5372-8
Preço: 18,00 € (com IVA 5%)

Estamos perante um livro de denúncia de um crime político de espantosas dimensões e que jamais se apagará na memória do povo angolano: o falso golpe de Estado atribuído, pelo Presidente Agostinho Neto, a três destacadas figuras do MPLA – Nito Alves, Sita Valles e José Van Dunem, todos eles fisicamente eliminados na sequência directa dos acontecimentos do 27 de Maio de 1977.
Em termos de vítimas, assumiu proporções superiores às dos actos criminosos de Pinochet no Chile.
Todavia, trata-se de um livro de carácter histórico, resultante de mais uma investigação – rigorosa e corajosa – de Dalila Cabrita Mateus, com a colaboração de Álvaro Mateus.

DIREITO À INDIGNAÇÃO

Em Portugal a interrupção voluntária da gravidez dá direito a 30 dias de licença com 100% do ordenado!
Mas uma mulher que esteja grávida e que se veja forçada a ficar de baixa antes do parto, sem este ser de risco, recebe um subsídio de 65% do seu ordenado; e uma mãe que tenha de assistir na doença um seu filho menor recebe apenas 65% do seu ordenado...

domingo, 21 de outubro de 2007

O «PROFESSOR TITULAR» VISTO PELO JORNAL "A BOLA"

"As nossas escolas lançam-se, definitivamente, na arrojada experiência do mundo da bola. Com uma Ministra apostada em ser um género de Scolari da educação, o Ministério investe na divisão sectarista entre (professores) titulares e suplentes.
Os titulares serão, então, convocados à luz de uma escolha surpreendente. Mais importante do que saber dar aulas e ter sucesso na relação educativa com os alunos, interessará saber como pisar a alcatifa dos gabinetes, ter prática de carreira burocrática fora da sala de aulas e, acima de tudo, não ter tido lesões que obriguem a paragens mais ou menos longas no Campeonato, mesmo que por culpa de qualquer sarrafada alheia .
A táctica é, pois, não ter vida para além do dever. O destino é entregar a titularidade professoral aos mais dignos ratos de sacristia. Por isso, não bastará saber marcar golos. E, tal como em alguns clubes de futebol manhosos, é preciso não esquecer de elogiar o presidente e ser de uma fidelidade canina ao treinador."

A MATEMÁTICA DE MIGUEL SOUSA TAVARES


"Habitualmente, gosto de ler as crónicas de Miguel Sousa Tavares e aprecio a forma como ataca muitos dos problemas nacionais.
O pior é que, cada vez que fala de assuntos que conheço mais profundamente, encontro alguns erros e incorrecções.
Na sua última crónica a respeito dos professores fala do pouco que eles trabalham.
Eis como ele faz as contas: 90 dias de férias de Verão, 15 de Páscoa, 15 de Natal, 7 de Carnaval,7 de feriados, 104 fins de semana
Total: 131 dias de aulas e 234 de folgas.
Por acaso há aqui um erro na soma: são 238 de folga e 127 de aulas
Seguindo nesta linha de raciocínio, poderíamos continuar.
Eu, normalmente, durmo 8 horas por dia. Portanto, passo um terço do tempo a dormir, o que, num ano, corresponde a 121 dias.
Ou seja, o tempo de folga passa a ser afinal de 238+121 ou 359.
Como ainda por cima no ano passado tive 5 dias de formação e não dei aulas, o meu total de folgas é de 364.
Conclusão: dei apenas um dia de aulas. Já não consigo é lembrar-me em que data foi.
Algo se passa com a matemática de Miguel Sousa Tavares"
Por José Paulo Viana

sábado, 20 de outubro de 2007

EXCELENTE RECEITA

Como se cria um deputado, presidente câmara ou vereador:
1 nota de euro

1 colher de sopa de corrupção


1 dose de falta de carácter 1 dose de ganância

1 pedaço médio de cara de pau 1 pitada de merda

Coze tudo para tirar qualquer restinho de ética, acrescente fermento à vontade

Obs. Não exagere na merda senão você cria um primeiro-ministro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

EDUCAÇÃO: O DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

António Nóvoa, reputado estudioso em matéria de Educação (autor, por exemplo, do livro Evidente mente, Histórias da Educação), considerou, no Telejornal das 22h da RTP2, o gesto do Presidente da República (PR), no discurso de 5 de Outubro, «muito interessante» e «muito republicano.» E acrescentou: «A República teve um discurso muito retórico sobre a Educação desde o princípio.»
«Aliás, este gesto do PR faz lembrar um pouco o gesto de Manuel de Arriaga, que começou por citar o discurso [em que se dirigia] a um congresso de professores, dizendo que saudava os professores comovidamente e que a "pátria confia em vós", a "minha soberania é vossa" [em 1912].
«O PR retoma e renova este gesto. Curiosamente, tal como Nicolas Sarkozy em França, no mês passado, escreveu uma carta aos professores, retomando um gesto de 1883 de Jules Ferri. Nota-se, hoje em dia, e isso é muito interessante, na Europa, uma necessidade dos principais responsáveis políticos renovarem o contrato de confiança com os professores
«Temos professores de muita qualidade no sistema de educação português. Mas, curiosamente, e isso é uma coisa que dói um bocadinho a quem gosta do trabalho escolar, são muitas vezes os melhores professores e as melhores escolas que se sentem, hoje em dia, mais atacados e desmoralizados com certas críticas sociais sistemáticas
A jornalista Cecília Carmo questionou António Nóvoa se o discurso do PR não terá sido um aviso ao Governo e às políticas de educação.
«Certamente que sim. Há aqui por parte do PR a vontade de construir algumas pontes políticas. E de construir políticas que tenham a maior estabilidade no tempo. Julgo que é muito importante que se reconstruam as pontes de confiança entre os professores, a sociedade, o Governo . Nós podemos ter muitas opiniões, e é bom que as tenhamos, e perspectivas diferentes mas não podemos viver num clima permanente de suspeição e de crítica permanente.
«O relatório da OCDE 2005 tem como título "Teachers Matter", os professores contam, são importantes, fazem a diferença. «É preciso dar-lhes mais condições de trabalho e é preciso dar-lhes mais prestígio como diz o PR.
«Não é possível viver cinco, 10, 15, 20 anos em condições muito difíceis dentro das escolas e submetidos a uma permanente crítica social: crítica na Comunicação Social, crítica dos pais, da sociedade inteira. É preciso recuperar aqui um contrato de confiança .
«O professor Cavaco Silva diz que isto não é apenas um problema da escola, não é certamente apenas um problema dos professores, é um problema da sociedade portuguesa e, em primeiro lugar, dos pais e das comunidades [educativas].
«Portugal tem décadas e décadas de uma relativa indiferença em relação à escola . A sociedade portuguesa, desde sempre, nunca foi uma sociedade muito fundada na cultura escolar. [...] Esta resignação da sociedade portuguesa está-nos a custar muito caro. [...] Mas é preciso fazer um esforço muito maior.»
Há o «problema do desinvestimento que está a haver hoje em dia na Educação , tanto na educação básica e secundária, como na educação superior. [Lançou-se] a ideia para a sociedade portuguesa que se gastava demais na Educação para ter fracos resultados. Os fracos resultados é verdade.
O investir demais em educação nunca foi verdade em Portugal.
Foi verdade durante dois ou três anos. Em 1998, 1999 e 2000 nós aproximámo-nos da média europeia. Em dois séculos Portugal investiu dois ou três anos .«Estamos sempre aos solavancos. A sociedade portuguesa tem tido uma grande dificuldade em fazer aquele esforço inicial quase de lançar o comboio para que ele atinja uma velocidade de cruzeiro. Parece que estamos sempre num permanente solavanco e que fazermos um pequeno esforço, como estava a dizer, para nos aproximarmos do investimento e a sociedade parece que ficou cansada.
«Nos últimos cinco ou seis anos nós ouvimos milhares de pessoas sucederem-se nos écrans de televisão e nos jornais a dizer que Portugal gastava demais em educação. Não foram um, dois ou três. As nossas elites todas, os nossos colunistas todos, toda a gente veio dizer isso. Essas elites podem estar sossegadas porque no momento em que estão a falar nós estamos outra vez, depois de termos estado dois ou três anos na média, abaixo da média [europeia].
«Não é possível transformar uma situação de atraso de dois séculos sem termos um esforço de alguma continuidade . Nesse sentido, estou inteiramente de acordo com o comentário do Engenheiro José Sócrates, citando aliás uma frase famosa do presidente da Harvard University, quando diz que se pensam que a educação é cara, experimentem quanto é que custa a ignorância. Mas, isto não pode ser só discurso, tem que ser práticas políticas

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

SABE LÁ A TIA LURDES O QUE ESTÁ A FAZER ...

