BEM-VINDOS A ESTE ESPAÇO

Bem-Vindos a este espaço onde a temática é variada, onde a imaginação borbulha entre o escárnio e mal dizer e o politicamente correcto. Uma verdadeira sopa de letras de A a Z num país sem futuro, pobre, paupérrimo, ... de ideias, de políticas, de educação, valores e de princípios. Um país cada vez mais adiado, um país "socretino" que tem o seu centro geodésico no ministério da educação, no cimo do qual, temos um marco trignométrico que confundindo as coordenadas geodésicas de Portugal, pensa-se o centro do mundo e a salvação da pátria.
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quarta-feira, 31 de março de 2010

A GRANDE FAMÍLIA DO MPLA

A lista está incompleta. No entanto, já serve para um estudo interessante. Alguém quer trabalhar sobre isto?

O ministro das Obras Públicas é sobrinho do Roberto de Almeida e há um vice dele, que também é cunhado do José Eduardo. Dizem que estão na calha mais doze familiares da D. Ana para entrarem nos conselhos de administrações das empresas públicas. Viva a democracia!

A GRANDE FAMÍLIA MPLA

O Ministro das Finanças, Carlos Alberto Lopes é marido de uma irmã da primeira dama, Ana Paula dos Santos. Já o Ministro da Defesa Nacional, Cândido Pereira dos Santos Van-Dúnem é primo do PR.
Um outro elemento próximo à família presidencial é o Vice-Ministro do Ordenamento do Território, Manuel Francisco da Silva Clemente Jr que está casado com uma sobrinha de JES que é filha de Marta dos Santos. Clemente Jr esteve antes a trabalhar no Gabinete de Obras especiais com o general Kopelipa.
No gabinete de JES acaba de ser nomeada uma Secretária para os Assuntos Sociais, Rosa Escórcio Pacavira de Matos que é apresentada como sobrinha do marido de Marta dos Santos, irmã de JES.
O tio de Rosa Pacavira Matos é no meio da família presidencial tratado por “Ti Pacas”.

O Vice-Presidente do MPLA, Roberto de Almeida, também não fica atrás. Tem no governo, um sobrinho, Adão Correia de Almeida colocado como Vice-Ministro para os Assuntos Institucionais e Eleitorais.
O Ex-Secretario Geral dos “Camaradas” e vice presidente da Assembléia Nacional, João Lourenço tem a sua esposa, Ana Afonso Dias Lourenço como Ministra do Planeamento.
O Membro do Bureau Político do MPLA, general Antonio “Ndalu” esta familiarmente conotado no governo com Maria de Fátima Monteiro Jardim que é irmã da sua esposa.
Outro general influente do regime com parentes no executivo é o Ministro de Estado, Manuel Vieira Dias “Kopelipa”, que está familiarmente ligado ao Ministro da Saúde, José Vieira Dias Van-Dúnem ao procurador da republica Joao Maria e que tem como seus cunhados Kundy Pahama ministro dos antigos combatentes e o secretário para os Assuntos Locais do Presidente da República, André Rodrigues Mingas Júnior.
Nito Teixeira, o director do Gabinete de JES na sede do MPLA tem, no governo, a sua esposa a exercer o cargo de Ministra do Ensino Superior e Ciência e Tecnologia, a acadêmica Maria de Cândida Pereira Teixeira.
Esta por sua vez é irmã gêmea da governadora da Lunda sul, Cândida Narciso cujo marido é o administrador municipal do Cazenga, Tany Narciso.

O recém nomeado Director de Gabinete de Quadros dos presidência, Aldemiro Vaz da Conceição é irmão do deputado do MPLA, Gustavo da Conceição. Ambos tem um outro irmão, o adido de defesa na embaixada angolana em Portugal, Fernando Vaz da Conceição "Mussolo".
Ainda no gabinete presidencial, o recém nomeado Secretário para os Assuntos Diplomáticos e de Cooperação do Presidente da República, Carlos Alberto Fonseca é irmão do embaixador angolano na Singapura, Flávio Fonseca.
 Agostinho Fernandes Nelumba, o Vice-Ministro da defesa para a Administração e Finanças, é irmão do membro do comitê central, José Nelumba, que é marido de Carolina Cerqueira, a nova “patroa” da comunicação social.
Ambos Agostinho e José são irmãos do ex-PCA, da ENE, Eduardo Nelumba que também faz parte do CC. Estão ligados à vice-presidente da FESA, Maria Nelumba (Esposa de Eduardo Nelumba, a mesma é igualmente alta funcionaria do Ministério das pescas).