Fará ela a mínima ideia do que está a fazer?
De facto ela não passa de uma lacaia da U.E.
O sistema educativo não estava famoso, mas não precisava, Senhora Ministra da Educação, de aparecer para estragar o resto!
Vem, Vexa., perguntar agora o que estão 30 professores a fazer numa sala de professores? Sabe que também me coloco (e coloquei aqui) essa questão muitas vezes? E sabe o que estão lá a fazer? O que Vexa. mandou: a cumprir horário!
Não aumentou a carga horária dos docentes? Esqueceu-se, foi?
Tal como as utilíssimas «aulas de substituição» em que V. Ex.ª coloca um professor de Matemática a substituir um de Educação Física e vice-versa. Vexa Manda e os professores obedecem! Não têm alternativa, não é verdade?
Pode, portanto, V/ Vexa. orgulhar-se dos resultados obtidos! Eles são a consequência da sua «reforma»!Mas não se preocupe pois vão piorar! Com o escabroso Estatuto da Carreira Docente que Vexa inventou, os resultados só podem evidentemente piorar!
Nenhuma reforma, nunca, se conseguirá impor por decreto-lei nem contra a vontade da maioria dos envolvidos!
Os professores, obedientemente, cumprem e cumprirão sempre as suas ordens! Contrariados… muito contrariados… mas cumprirão! Não lhes pode é pedir que, apesar de tudo, as cumpram de sorriso nos lábios, felizes, contentes e totalmente envolvidos com as suas orientações!
Não há milagres! Cumprirão e ponto final!
Que é o que Vexa quer?Não se pode, portanto, queixar. Continue a mandar assim e verá a tal curva de crescimento em queda absoluta. É que não pode Vexa exigir que se cumpram 35 horas de serviço na escola e se venha para casa preparar fichas de trabalho… apontamentos… actividades…estratégias… visitas de estudo… grelhas… avaliações… relatórios… currículos alternativos…programas adaptados… trabalhos em equipa… etc.… etc.… etc.
Vexa tem família? Saberá, porventura, o que é a dor de um pai que se vê obrigado a negligenciar a educação e o crescimento do seu próprio filho para acompanhar os filhos dos outros?
Esquece Vexa Que os professores também são pais? Também são pais, Senhora Ministra! Pais!
Que estabilidade emocional pode um professor ter se Vexa resolve, 30 anos depois de Abril, impedir os professores de acompanharem os seus próprios filhos ao médico … à escola… aos ATLs? Não têm os pais que são professores os mesmos direitos dos outros pais?
Conhecerá Vexa a dor de uma mãe que se vê obrigada a abandonar o seu filho, prometendo-lhe voltar dali a uma semana? E quer Vexa motivação natural? Com a vida familiar desfeita?
Não é do conhecimento público que os professores são os maiores clientes dos psiquiatras? E que é entre os professores que se encontra a maior taxa de divórcios?
Porque será, Senhora Ministra?
Motivação? Motivação, como?
Se Vexa obriga os professores a fazerem de auxiliares de acção Educativa?
Motivação, como?
Se Vexa obriga os professores a estarem na escola mesmo sem alunos? Motivação como se Vexa obriga a cumprir 35 horas na Escola mesmo não tendo esta os meios essenciais para que se possa trabalhar.
Motivação, como?
Se temos que pagar fotocópias, tinteiros para as impressoras da Escola…canetas… papel?
Motivação, como?
Se o clima é de punição e de caça aos mais frágeis?
Motivação, como?
Se lava as mãos como Pilatos e deixa tudo à deriva passando toda a responsabilidade para as escolas?
Não é função de Vexa resolver os problemas?
Não seria mais produtivo trabalhar ao lado dos professores?
Motivação, como?
Se de cada vez que abre a boca para as televisões fá-lo para tentar virar toda a sociedade portuguesa contra a classe?
Motivação, como?
Se toda a gente percebe que o seu objectivo é dividir para esfrangalhar a classe e poupar uns cobres?
Quer lá Vexa saber da qualidade do Ensino para alguma coisa!....
Quer é poupar!
que vale é que por todo o país a opinião pública – e principalmente os Pais – já se estão a aperceber disso.
Motivação, como?
Se Vexa tem feito de tudo para isolar os professores dos alunos, dos pais, dos Sindicatos, da sociedade em geral? E fica Vexa admirada com os resultados? Não eram estes os resultados que esperava obter quando tomou posse e iniciou a sua cruzada contra os professores? A sua estratégia é a mesma daqueles professores que Vexa acusa de não estarem preocupados com os resultados escolares dos seus alunos.
Sabe, Senhora Ministra da Educação? O sucesso não depende do manual… como não depende de decretos---lei!
O sucesso depende do envolvimento que o professor consegue com os seus alunos!
Depende da capacidade de motivar!
Depende da capacidade de o professor ir ao encontro dos interesses dos seus alunos.
Depende da relação professor-aluno! - a tal que Vexa queria que fosse avaliada por alguém de fora da escola!
A mesma que, se fosse feita a Vexa, daria nota zero.
E, já agora, Sra. ministra, já que a esmagadora maioria (quase totalidade) dos seus colegas de governo são reformados – alguns 2 vezes – siga-lhes, por favor, o exemplo.
Eu não me importo de trabalhar até aos setenta se Vexa se reformar já - mas da política!
Pode ser?
Desapareça ... Desapareça ...

domingo, 7 de outubro de 2007

A CASA DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar, foi de facto um ditador.
Foi um brilhante Ministro das Finanças.
Como Primeiro Ministro governou Portugal querendo sempre o melhor para o seu país. Se em muitas coisas foi brilhante, noutras cometeu erros históricos. A questão das colónias é talvez o maior exemplo do seu orgulho e da sua teimosia.
Isto para já não falar na ausência de Democracia e Liberdade, própria, aliás, de qualquer ditadura, muito embora a esquerda goste de a apontar e nunca de a reconhecer quando cohabita com elas.
Neste caso, foram 40 anos de Estado Novo onde Salazar governou a seu bel prazer. Em ditadura.
Poderia ter ficado riquíssimo como qualquer político hoje o faz em meia dúzia de anos de poder.
Não é preciso ir muito longe, basta olhar para Portugal.
Veja-se Mário Soares, não foram precisos muitos anos. Socialista quando lhe interessa!!
Mas não, a vida de António de Oliveira Salazar, foi vasculhada de cima abaixo e para tristeza de muitos, não lhe encontraram ponta de riqueza, pelo contrário, morreu na pobreza depois de 40 anos de autoridade ABSOLUTA. Eu quero, posso e mando!!
As solas de sapato rotas em fotos que se conhecem, mostram bem o quanto ele era avarento ... por Portugal.
A casa dele em Santa Comba, é um exemplo disso. Uma casa modesta, pobre, com o essencial para viver uma vida normal de quem detesta o fausto e a riqueza, ainda que a tivesse "à mão de semear".
Pena que ele não tivesse politicamente sido melhor.
Pena que estes políticos de hoje, nem política nem socialmente melhores. Não são exemplo de NADA.
Entram POBRES e saem RIQUÍSSIMOS.
E depois de sairem ainda arranjam TACHOS para capitalizar a RIQUEZA adquirida à custa dos portugueses. Nem sapatos rotos (também não é isso que se lhes pede) nem casas modestas.
Contas bancárias que lhes permitem um resto de vida ... de luxo.
Nem mais!
A Rua





A CASA ... ...... prestes a cair

O Quintal ...... e os anexos

sábado, 6 de outubro de 2007

A REVOLUÇÃO PERDIDA DE SITA VALLES


Sita Valles

Felícia Cabrita
Quem a conheceu em Lisboa, militando pelo comunismo, guarda dela a imagem de uma «passionária» empenhada com todas as forças na causa revolucionária. Quando o PCP começou a perder terreno em Portugal, Sita Valles decidiu voltara Luanda, terra onde a «vamp» da década anterior seria agora a dinamizadora da ala mais radical do MPLA. Para deter tanto activismo, foi preciso um pelotão de fuzilamento, mas, passados quase 15 anos, as autoridades de Luanda ainda recusam revelar o que se passou.
Sexta-feira, 27 de Maio de 1977, os sinos dobram em Luanda. De madrugada, populares e militares cercam o centro da cidade, ocupam prisões e quartéis, e exigem a Agostinho Neto que cumpra os estatutos do MPLA e afaste alguns ministros corruptos. Acreditam ainda que podem ganhar para a sua causa o Presidente da República. Mas a resposta não tarda, as tropas cubanas entram a matar e em poucas horas a casa fica arrumada. Sita Valles, que se celebrizara no movimento estudantil em Portugal, e aprendera as primeiras lições de marxismo-leninismo nas fileiras do Partido Comunista Português, tem a cabeça a prémio. É uma das cabecilhas do «golpe de estado». Por uns, é acusada de estar ao serviço do imperialismo, por outros, de ser agente secreto da KGB. Uma versão de Mata-Hari que entre lençóis decidia o destino do povo angolano. É fuzilada três meses depois, sentença assinada por Agostinho Neto, o poeta.
Sita Maria Dias Valles, nasce em Angola em 1951. O pai, Francisco Valles, de origem goesa, acabara de se licenciar em Portugal e partira rumo à colónia para fazer carreira. A família instala-se em Cabinda. O futuro sorri ao jovem engenheiro-agrónomo, enquanto na Europa o anti colonialismo ganha forma e António Salazar continua surdo aos apelos descolonizadores. Sita cresce sem contradições no meio da burguesia colonial. Desde pequena que abraça grandes causas, quer desempenhar um papel belo e nobre. Faz a sua primeira aliança com Deus, coloca pedras nos sapatos para se martirizar, não perde uma missa, é devota.
Sábado, 4 de Fevereiro de 1961, um grupo nacionalista, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), ataca em simultâneo duas cadeias e um quartel da polícia para libertar presos políticos. Os colonos pela primeira vez sentem-se em perigo. Sita vive agora em Luanda, num parque florestal onde o pai trabalha para os Serviços de Agricultura. A cidade está em estado de choque. As tropas portuguesas, acabadas de chegar, invadem musseques, e milícias civis incitam os soldados ao massacre. É a caça ao «turra». Os boatos crescem na capital, é anunciado um ataque em massa a Luanda. Sita conhece pela primeira vez o medo. Apela a Deus, espalha santos pelas portas e janelas. No terraço da casa colonial, coloca estrategicamente uma fila de soldados canonizados, que defendem a família dos «terroristas».
Mas o pânico inicial esmorece, e a adolescência traz a Sita novos modelos e referências. A moda dos anos 60 pega, ela usa mini-saias e botas altas, a sua beleza toma-se lenda, dá a volta à cabeça dos rapazes e desnorteia as famílias. Na Faculdade de Medicina, logo no primeiro ano, arrecada o título de Miss Caloira. Um colega, Luís Nolasco, toma-se de amores por ela, e a chama é tão intensa que o jovem vê os exames de fim de curso a andarem para trás. A mãe do rapaz procura-a e pede-lhe que se afaste de Luanda até as provas terminarem. Francisco Valles degreda-a com o irmão, Edmar, para uma missão no Quéssua, perto de Malange. Mas a rapariga não se habitua à alimentação frugal dos missionários americanos e envia uma carta ao pai clamando misericórdia. Os religiosos, que têm por hábito ler a correspondência alheia, não gostam da mensagem, e o estágio dos irmãos acaba mal.
Nos finais dos anos 60, chegam a Angola os ecos da revolta francesa de Maio de 68. Sita descobre as contradições da sociedade em que vive. Pertence ao grupo dos «cor-de-rosa», cor do seu jornal preferido, o «Comércio do Funchal» de Vicente Jorge Silva, que galvaniza estudantes da universidade luandense e desperta simpatias pela República Popular da China. No entanto, a luta pela independência de Angola marcha a lume brando. No próprio MPLA, anos antes, em 1963, nasciam dissensões. Viriato da Cruz, um dos seus fundadores, propõe a união com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), mas Agostinho Neto discorda. Viriato é expulso e refugia-se na China.
Matias Migueis, vice-presidente do MPLA, que também defende a união dos movimentos, é abatido meses depois. O reforço militar português em Angola e as divergências entre os grupos nacionalistas faz com que percam terreno. Em 1971, Sita e um grupo de estudantes angolanos de origem portuguesa decidem-se. Partem para a metrópole para engrossar as fileiras dos grupos antifascistas que lutam contra o regime e a favor da descolonização. Em Lisboa, reencontra o irmão mais novo, Edgar, que partira um ano antes de Angola e se tornara militante do PCP. Em poucos meses, sacode as primeiras pinceladas maoístas, é recrutada pelo PCP e apregoa um novo evangelho. Os seus profetas são Marx e Lenine e a sua causa a revolução e a ditadura do proletariado. Participa de imediato no movimento estudantil, e é membro da associação estudantil da Faculdade de Medicina, de 1971 a 1974. «Ela não sabia viver com dúvidas, tinha certezas. Era uma prática, queria concretizar-se na acção», recorda o médico José Manuel Jara, então dirigente da célula comunista de Medicina. Alguns estudantes caem nas mãos da PIDE. O silêncio é regra de ouro, quem não resiste à tortura e denuncia é marginalizado pelos colegas. «Para a Sita, era pessoa a quem nunca mais se falava», diz Jara.
É uma época de fervor ideológico, o movimento estudantil digladia-se, fazem-se «julgamentos populares» de estudantes, estala a pancadaria. Nas Reuniões Inter associativas saltam para a arena as várias correntes políticas, e as acusações chovem: «revisionistas», «sectários» e «sociais-imperialistas» são os piropos recíprocos. Abatem-se as velhas amizades. Jofre Justino, colega de Sita em natação, no Clube Nun'Alvares, desde os sete anos, está agora num campo oposto: «Na altura eu era maoísta, e estava convencido de que era ela que orquestrava os golpes vindos da União dos Estudantes Comunistas (UEC) contra nós».
Sita celebriza-se no movimento estudantil, é uma activista política e destaca-se na UEC. Mas viver com ela é um inferno. José Camisão, hoje médico, cometera o erro da sua vida: largara Angola e o curso de Medicina a meio, e seguira-a para a metrópole. Ele não tem ideais nem acredita em revoluções. Filho da alta burguesia colonial, apenas alimenta uma fidelidade: Sita Valles. Vivem maritalmente num apartamento em Campo Grande, e ele quer a todo o custo não se ver envolvido nas actividades partidárias da companheira: «Não me metas nas tuas histórias, porque se um dia sou preso pela PIDE não tenho estofo e digo tudo.»
Conselhos que ela nunca seguiu. Transforma-o no motorista dos clandestinos do Partido, e a mala do seu carro é usada vezes sem conta para esconder panfletos, o que lhe vale uma vez um mandado de captura. Mas o pai, uma figura do regime, salva-o a tempo. O 25 de Abril apanha Sita em Moscovo, é a representante da UEC no congresso do Kom-sommol (organização soviética da juventude). «Regressou completamente fascinada por Brejnev», lembra Edgar Valles. E desconfia da revolução dos cravos. Dias mais tarde, reúne-se com alguns militantes da UEC num apartamento da Avenida de Berna. «Estávamos a discutir se o golpe era positivo ou negativo», recorda Jara, um dos presentes. Sita é das mais desiludidas, o desfecho não correspondia às lições aprendidas na cartilha marxista-leninista, a dita revolução não passava de golpe militar. Mas, rapidamente, o PCP recupera: afinal tinha havido apoio popular, logo, o golpe era positivo.
Um ano mais tarde, o socialismo parece levado por maus ventos. O PCP tenta segurar o barco, mas o país desfere-lhe um golpe profundo. Nas eleições de 1975 para a Constituinte, o PS obtém a maior votação, seguido de perto pelo PPD. Um dia, Jara dá uma boleia a Sita e ela confessa-se desiludida: «A revolução aqui já deu o que tinha a dar, já não há hipótese de o país se encaminhar para o socialismo.»
Em Angola, entretanto, a desgraça adi vinha-se. A Lisboa chegam rumores de que o MPLA se encontra desfeito. A guerra civil rebenta, os movimentos nacionalistas - MPLA, UNITA e FNLA - combatem-se. Tinham aprendido na escola colonial a intolerância política. Sita, que faz parte da Comissão Central da UEC, sendo considerada a número 2, depois de Zita Seabra, arruma as malas, acena a bandeira de «Che» Guevara e vai fazer a revolução para Angola. Zita e Álvaro Cunhal tentam dissuadi-la. «O PCP estava muito interessado nas relações com Angola, » mas achava que não devia mandar para lá estudantes, porque estes tendem sempre para o desvio ideológico», lembra a então líder da UEC. «Os quadros que enviámos para lá não eram estudantes». Porém, cegos e surdos às orientações do partido, estudantes comunistas partem para Angola. Mas não vão sozinhos. Jovens dos vários quadrantes da extrema-esquerda portuguesa seguem-lhes os passos, convictos de que vão puxar os fios do destino africano.
Cruza-se com os colonos que tinham perdido o lugar ao sol e corriam para a metrópole em pânico. A família Valles chegara na remessa. Maria Lúcia, a mãe, tentara convencer Sita a ficar: «Olha que te vão cortar em postas». A filha, como resposta, oferecera-lhe um livro e resumira-o: «Mãe, esta mulher perdeu um filho. Enquanto ele era vivo, não concordava com as posições dele. Quando ele morreu, começou a lutar pelos ideais dele.» Era A Mãe, de Gorki.
Sita Valles aterra em Luanda (no Verão de 1975. Agostinho Neto recusa-se a dialogar com Holden Roberto e Jonas Savimbi. Os Acordos de Alvor, onde os três movimentos tinham negociado, em Janeiro, um governo de coligação que preparasse o país para eleições gerais, caem por terra. Neto recebe apoios da Jugoslávia, armamento entra nos portos de Luanda e tropas cubanas ajudam-no a correr com os adversários. É a luta pelo poder total. A11 de Novembro, proclama a independência e reivindica o reconhecimento internacional. Mas o Presidente da República não está contente.
Era preciso consolidar a unidade do país, uniformizar, esmagar a divisão. E o MPLA, movimento constituído por várias tendências políticas, tem de arrumar a casa. Nito Alves, um dos heróis da guerrilha, agora ministro do Interior, é o homem de mão de Neto para combater as minorias. Começam as perseguições à Organização Comunista de Angola (OCA), com ligações à extrema-esquerda portuguesa, acusada de esquerdismo; e à Revolta Activa, liderada por Joaquim Pinto de Andrade, um dos presidentes de honra do MPLA até 1973, considerado agora um pequeno-burguês.
A Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA) instala-se e estende as suas malhas. Vicente Pinto de Andrade, da Revolta Activa, um dos muitos presos, recorda: «Agostinho Neto era um ditador, queria eliminar todos os grupos que lhe fizessem sombra, era incapaz de dialogar». Haverá uma só voz neste país, dizia o poeta-presidente.
Nas prisões, a tortura é sistemática. A história de Angola começa mal: em nome da revolução, a vida deixa de ter sentido. Sita sobe depressa nas estruturas do MPLA, apoiada por Nito Alves, que se deixa fascinar pelo dinamismo da «Passionária» angolana. Assume importantes funções no departamento de Organização de Massas, mas depressa cria ódios entre os velhos dirigentes do MPLA. Nas reuniões do Bureau Político, acusam-na de ser uma infiltrada do PCP para controlar Angola. E o MPLA expulsa todos aqueles que militaram anteriormente noutras organizações políticas, mesmo aliadas. Sita não escapa à exclusão, mas nem isso diminui o seu fervor revolucionário. A 4 de Janeiro de 1976, escreve aos pais e, para tranquilizar a família católica, anuncia o casamento com o angolano José Van Dunem, comissário político do Estado-Maior Geral. No entanto avisa-os: «Não interessa politicamente que divulguem o casamento, porque eu fui do PCP e ele é dirigente do MPLA. Isso compromete-o politicamente. O MPLA não é comunista.»
Em Moscovo, nesse ano, Nito e Van Dunem assistem com Cunhal e Fidel Castro ao 25º aniversário do PCUS. Passados meses, Nito perde o lugar de ministro do Interior. No MPLA cava-se novo fosso: de um lado, Neto e alguns velhos dirigentes, adeptos de uma via «terceiro-mundista», de características semelhantes à argelina e com aproximações à Jugoslávia; do outro, Nito, Van Dunem e Sita, fiéis à ortodoxia soviética.
A 8 de Fevereiro de 1977, nasce Ernesto, o primeiro filho de Sita e de Van Dunem. «Demos-lhe o nome de 'Che' em homenagem a Guevara», escreve aos pais. Continua defensora da causa do proletariado. E desconhece que a história revolucionária é de todas a mais sangrenta. «Nós, na altura, desconhecíamos o que se passava na URSS, pensávamos que o que se dizia era obra da propaganda», recorda Amadeu Neves, angolano, militante do MPLA, seu «compagnon de route» e hoje no Partido Renovador Democrático angolano. Em 21 de Maio, uma comissão de inquérito, nomeada pelo Bureau Político e dirigida por José Eduardo dos Santos, chega à conclusão de que há «fraccionismo» dentro do próprio MPLA. Nito e Van Dunem são expulsos do Comité Central nesse mesmo dia. À noite, José Mingas - irmão do actual embaixador angolano em Portugal, Rui Mingas -, chefe de operações da DISA, avisa a família Van Dunem de que vai haver muitas prisões e que Sita e o companheiro têm a cabeça a prémio. Começa a girândola que de novo mancha de sangue a história de Angola.
Nos dias seguintes, o grupo reúne-se e prepara a ofensiva. Mas nem todos estão de acordo quanto aos métodos a utilizar. Responsáveis das FAPLA (o exército angolano) pertencentes ao Comissariado Político são a favor de um golpe militar. Amadeu Neves encabeça essa linha: «Tínhamos os militares todos do nosso lado. Se fosse um golpe militar, teríamos tomado o poder em meia hora.» Mas Sita e José Van Dunem, fiéis ao espírito bolchevique, não concordam: «Tem de ser uma insurreição popular. Os militares irão na retaguarda para defender o povo». Têm um osso duro de roer pela frente: as tropas estrangeiras. «Os cubanos sabiam muito bem que havia um grande descontentamento em Angola, e nos contactos que mantivemos tinham prometido que não iam interferir nos assuntos internos do país», garante Amadeu Neves. Num encontro na casa da família Kitumba, o conselheiro da embaixada da URSS repete sete vezes: «Só vos apoiamos se não for um golpe militar».
Na madrugada de sexta-feira 27 de Maio, populares e militares enchem as ruas de Luanda e tomam quartéis e prisões para libertarem presos políticos. Enquanto Sita, nos musseques, incita os operários à revolta, duas mulheres, Virinha e Nandy, dirigentes do destacamento feminino das FAPLA, dirigem o assalto à cadeia de S. Paulo. Hélder Neto, chefe da INFANAL - serviço de Informação e Análise - órgão paralelo à DISA, encontra-se desde as seis da manhã na prisão e é apanhado de surpresa. O feitiço virava-se contra o feiticeiro. Vítor Jeitoeira, um colono português recuperado pela DISA, hoje reformado e negociante de terrenos em Portugal, conta: «Hélder Neto tinha ordens para, nesse dia, começar a prender os adeptos de Nito. Estava lá a preparar a prisão para receber uma nova vaga de gente.»
Quando Hélder Neto percebe que está a perder o controlo da situação, liberta alguns presos e entrega-lhes armas para defenderem a cadeia. É um deles, Sambala, um cantor popular detido por delito comum, que o prende pelos braços, quando ele abre as portas da cadeia para negociar com os populares. Nandy, grávida de oito meses, toma a cadeia, e Hélder suicida-se. Já não se sabe quem é quem. Sambala, ávido de acção, encosta os presos da OCA e da Revolta Activa à parede e carrega a arma. Vicente Pinto de Andrade vê a vida a andar para trás. «Foi a Nandy que o impediu de nos matar. Abriu-nos as celas, deu-nos comida. Era uma espécie de 25 de Abril».
O actual secretário-geral do PRD angolano, Luís dos Passos, num jipe com seis militares, dirigia a tomada da Rádio Nacional, enquanto os populares que saíam dos musseques engrossavam a coluna. Mantém-se em contacto com Sita e Van Dunem, que têm por missão a mobilização popular: «Ela estava optimista, as pessoas dos musseques estavam todas a responder ao apelo.»
Às oito da manhã, ouve-se um locutor na Rádio: «Dizem que o major Nito Alves é fraccionista, mas os verdadeiros fraccionistas são os que estão no poder e querem fechar os olhos ao nosso mais velho camarada, Agostinho Neto. São os camponeses e os operários que devem guiar o pais.» Quando Saidy Mingas, o outro irmão de Rui Mingas, fiel a Neto, entra no quartel da Nona Brigada para tentar ganhar as tropas, é preso pelos soldados. Ele e outros militares contrários à revolta são levados por populares para o musseque Sambizanga.
O Governo leva tempo a reagir, Neto está sem tropas. Mas, de repente, a situação muda. Na rádio, entre o choro de mulheres, ouvem-se gritos cubanos. O Presidente tinha ganho o exército de Fidel, e, com Henrique dos Santos, nome de guerra Onambwe, director-adjunto da DISA, punha cobro à insurreição. «Conduzi a única tropa organizada do MPLA que restava para controlar o golpe», conta o ex-responsável pela polícia secreta. Os soldados abrem fogo e os manifestantes dispersam, ficando pelo caminho muitos mortos e feridos. Para Sita, que se encontra num Comando de Operações, a notícia do esmagamento da revolução chega como um dobre de finados. E prepara a fuga.
Pelas 16h00, a cidade está controlada, e os manifestantes procuram refúgio. Mas no Sambizanga ouvem-se tiros. Saidy Mingas e Eugênio Costa estão entre os comandantes mortos. No começo da tarde, reina o silêncio na cidade. Na Rádio Nacional ouve-se uma voz vacilante. Neto resume os acontecimentos que por poucas horas abalaram Luanda. Ele próprio está confuso: «Hoje de manhã, pretendeu-se demonstrar que já não há revolução em Angola. Será assim? Eu penso que não... Alguns camaradas desnortearam-se e pensaram que a nossa opção era contra eles. (...) Temos países amigos que não compreendem bem a nossa opção.» Era o recado à URSS. No dia seguinte já o seu discurso mudara. Publicamente, anuncia que alguns comandantes do MPLA tinham sido mortos pelos «nitistas». Entre eles, cita Hélder Neto. Jeitoeira, um operacional da DISA, varia na versão. Assiste ao enterro do chefe da INFANAL, vê o corpo, não tem dúvidas de quem partiu o tiro. A própria viúva de Helder confidencia-lhe: «Ele suicidou-se, mas o MPLA não quer que se saiba.» Criam-se vítimas para justificar o massacre.
Para Rui Mingas, que perde dois irmãos nos dois lados da barricada, a história está por resolver. «O Saidy era uma pessoa muito odiada no MPLA. Sabia demais...» A presença de Eugénio Costa entre as vítimas também causa embaraços. Jeitoeira diz de sua justiça: «É estranho, porque nós sabemos que na noite anterior ele tinha estado com alguns fraccionistas a preparar o golpe.» Nesse mesmo dia, centenas de pessoas são presas, e fuziladas. É a caça às bruxas. Nos jornais de Angola lê-se: «Os criminosos serão fuzilados.»
E Agostinho Neto, publicamente, pronuncia a sentença: não haverá perdão.
No dia seguinte, às 19h00, o responsável do cemitério de Calema está a jantar com a família quando recebe um telefonema estranho.
O seu chefe de repartição ordena-lhe que volte ao cemitério e aguarde. O cacimbo ensopava-lhe a roupa quando, de madrugada, param no portão dez carrinhas celulares. Carlos Jorge e Nelson Pinheiro (Pitoco), elementos da DISA, chefiam a expedição, que estaciona junto a uma vala comum de 200 metros. Mal os prisioneiros se apeiam, soam as rajadas das «kalachnikov». Alguns ainda têm tempo de gritar: «Salvem-me que eu não fiz nada». Pitoco, chefe do pelotão de fuzilamento, atende rápido ao apelo das vítimas: «Esse é perigoso, fica para mim.» Um dos coveiros aplana a terra da vala com um tractor.
Ainda se ouvem gemidos. O chefe do cemitério está aterrorizado e Pitoco avisa-o: «Em Angola não pode haver contra-revolução, por isso, se falares, vais fazer companhia a estes.» A própria DISA abate elementos das suas fileiras. Não há julgamentos nem advogados presentes. José Mingas, com 33 anos, é um dos 52 nomes que fazem parte da lista dos condenados à morte. Acusação: «Aproveitando-se do cargo de chefia que ocupava, desviou documentos classificados que entregou aos cabecilhas fraccionistas. Manteve contactos conspirativos com Zé Van Dunem.» Outros morriam apenas porque confessaram ter lido e divulgado as Treze Teses de Nito Alves, panfleto em que o autor acusa o MPLA de não cumprir os estatutos e denuncia ministros corruptos.
Felícia Cabrita

AS NOVAS TENDÊNCIAS

Vizite u Salão de Béléza MALU
Ai uê mana Felismina ...
Quantu qui custa?
Num tem os probrêma ... quarquer mesmo qui quer, vais ficar muinto bonita. Quarquer hora qui você queres, tem os profissionar qui sabi muinto i ti compões
Você vais no baile com muinta banga, mi cridita
Num ti vais mais aripender
Cumparesse mazé, ... mázintão num estás a ver essi mano bangoso qui tem os carça caté quazi nus piscoço?



sexta-feira, 5 de outubro de 2007

AINDA ... A LEI DE MURPHY

LEI DA ADMINISTRAÇÃO DO TEMPO
Tudo leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível.

LEI DA PROCURA INDIRECTA
1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa, é procurar outra.
2. Você sempre encontra aquilo que não está procurando.

LEI DA RELATIVIDADE DOCUMENTADA
Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.

LEI DO TELEFONE
- Quando te ligam:
Se você tem caneta, não tem papel...
Se tiver papel, não tem caneta...
Se tiver ambos, ninguém liga.
- Quando você liga para números errados de telefone, eles nunca estarão ocupados.
Parágrafo único: Todo corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone.

REGULAMENTAÇÃO DO ESPECIALISTA
1. Especialista é aquele cara que sabe, cada vez mais, sobre cada vez menos.
2. Super especialista é aquele que sabe absolutamente tudo, sobre absolutamente nada.

LEI DAS UNIDADES DE MEDIDA
Se estiver escrito "Tamanho único", é porque não serve em ninguém.

LEI DA GRAVIDADE
Se você consegue manter a cabeça enquanto à sua volta todos estão perdendo, provavelmente você não está entendendo a gravidade da situação.

LEI DOS CURSOS, PROVAS E AFINS
1. Se o curso que você mais desejava fazer só tem 'n' vagas, pode ter certeza de que você será o aluno "n+1" a tentar se matricular.
2. Oitenta por cento do exame final será baseado na única aula que você perdeu, baseada no único livro que você não leu.
3. Cada professor parte do pressuposto de que você não tem mais o que fazer senão estudar a matéria dele.
Parágrafo único:A citação mais valiosa para a sua redacção, será aquela da qual você não consegue lembrar o nome do autor.

LEI DA QUEDA LIVRE
Qualquer esforço para se agarrar um objecto em queda, provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente.
1. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo, é proporcional ao valor do carpete.
2. O gato sempre cai em pé.
3. Não adianta amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no carpete. O gato comerá o pão antes de cair... Em pé.

GUIA PRÁTICO PARA A CIÊNCIA MODERNA:
- Se mexer pertence a biologia.
- Se feder pertence a química.
- Se não funciona pertence a física.
- Se ninguém entende, é matemática.
- Se não faz sentido, é economia ou psicologia.
- Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido... é INFORMÁTICA!

LEI DAS FILAS E DOS ENGARRAFAMENTOS
A fila ao lado sempre anda mais rápida.
Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida.

LEI DO ESPARADRAPO
Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai.

LEI DA VIDA
1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.
2. Tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

LEI DA ATRACÇÃO DE PARTÍCULAS
Toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A CONVICÇÃO MESSIÂNICA DE NITO ALVES

Orlando Ferraz

Em 27 de Maio de 1977, apenas 19 meses depois da independência, teve lugar em Angola uma denominada pelo então regime de Agostinho Neto de "intentona golpista" comandada por Alves Bernardo Baptista, vulgo Nito Alves, membro do Comité Central do MPLA. O golpe é abortado deixando um saldo de mais de 28 mil mortos.
Henriques Teles Carreira, vulgo Iko, então Ministro da Defesa, joga papel importante e decisivo no julgamento extra-judicial e posterior fuzilamento do cabecilha da rebelião armada, feito por um pelotão de fuzileiros no Grafanil, arredores de Luanda.
Para as milhares de famílias, que perderam seus entes queridos durante e depois da repressão dos insurrectos, o trauma causado por esse pesadelo ainda é 28 anos depois, a pura realidade. Mas o segredo por parte do regime em volta desta questão é considerado Segredo de Estado, ou melhor, e para citar o historiador angolano Carlos Pacheco, "o silêncio tem funcionado tal e qual uma espécie de arca fechada a sete chaves, que se exita em abrir".
Mas seja como for, o 27 de Maio constitui a página mais negra que a história de Angola já conheceu, considerado o facto da atrocidade registar-se numa altura fora do domínio colonial português, aí a gravidade acrescida da mesma.
Mas o labirinto de segredos em volta do 27 de Maio, não é o único mistério que marca a existência da história pré e mesmo colonial de Angola. Verdades sobre os verdadeiros motivos e assassínios de Matias Miguéis, José Miguel Francisco irmão do conhecido cantor angolano "Calabeto" braços direito de Viriato da Cruz, alegadamente mortos por ordens expressas de Agostinho Neto em 1965 no regresso de uma Conferência em Jacarta, na Indonésia de Sukharno, são apenas alguns de muitos outros casos por se esclarecer, tal como as verdadeiras razões que levaram o assassínio de Deolinda Rodrigues, heroína do MPLA. Terá sido em retaliação de Holden Roberto pela morte de Matias Miguéis e José Miguel Francisco? Quem e porquê mataram um tal "camarada" Ferro e Aço? Para não revelar as execuções de Matias Miguéis e Miguel Francisco?
Quais foram as verdadeiras razões que levaram Nito Alves sob conivência do Comité Director do MPLA, a executar o conhecido Comandante Lourenço Casimiro, ou simplesmente "Miro", na chamada Primeira Região político-militar?
Voltando ao tema central, afinal o que esteve por detrás do cenário do 27 de Maio? Tinha necessariamente que existir um 27 de Maio, e a repressão teria que ser tão violenta tal como ela se deu? Que relação histórica teve o 27 de Maio com outras rebeliões e Movimentos contestatários no seio do MPLA, tais como as conhecidas "Revolta do Leste" comandada por Daniel Chipenda e a "Revolta Activa" de Gentil Viana? Por mais retóricas que pareçam estas perguntas em certos círculos do Movimento nacionalista angolano, certo é, entretanto, que elas merecem necessariamente respostas, estudos e reflexão adequadas. Nesta modéstia contribuição o meu objectivo não é por isso confrontar-me com tais perguntas, mas sim, sensibilizar aqueles que detêm o talismã das verdades sobre este complexo e controverso dossier, muitos deles espalhados pela diáspora, para que se pronunciem ou que se calem para sempre.
Não restam dúvidas de que a falta de debate interno, a falta de contestação externamente visível nas lideranças partidárias no seio do MPLA e também da UNITA e mesmo da FNLA, excluía e exclui a possibilidade de se sararem feridas com base na aplicação de melhores métodos para aperfeiçoamento de normas político-morais no seio destes Partidos políticos, antigos Movimentos nacionalistas angolanos.
Ao longo da história da existência do MPLA, UPA/FNLA e da UNITA, todas contestações e dissidências foram repelidas com a maior violência possível por parte das respectivas lideranças, e muito particularmente por parte dos líderes "incontestáveis", Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, respectivamente. Desta forma estava excluído qualquer campo para o debate franco e aberto bem como para crítica e muito menos auto-crítica.
Já o histórico Viriato da Cruz, cuja figura e nome foram publicamente apagados pela poderosa máquina de Informação, o D.I.P do MPLA, não levou da melhor com o seu antagónico, Neto. A ambos eram reconhecidas qualidades como: intelectualidade, disciplina, robustez e perfil políticos e outros adjectivos. Em termos comparativos, entretanto, Viariato da Cruz era, segundo seus contemporâneos, o homem que detinha o poder e influência sobre as massas populares aderentes ao MPLA.
Tal como Viriato, no MPLA também existiu um homem, pese embora e em termos de idade não fazer parte da geração dos fundadores do MPLA, conseguiu a dada altura ganhar vários extractos das massas populares e círculos influentes no seio do Movimento. O politólogo e historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, resumiu assim a pessoa política de Nito Alves, bem como sua inserção e carreira no MPLA: "Ele, como outros da Primeira Região, tinha claramente feito entender a sua diferença quanto a visão que tinham, não só da forma como a luta foi dirigida, mas muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial da sociedade e as questões sociais".
Nito Alves, que aproveitando a soberba chance de organizar o MPLA em Luanda até antes da chegada de Neto a Luanda em Fevereiro de 1975, ganhou naturalmente nome e popularidade e era já conotado como sendo líder de uma tendência pró-soviética, mais tarde provada devido sua assiduidade em Moscovo.
Com a chegada de Neto e seu círculo restrito em Luanda, começam as intrigas com o objectivo de o afastar do círculo restrito do Partido e consequentemente do Presidente Agostinho Neto. As divergências internas foram crescendo, ao ponto de mais uma vez chegarem a existir pelo menos três fracções no seio do Partido: os Netistas (de Agostinho Neto), entre eles também o ideológico Lúcio Lara e Iko Carreira; Os Nitistas (de Nito Alves) apoiado por José Van-Dúnen, Bakalov, Sita Vales e outros; os chamados Tugas, conotados com o Partido Comunista Português-P.C.P. alegadamente mais próximos a Nito Alves.
Este cenário é praticamente parte ou sequência de uma norma que no passado longínquo marcaram as Dissidências no seio do MPLA, quase sempre em forma de Trindade: Facção Neto; Facção Chipenda - também chamada de Revolta do Leste e a Revolta Activa.
Ao se aperceber de que as rebeliões no seio do Movimento visavam reduzir o seu protagonismo e carisma, Agostinho Neto aborta a realização de uma Conferência Nacional do Movimento proposta por dirigentes contestatários da sua liderança, entre eles evidentemente Nito Alves. A partir desta altura, as suspeitas de uma rebelião por parte de Nito Alves e sua forte ala, basicamente militar, estava preto no branco, isto é, era mais do que evidente. Aliás os movimentos preparativos de Nito Alves e sua equipa, nunca passaram despercebidos pela liderança do MPLA, foram sim é menosprezados. Este status quo ganha novos e sérios contornos, uma semana antes da tentativa do golpe de estado, com a agudização da situação para os revoltosos.
A Repressão sobre os insurrectos
O Comité Central do MPLA reúne-se nos dias 20 e 21 de Maio, seis dias antes da intentona golpista, e decide expulsar do grémio central do partido, Comité Central, os dois que viriam mais tarde a ser identificados como sendo os "cabecilhas" do Golpe de Estado, a saber: Nito Alves e Zé Van-Dúnen.
Em consequência deste e outros factos, Neto autoriza a temível máquina repressora da DISA, moldada ao estilo e eficácia da PIDE e com métodos repressivos comparados aos da GESTAPO de Adolfo Hitler e da STASI da antiga RDA, para que fizesse um acompanhamento literalmente severo e consequente da preparação de uma provável insurreição.
Resultado da intentona golpista: mais de 28 mil mortos; mais de 3 mil desaparecidos; mais de metade dos oficiais superiores do Exército no activo (Majores e Comandantes na sua maioria) foram abatidos da forma mais selvagem.
Nito Alves, o homem mais falado e procurado em Angola nos meses de Maio e Junho de 1977, viria a ser alegadamente preso dias depois, tendo sido submetido a um longo e rigoroso interrogatório. Para legitimar a sua própria excussão, foi finalmente forçado a redigir a seguinte sentença de morte, que se supõe ter sido redigida pelo seu próprio punho:

"A decisão da eliminação física dos responsáveis eliminados no dia 27 de Maio de 1977 foi tomada por mim, Zé Van Dúnen e Sita Vales.
Mas é de notar que tal decisão visava apenas os responsáveis de que tínhamos conhecimento correcto da sua prisão: Major Said Mingas, os Comandantes Bula, Dangereaux e Nzaji.
Os outros detidos eram desconhecidos por nós".
Nota de realce, é o facto de, o Comité Central do MPLA admitir na sua nota de informação do Bureau Político do MPLA de 12 de Julho de 1977, Pág.15 (Edições Avante!) uma certa "passividade dos órgãos dirigentes, assoberbados com a complexidade da situação, que exigia soluções para os graves problemas de ordem militar", facto que não terá permitido ter calculado com exactidão, o estado avançado em que a preparação do golpe havia alcançado.
Para o MPLA, e segundo se pôde ler do mesmo documento, tanto Nito Alves como o seu braço direito Van-Dúnen, enveredaram o caminho do fraccionismo, pois a sua "acção deixara de se inspirar nas leituras de Mao Tsé-tung para passar a inspirar-se nas leituras superficiais de alguns textos de Lénine e de outros autores marxistas, que nem sempre eram compreendidos dentro do seu verdadeiro contexto".
Com o aborto da rebelião armada de 27 de Maio de 1977, acabava um sonho recém iniciado como bem o descreve Jean-Michel Tali
"Nito [Alves] queria uma revolução pura e dura, do tipo bolchevique, o seu discurso pró soviético não deixara dúvidas sobre isso. [...]
O importante na minha opinião, é entender a dinâmica sócio-política que desemboca nesta tragédia.
Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito e sua convicção quase messiânica, de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano".

Extractos do 7º capítulo da obra "Angola: Depois da Tempestade a Bonança" com 240 páginas a ser lançado brevemente pelo articulista.

O 27 de Maio de 1977

de: Adolfo Maria
Este excelente livro são relatos do percurso político de Adolfo Maria um ex-membro de Revolta Activa do MPLA. O livro tem copyrigt por isso, pedimos a compreensão e condescendência da editora e do autor porque ele não será facimente acessível ao pessoal de Angola. O tema que aqui transcrevemos já descrito anterioemente tem algumas lacunas as quais serão preenchidas aqui neste texto daí o interesse na sua publicação.
A. M. - Procurou-se chegar a um acordo entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Refira-se que Agostinho Neto aceitou entender-se com a Revolta Activa, mas teve uma atitude muito diferente para com a Revolta de Leste. Esta apresentava-se como a facção armada do MPLA e a FNLA queria que Chipenda participasse nas eleições, mas nenhuma das outras partes aceitou. Aliás, a direcção do MPLA rapidamente tentou a sua destruição, atacando a delegação da Revolta de Leste em Luanda, ataque em que morreu o Comandante Valódia (da minha varanda, no 6.° andar, assisti a esse ataque feito de madrugada, pois a vivenda atacada ficava a poucos metros do prédio onde eu habitava, na Avenida do Brasil). Mais tarde, as autoridades portuguesas - baseadas nos Acordos de Alvor - exigiram que Chipenda desarmasse as suas hostes ou integrasse um dos três movimentos.

Mas estava eu a falar das conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Essas conversações começaram em Janeiro de 1975, numa casa do Bairro do Saneamento, em Luanda. Na primeira reunião fomos recebidos por Agostinho Neto, que nos apertou a mão e nos mandou reunir com a delegação da direcção. Essa delegação era constituída por Lúcio Lara, Iko Carreira e Nito Alves, enquanto a nossa era formada por Mário de Andrade, Amélia Mingas e eu.
A direcção propunha que nós fizéssemos uma autocrítica individual e depois poderíamos reintegrar o movimento; a nossa posição era a de criar uma plataforma de princípios básicos que serviriam à nossa integração no movimento. Afirmámos, inclusive, que queríamos entrar como militantes de base. Cada delegação expressou o seu ponto de vista e acordou-se que cada uma iria estudar as propostas da outra e depois seria realizada uma segunda reunião.
Ela realizou-se em Março e, depois, ainda houve uma terceira reunião - já com tiros em Luanda - mas sem resultados positivos. As composições das delegações variavam de reunião para reunião. Pela parte da direcção, além da participação de Lara, houve a participação de Pepetela, Bento Ribeiro (Kabulo). Pela nossa parte, eu deixei de participar, Mário de Andrade era um participante permanente e participaram Maria do Céu e Amélia Mingas.
Para a direcção do MPLA, as conversações connosco deixaram de ter qualquer importância, dado que estava empenhada no próximo aniquilamento da FNLA e da UNITA. As conversações foram interrompidas e a situação caiu num impasse.

Veio a batalha de Luanda, o MPLA expulsou a FNLA e a UNITA da capital, em Julho de 1975. Voltámos a insistir com a direcção do MPLA e realizou-se então uma reunião que decorreu na Vila Alice, na sede do MPLA, estando presentes Nito Alves e Dilolwa pela direcção e Gentil Viana, Monimambo e Adolfo Maria pela Revolta Activa. Nessa reunião, Nito Alves reiterou friamente e com um encolhido Dilolwa a seu lado que era necessário os membros da Revolta Activa fazerem uma autocrítica «perante as massas».
F. P. - Um momento, só um aparte. No contexto do avolumar dos combates entre os três movimentos, qual foi a vossa posição em relação à guerra civil?

A. M. -
A Revolta Activa era frontalmente contrária à guerra civil porque estava ciente das suas terríveis consequências. No terreno, verificava-se que o MPLA não estava em perigo, até tinha uma posição favorável. Mantivemo-nos fora dessa guerra. Mas também é verdade que um ou outro militante da Revolta Activa, a título individual, combateu pelo MPLA contra a FNLA, durante a batalha de Luanda.
A nossa acção enquanto grupo político foi sempre em prol da paz. Por exemplo, durante a conferência de Nakuru, em meados de 1975, os dirigentes de alguns países africanos procuraram conciliar os três movimentos. Nós, então, conseguimos a publicação no jornal Comércio de Luanda de um documento que demonstrava os males que uma guerra civil traria a Angola e onde fizemos um apelo aos líderes políticos angolanos para que recorressem à nação, a fim de se encontrar o caminho para resolver os seus conflitos. O Comércio foi o único jornal que aceitou publicar o nosso apelo, todos os outros (Diário de Luanda, ABC e Jornal de Angola - ex. Província de Angola), tal como as estações de rádio recusaram-se terminantemente a publicá-lo (já estavam sob o total controlo do MPLA). Sublinhe-se que o documento publicado não era um documento da Revolta Activa, mas sim um apelo subscrito individualmente por alguns patriotas: Joaquim Pinto de Andrade, João Baptista, Maria do Céu Reis, Gentil Viana, Adolfo Maria, Amélia Mingas, Luís Carmelino (Jota) e Manuel Videira.
F. P - Podemos continuar com a narração dos factos relativamente à Revolta Activa. Dizia-me que as reuniões entre os delegados da Revolta Activa e os delegados da direcção do MPLA não produziram resultados significativos...

A. M. -
Não houve mais reuniões por largos meses. Mas, logo após a independência, para além dos constantes ataques na imprensa à UNITA e à FNLA, começaram os ataques contra os chamados fraccionistas do MPLA, os ditos «oportunistas» que se tinham levantado contra a direcção do MPLA e contra os quais seria movido um combate impiedoso.
Esses ataques visavam sobretudo os grupos de jovens que tinham ajudado a implantar o MPLA em Luanda, os dos Comités Amílcar Cabral - depois Organização Comunista de Angola (OCA) - e a Revolta Activa.
Nessa campanha do MPLA contra os ditos fraccionistas empenhavam-se raivosamente nos jornais os escribas oficiosos e oficiais como Ndunduma, enquanto nos comícios se empenhava Nito Alves, Ministro da Administração Interna, publicamente apostado na punição dos elementos da então ex-Revolta Activa. A campanha intensificou-se até ao paroxismo após a retirada das tropas sul-africanas de Angola, em Março de 1976.

As cadeias deixadas vazias pelo defunto regime colonial-fascista encheram-se com membros da FNLA e da UNITA que tinham escapado à liquidação física na «batalha de Luanda». Mas não só com estes.
O MPLA começava também a encarcerar nessas cadeias os seus próprios militantes. Os presos eram indivíduos que militavam nos Comités Amílcar Cabral e alguns nos Comités Henda (convém precisar que esta última organização forneceu a maior parte dos quadros que apoiaram Nito Alves na contestação da direcção de Neto).
Entre os presos, estavam os irmãos Rasgado, Manuel, Enes Ferreira, Castro Paiva, Graça Vieira Lopes, Leonel, Rosa da Silva, dos Comités Amílcar Cabral (ou OCA) e também os irmãos Fernando e Carlos Pacheco, Rui Ramos, Loló Kitumba, Aragão, Vasconcelos, Chico Zé (este viria a desaparecer aquando da maciça repressão desencadeada pelo regime, após o golpe de 27 de Maio). Da Revolta Activa estavam presos Rui Castro Lopo e Manuel Videira.
Os ataques públicos contra a Revolta Activa avolumaram-se desmedidamente, muito embora estivéssemos dispostos a retomar as conversações. O nosso mensageiro junto da direcção do MPLA era o médico Eduardo Santos. Este desligara-se da Revolta Activa, fazendo uma autocrítica escrita, que apresentou a Agostinho Neto. Hugo de Menezes fizera exactamente o mesmo. Eduardo Santos conseguiu que Neto recebesse Joaquim Pinto de Andrade. Este explicou-lhe que nós só queríamos reintegrar o MPLA como militantes de base e de modo algum queríamos pôr em causa a sua presidência. Disse-lhe que nem sequer queríamos discutir as questões que tinham levado à constituição da Revolta Activa, uma vez que vivíamos então outro momento histórico completamente diferente.
Por outro lado, crescia, no seio do MPLA, a luta entre Agostinho Neto e Nito Alves. Nesse combate, naturalmente que a Revolta Activa era um excelente instrumento para cada um deles. Aparentemente tinham posições diferentes sobre ela. Agostinho Neto quereria a nossa neutralização política e mesmo banimento, mas talvez não quisesse a nossa liquidação, até porque alguns de nós tinham um certo prestígio fora de Angola; daí que uma atitude menos dura em relação a nós pudesse funcionar positivamente para a sua imagem. Ao invés, Nito Alves queria a nossa liquidação, isto é, o nosso esmagamento político e físico. Naquele momento, a Revolta Activa havia perdido praticamente toda a sua influência e muitos dos seus elementos tinham-se aliado à direcção do MPLA. Neste contexto, um outro factor nos preocupava: víamos prevalecer o desejo de vingança pessoal por parte de alguns membros da direcção, sobrepondo-se ao interesse político ditado por uma resolução pacífica do diferendo.
F. P. - Depois da independência, ainda houve conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA?
A. M. - Nos primeiros meses de 1976 (Janeiro ou Fevereiro) houve uma reunião em casa do médico Eduardo Santos entre uma delegação da direcção do MPLA, constituída por Nito Alves e Dilolwa, e membros da Revolta Activa: Gentil Viana, Jota, Amélia Mingas, Monimambo e eu próprio. Nito Alves disse que era forçoso que os membros da Revolta Activa fizessem publicamente a sua autocrítica. Mas alguns de nós responderam que isso não tinha sentido. Aliás, o próprio MPLA continuava a caluniar-nos e a acirrar a população contra nós, pelo que essa autocrítica em praça pública seria apenas o ponto de partida para o nosso linchamento.
Não havia também quaisquer razões para a autocrítica porque a discussão dos problemas tinha sido interrompida e aquele não era o momento para discutir as questões que estiveram na base do aparecimento da Revolta Activa. Perante a nossa resposta, a tensão subiu muito entre Nito Alves e Monimambo. Este, de dedo em riste e fuzilando com o olhar Nito Alves, disse-lhe mais ou menos isto:
«Quem és tu, camarada, para exigir de mim uma autocrítica?! Mete na tua cabeça que nunca vais ter o prazer de ver-me fazer uma autocrítica perante ti!».
De certa forma, Monimbambo, comandante do MPLA desde 1961, kikongo, ajustava contas com Nito Alves, que integrara aí a Região Militar como professor, vindo de Luanda, em 1969. Nito Alves tinha rapidamente ascendido a comissário político, substituindo Miro (Casimiro), que o Comando dessa lª. Região tinha feito enforcar, em 1970/1971 - Comando de que então Nito Alves já fazia parte. Os olhares de Monimambo e Nito Alves eram de profundo e mortífero ódio. Sentimos, pela expressão de Nito Alves, que o problema era insolúvel. Terminara a reunião, foi glacial a despedida.
F. P - O que sucedeu a partir daí?
A. M. - Nito Alves foi à União Soviética. Quando regressou fez um violentíssimo discurso contra nós no Comissariado Municipal de Luanda, onde afirmou que havia traidores no seio do aparelho de Estado, isto é, indivíduos da Revolta Activa, com empregos e benesses do Estado, cuja acção nefasta era preciso eliminar. Este discurso, feito a 28 de Março de 1976, foi profusamente retomado e difundido pelos jornais e rádio.

Perante esta declaração pública tão clara e explícita nas suas intenções, voltámos a contactar Agostinho Neto, alertando-o para o perigo que corriam as nossas vidas e para o desprestígio que a nossa liquidação traria ao MPLA. Por intermédio do médico Eduardo Santos e de Joaquim Pinto Andrade, Agostinho Neto respondeu-nos que devíamos enviar uma declaração ao Bureau Político, que reuniria a 10 de Abril de 1976 (num sábado). Reunidos em casa de Eduardo Santos, redigimos esse documento onde, em síntese, afirmávamos isto: estávamos dispostos a integrar o movimento na condição de militantes; não existiam mais os pressupostos que tinham levado à nossa tomada de posição em Maio de 1974 e, tal como no passado, tudo faríamos para a defesa do MPLA na luta contra os seus inimigos.
O documento foi entregue numa quinta ou sexta-feira a Agostinho Neto. Na segunda-feira à tarde ainda não tínhamos obtido resposta, pelo que resolvemos telefonar ao Secretariado do Bureau Político. Lúcio Lara era o Secretário desse órgão, sendo sua secretária Elsa Sousa Almeida, mulher do Juju, que nos respondeu que teríamos a resposta no dia seguinte.
De facto, a resposta veio no dia seguinte! Na terça feira de manhã, dia 13 de Abril de 1976, a minha mulher irrompeu na repartição onde eu trabalhava e disse-me que António Jacinto (era então ministro da Educação) a chamara para lhe perguntar onde eu trabalhava. A informação seria para Hélder Neto (um dos responsáveis da DISA, a polícia secreta).Temendo a minha prisão, pediu à colega e amiga Rute Magalhães para levá-la de carro ao meu local de trabalho, a fim de me informar do que se estava a passar. Então, eu compreendi que vinham à minha procura para me prender. Dei instruções sobre o serviço e saí da repartição. Vi dois enormes indivíduos a falarem animadamente com uma funcionária do sector das cooperativas, a Clara (vim a saber muito tempo depois que eram os agentes que me deviam prender). Pedi à minha mulher para ir avisar Gentil Viana e Joaquim Pinto de Andrade. Eu também me dirigi de carro a casa do Joaquim, que morava num bairro perto do Hospital Maria Pia. Não estava em casa. Voltei a encontrar-me com a minha mulher que vinha com a Rute no carro avisar o Joaquim. Informaram-me que o Gentil Viana não estava na repartição onde trabalhava, o que me inquietou. Soube depois que ele fora levado pela DISA, na sequência de uma ordem de prisão assinada por todos os membros do Bureau Político.
F. P - Então, em Abril de 1976, houve uma ordem de prisão para vários membros da Revolta Activa. Pode descrever como é que se desenrolou o processo de prisão ou de fuga dessas pessoas? O que é que lhe aconteceu?
A. M. - Na rua, despedi-me da minha mulher e da Rute, sabendo que tudo me poderia acontecer! Dirigi-me sozinho ao local de trabalho do Edmundo Gonçalves, na CAOR Em nome do nosso passado e amizade pedi-lhe para me levar para casa dele, na Vila Alice (ou Vila Clotilde), que estava vazia. Pedi-lhe também para contactar a minha comadre, Helena Morais, a qual me tinha dito que havia uma casa vazia onde poderia ficar, uma vez que a dona estava de férias em Portugal. Refira-se que eu já estava há alguns meses a dormir fora de casa, tal como Gentil Viana, Paiva e outros - nós já conhecíamos bem o MPLA. Edmundo Gonçalves fechou-me na sua casa e avisou a Helena e o Alfredo Morais, os quais me levaram escondido no seu carro para um apartamento, situado no fundo da ferradura do antigo liceu Salvador Correia, em frente à COOPETROL.
Cerca das três horas da tarde desse dia, eu já estava sozinho, bem escondido, mas numa enorme angústia, sem saber o que se passava lá fora. Mais tarde vim a saber que a rusga geral começara às 10. 00 da manhã - o Gentil Viana foi preso mais ou menos a essa hora; depois foram presos os Pinto de Andrade: Vicente, Justino e Merciano, o Talangongo, Capita, Rafael (cunhado de Manuel Jorge), Lukamba, Tito Gonçalves, Brooks. Dois dias depois é preso Fernando Paiva. Dessa rusga geral escaparam, por se terem escondido, Jota Carmelino, Menezes (irmão de Talangongo) e Adolfo Maria.
Os nossos camaradas presos foram todos encaminhados para a antiga prisão da PIDE, na Vila Alice, excepto Gentil Viana que ficou à guarda dos cubanos, creio que na antiga fortaleza do Penedo, na Boavista. Na prisão (a antiga cadeia da PIDE), os primeiros encontraram outros membros da Revolta Activa que já tinham sido presos muito tempo antes: Rui Castro Lopo e Manuel Videira. Depois de preso, Gentil Viana entrou em greve de fome, pelo que foi transportado em coma para a clínica D. João III, no bairro Prenda. Voltou a sair da clínica depois de ter ficado cego de uma vista e de ter debelado uma grave infecção numa costela. Uma semana depois da rusga, Jota Carmelino resolveu apresentar-se. Nove meses depois de estar escondido, Menezes fez saber da sua existência e foi preso. Antes disso, foi alvo de uma tareia monumental, possivelmente dada por homens da DISA (a polícia secreta do regime). Quanto a mim, estive escondido desde Abril de 1976 a Novembro de 1978, mais de dois anos e meio, na mais absoluta clandestinidade, da qual viria a sair mais tarde, porque entretanto Agostinho Neto tinha amnistiado os antigos elementos da Revolta Activa.
F. P. - E onde é que estão os outros grandes expoentes da Revolta Activa? Estou a referir-me a Joaquim Pinto de Andrade, Mário Pinto de Andrade, Maria do Céu Carmo Reis, e outros...
A. M. - Maria do Céu Carmo Reis e Mário Pinto de Andrade estavam ausentes de Angola desde meados de 1975, por razões académicas. Joaquim Pinto de Andrade estava em Angola, mas não foi objecto de prisão, creio que pelo prestígio internacional de que gozava. No entanto, durante o período que foi director do Instituto Pedagógico, foi duramente enxovalhado, através de panfletos colados nas paredes, denunciando-o como traidor, e chegou a ser levado para uma esquadra.
Quando se deu a prisão de Gentil Viana, Joaquim Pinto de Andrade escreveu uma carta a Agostinho Neto. É um vigoroso documento de apelo à razão, com várias frases em latim, alertando o Presidente para o que podia cair sobre ele próprio - Cônsul coveont! (Cuidado Cônsul!), isto é, estás a fazer o que pode vir a acontecer-te. Monimbambo deve ter feito algum acordo com Agostinho Neto ou então Neto não quis afrontar a forte corrente kikongo, mas o que é certo é que ele foi enviado para a Jugoslávia, para frequentar um curso de Altos Estudos Militares. Amélia Mingas não foi presa, possivelmente porque membros da sua família pertenciam à equipa do poder, nomeadamente o seu irmão Saydi Mingas, que era Ministro do Planeamento. Manuel Jorge estava em Portugal, estava em Portugal onde se encontrava desde 1975, a concluir o seu curso, tendo depois ido para França, onde hoje é advogado e professor universitário.
F. P - O período da sua clandestinidade correspondeu a um momento muito conturbado da história do novo Estado angolano. Refiro-me aos acontecimentos que estiveram em torno do golpe de 27 de Maio de 1977. A partir do seu isolamento conseguiu acompanhar a evolução política dopais?
A. M. - Sim, consegui acompanhar a vida política angolana porque recebia semanal ou quinzenalmente (para além de géneros alimentares) jornais e informações do exterior do meu abrigo, que analisava. Aliás, eu próprio enviava para o exterior informações, escritas em letra miudinha, contendo dados biográficos dos presos políticos, para se fazer campanha em Portugal pela sua libertação.
O ano de 1976 caracterizou-se pela consolidação do MPLA no poder: as tropas sul-africanas tinham retirado do Sul de Angola em Março, por instruções de Kissinger; as forças da FNLA, da UNITA e dos seus aliados pareciam ter sido esmagadas; os contestatários da linha política seguida pela direcção do MPLA, isto é, a OCA e a Revolta Activa, estavam presos e aparentemente parecia haver todas as condições para que o MPLA exercesse tranquilamente o poder.
No entanto, não era assim. Através dos jornais e dos noticiários verifiquei que se agudizava a surda luta pelo poder no interior do MPLA, entre Nito Alves e Agostinho Neto. Em Junho de 1976, deu-se já um confronto, visível na campanha das eleições para o poder popular, onde se decidia a escolha dos elementos das comissões de bairro, autarquias, etc. Até apareceu no jornal um poema de Hélder Neto, um delirante hino ao chefe (o Presidente), onde se dizia em óbvia alusão que Neto se escreve com e. Nito Alves apostava fortemente na vitória dos seus elementos nessas eleições e o facto de ser Ministro da Administração Interna favorecia a sua acção. Apesar disso, não conseguiu inteiramente os seus intentos, porque Agostinho Neto e Lúcio Lara mobilizaram fortemente o aparelho do movimento afecto a eles. Mas Nito Alves foi colocando elementos seus nas Forças Armadas e na DISA, preparando o assalto ao poder.
Embora os órgãos de comunicação reproduzissem cada vez mais o pensamento único do MPLA, havia diversas cambiantes, pelo que era possível apreender, através delas, as tensões que perpassavam pelo MPLA. Conforme uma ou outra parte tinha mais influência num ou noutro órgão, trocavam-se acusações do tipo: «as atitudes radicais podem trazer prejuízos para o povo!», «os que propagam o radicalismo actuam criminosamente!» ou «a revolução proletária não se faz com a pequena burguesia» e «há que levar a revolução até às últimas consequências».
A partir dos finais de 1976, sente-se que está eminente uma qualquer acção ou reacção, seguramente violenta. Entretanto, Agostinho Neto conseguia o controlo quase total dos meios de comunicação, colocando os seus homens nos lugares chave, o que lhe deu uma vantagem substancial em relação a Nito Alves. No geral, a rádio e a imprensa passaram, a veicular as ideias da direcção do MPLA, embora a facção de Nito Alves conseguisse ter alguma expressão nalguns órgãos, nomeadamente a Rádio Nacional e o Diário de Luanda.
F. P. - Então, o golpe de 27 de Maio de 1977 não foi uma surpresa para si?!
A. M. - O que aconteceu em 27 de Maio não foi de modo algum uma surpresa para mim, quanto à sua essência. Pela minha experiência e vivência no MPLA, via que algo de grave iria acontecer, embora não pudesse prever a forma que tomou o desfecho.
Já há muito que esperava um confronto, sobretudo conhecendo as personagens: a ambição de Nito não tinha limites, Neto não perdoava a disputa do seu poder. Portanto, a tensão dos primeiros meses de 1977 nada mais era que o preparar de um golpe final por cada uma das partes disputando o poder: a facção de Nito Alves e a da direcção do MPLA, presidida por Agostinho Neto.
O aparelho de propaganda do MPLA desencadeara uma contínua e violenta campanha contra os chamados fraccionistas. Fora assim antes da proclamação da independência (último trimestre de 1975),visando alguns membros dos Comité Henda, mas sobretudo os do Comité Amílcar Cabral, transformados depois em OCA. Fora assim no período que antecedeu as prisões de membros da Revolta Activa (Março e Abril de 1976). Agora, desde pelo menos o início de 1977, os editoriais do Jornal de Angola, do Costa Andrade (Ndunduma), e a propaganda da Rádio Nacional de .Angola falavam da necessidade de castigar severamente os candidatos a novos fraccionistas.
Entretanto reunia o Comité Central do MPLA e nomeava uma comissão de inquérito para apuramento das «actividades fraccionistas». Tempos depois, em 21 de Maio, em reunião para análise das conclusões dessa comissão, o Comité Central suspendeu das suas funções os seus membros Nito Alves e José Van Dunem. Parece que muitos pensaram que Nito Alves tinha sido neutralizado politicamente. Mas a verdade é que ele decidiu passar à acção e desencadeou o golpe militar em 27 de Maio de 1977. Não se supunha uma capacidade de acção militar tão grande por parte de Nito Alves, mas a verdade é que ele tinha consigo muitos elementos das FAPLA (o exército) e da DISA (a polícia política).
O golpe fracassou, mas foi sangrento. Foram mortos alguns quadros importantes fiéis à direcção do MPLA, nomeadamente Nzaji, Saydi Mingas, Eurico, Dangereux. Os «nitistas» chegaram a apoderar-se da cadeia de S. Paulo, onde Hélder Neto - comandando as forças da DISA defensoras da cadeia - se suicidou no momento em que entraram. Libertaram quase todos os presos e agruparam para o fuzilamento os membros da Revolta Activa ali detidos, que se salvaram in-extremis. De facto, o pelotão de fuzilamento que se estava a formar debandou ao ouvir o som dos blindados cubanos. Eu só soube disto dias depois, mas, ainda na manhã desse dia, vieram-me contar, em sobressalto, que tinha havido um golpe e que os tanques estavam na rua. Até comentei que se calhar isso era bom. Mas estava profundamente enganado e apercebi-me disso quando vim a saber o que se tinha passado na cadeia de S. Paulo e tive outros pormenores dessa acção.
No entanto, julgo que nada justificava a posterior fúria sanguinária de vingança decretada por Agostinho Neto, no fim da tarde de 27 de Maio de 1977, quando afirmou que não haveria perdão. A repressão foi multirracial: militantes e quadros negros, mestiços e brancos foram fuzilados. Só nos primeiros dias subsequentes ao golpe foram fuziladas mais de dez mil pessoas, no conjunto das várias cidades angolanas...
F.P.- Onde é que foi buscar esses números?
A. M. - Repare, em Malange foram fuziladas logo mais de mil pessoas e no Moxico, no Huambo, no Lobito, em Benguela, no Uíge e em Ndalatando aconteceu exactamente o mesmo. No Bié foram mortas menos, cerca de trezentas pessoas. Em Luanda os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses, incluindo pessoas que foram presas por outras razões. As liquidações físicas começaram por ser ordenadas superiormente e depois muitas delas foram feitas arbitrariamente pelo próprio pessoal da DISA, muitas vezes por meros ajustes de contas.
Foi o caso, entre muitos outros, de um amigo meu, Bogalho, que trabalhou comigo na Angola Combatente, aderiu à RA e depois do Congresso tornou-se chipendista. As cadeias eram sucessivamente cheias e sucessivamente esvaziadas, desaparecendo as pessoas.
No total, calcula-se que foram mortas mais de trinta mil pessoas. Entretanto, também eram criados campos de concentração no Cuanza-Sul e no Moxico e reactivados os do tempo colonial.
F. P. - Essas afirmações são muito graves. Quais são as suas provas?
A. M. - As provas são os relatos dos meus camaradas que estiveram na prisão e viram as pessoas a entrar e a sair, não mais voltando a aparecer. As pessoas da OCA e da Revolta Activa sabem bem que, durante meses, as cadeias se enchiam e se esvaziavam rapidamente. Para além disso, há os relatos de fuzilamentos das pessoas que vieram de Malange e de outras cidades e o próprio Ndozi confidenciou à minha mulher que estava a morrer muita gente. E ainda hoje há uma reivindicação das famílias das pessoas desaparecidas, que exigem que as autoridades apresentem, pelo menos, as certidões de óbito. Só que Angola não é a Argentina nem o Chile... Outra prova é o persistente e pesado silêncio do regime de Luanda e dos cúmplices desta monstruosidade.
Também é triste, nisto tudo ocorrido após o 27 de Maio de 1977, saber-se que alguns intelectuais angolanos colaboraram com o regime nos interrogatórios dos presos!
F. P. - Pode descrever a situação política, social e económica de Angola no período subsequente ao golpe do 27 de Maio de 1977, tal como a apreendeu através dos jornais e das informações que lhe chegavam do exterior?
A. M. - 1977 é um ano de profunda cisão no interior do MPLA, nas famílias apoiantes do movimento e no conjunto da sociedade angolana. Dou-lhe um entre muitos exemplos: na família Mingas, o Saydi foi uma das primeiras vítimas dos «nitistas»; o seu irmão, Zé, que era agente da DISA e «nitista», foi preso e desapareceu depois, levado de noite da cadeia para a morte; a irmã, Amélia, era da Revolta Activa, o seu marido, Jota (membro da RA) fora preso pelo regime e escapara de ser fuzilado na cadeia pelos «nitistas».
O ano de 1977 é também um ano de imenso luto e de profundo temor, sobretudo em Luanda. O MPLA ficou muito desfalcado de quadros porque muita gente instruída - sobretudo jovens - estava com o Nito Alves. Simultaneamente, houve um fortalecimento da atitude repressiva do poder, numa conjugação de acções do partido, dos órgãos de informação, da polícia política e das forças armadas. A DISA e as FAPLA foram objecto duma purga enorme, por via da liquidação física dos «nitistas» — ou suspeitos de o serem! O critério principal era eliminar os indivíduos que mais se distinguiam - os quadros que já estavam mais ou menos identificados com o «nitismo». Mas a repressão foi muito para além disso.
Não havia perdão para todo e qualquer indivíduo que fosse denunciado num interrogatório, desde que pertencesse às FAPLA ou à DISA.
No início de 1978 o país estava finalmente (ou aparentemente) em paz: era a paz dos cemitérios e do medo colectivo! Mas o aparelho económico estava totalmente desorganizado; as carências alimentares e de abastecimento à população eram enormes (havia escassos supermercados só para a nomenclatura, enquanto nos chamados armazéns do povo não havia pão, sal, açúcar, óleo, sabão e outros bens básicos); as populações estavam desiludidas com os frutos da independência a ponto de alguns populares lamentarem a própria independência em declarações feitas em reportagens. Essas declarações feitas a órgãos de comunicação social submetidos a férrea censura do director podem espantar, mas elas apareciam porque eram arma de arremesso de uns dirigentes contra outros, em vésperas de remodelações (esse filme já eu conhecia há muito). Aliás, foi e continua a ser a prática corrente do regime angolano.
Mas voltemos a descrever o que se passava. Havia as maiores carências económicas, os estratos populares sofriam com a falta de tudo, géneros aumentares, cuidados de saúde, água potável, energia eléctrica, etc. Entretanto, continuava a crescer o aparelho de Estado — polícia, exército, funcionalismo das empresas estatais — o que trazia benesses a numerosas famílias. Isto significa que o aparelho de Estado começava a ser fonte de privilegiado sustento de numerosos responsáveis. As diferenciações sociais manifestavam-se cada vez mais e de várias maneiras, desde moradias a carros atribuídos a responsáveis políticos ou do Estado, em proporção com a hierarquia dos cargos. Tal prática consubstanciava-se assim em comentários populares: «O professor pede ao aluno para conjugar o verbo devolver. O aluno conjuga: eu de Volvo, tu de Lada, eles a pé!». Casos de corrupção começavam já a ser notórios. A situação interna era, portanto, muito difícil para o regime do MPLA. (...)

de: Adolfo Maria