Archer de Sousa Mangueira, o vice ministro do Comércio, é familiar do embaixador angolano no Dubai Rui Mangueira e do antigo director executivo do COCAN 2010, Antonio Mangueira.
Outro vice Ministro com familiar no partido no poder é o das relações exterior para a Administração e Finanças. O mesmo é primo da deputada do MPLA, Ângela Bragança.
O vice dos petróleos para a Administração, José Gualter dos Remédios Inocêncio é irmão paterno de Aldina da Lomba, a Secretaria provincial da Reinserção social em Cabinda e igualmente membro do Comitê Central do MPLA.
Por sua vez, há dois “manos”, a integrarem o governo, o Vice-Ministro das Tecnologias de Informação, Pedro Sebastião Teta e o Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia, João Sebastião Teta.
Tchizé dos Santos, ex-deputada e boss do Canal 2 da TPA e da Semba Produções, é filha do Presidente da República, tal como Zedu dos Santos da direcção do Canal 2.
Isabel dos Santos, meia irmã dos dois e primogénita do Presidente, tida como possuidora de uma fortuna colossal, investiu pesado em Portugal tendo dado origem a um artigo publicado num jornal português com o título " A mulher mais rica de Portugal é angolana"...



domingo, 13 de dezembro de 2009

MARCOLINO MOCO ... PARTE A LOIÇA TODA

Leia, na íntegra, a carta que o ex-secretário-geral do MPLA e primeiro-ministro de Angola escreveu a Mateus Julião Paulo "Dino Matross"
Se em 1956 Viriato da Cruz se isolou, durante uma semana, num quarto do hotel Magestic ao São Paulo, em Luanda, e sentou-se diante de uma máquina de escrever para redigir o Manifesto do MPLA, hoje, passados 53 anos, Marcolino Moco escreveu num computador, a partir do bairro Azul (capital do País), outro (manifesto) que se opõe ao medo e à ditadura do silêncio que diz reinar em Angola.


Por Jorge Eurico

O antigo secretário-geral do MPLA e ex-Primeiro-Ministro de Angola foi, no passado dia 24 de Novembro, à Assembleia Nacional (AN) ao encontro do actual secretário-geral do partido no poder.
Marcolino Moco respondia, assim, a uma inopinada chamada de Mateus Julião Paulo "Dino Matross" que - segundo Faustino Muteka, portador do recado ao primeiro - tinha como escopo trocar ideias.
A reunião entre os dois não foi tão bacana (permitam-nos o brasileirismo!) como era de esperar. Prova disso é que dias depois Marcolino Moco mandou um pequeno memorando sobre o sobredito encontro ao "camarada Dino Matross".
O actual responsável da Faculdade de Direito da Universidade Lusíada diz, entre outras coisas, na referida epístola, esperar nunca mais ser perturbado quando falar nas suas vestes de cidadão e estudioso de Direito.

Marcolino Moco alerta que o MPLA está a ser arrastado à situação de ser o mais retrógado dos então chamados partidos progressistas de África e aproveita o embalo para declinar o convite que " o camarada diz ter pedido para mim, ao presidente do partido (José Eduardo dos Santos), para ser convidado ao VI Congresso do MPLA (sic!)".
Moco diz não aceitar a perspectiva chantagista, condicionante e ameaçadora que "Dino Matross" deixou transparecer do tipo: " se não for, então que não se arrependa" ou "então será abandonado (sic!)". Eis, já a seguir, ipis verbis as palavras de um homem que se diz preparado, desde a "Queda do Muro de Berlim", espiritual e psicologicamente para não viver às custas de lugares em partidos políticos.

“Caro Camarada Dino Matross


Após consulta à minha família nuclear e alargada, que me deu todo o apoio, e até me surpreendeu, ao declarar que eu nem devia ter ido ter consigo, mando-lhe este pequeno memorando do nosso encontro do dia 24 de Novembro, na Assembleia Nacional.


Na verdade, como deve ter sabido, a minha primeira decisão era não ter ido ter consigo, pela forma como fui abordado, como se eu fosse um desocupado, à chamada de um senhor misericordioso; e também não iria ao seu encontro por desconfiar que me iria dar lições atávicas, sobre as minhas opiniões, como cidadão e académico, em relação ao momento constituinte, que tem suscitado uma grande audiência em Luanda e no exterior, já que vocês, sem nenhum pejo, barraram todo o contraditório em relação ao interior do país, simulando uma grande generosidade em fazer participar o país na elaboração de uma constituição que vocês já sabem qual será.


Só que com o seu cinismo, conseguiu que o camarada Faustino (Muteka) me convencesse que seria uma conversa entre camaradas que iriam trocar ideias, neste momento importante.
Aquilo foi mais degradante, não sei quantas vezes, do que o meu encontro com os camaradas João Lourenço, Paulo Jorge e Nvunda, em 2001, quando eu opinava publicamente sobre a urgência da paz. Devo reconhecer hoje, ter sido injusto com eles porque, foram certamente pessoas como o camarada Matross que os empurraram para aquele cenário, que até não foi tão triste assim, até porque bastante cordial.


Vocês não conseguem nem ter sentido de humor e um mínimo de informalismo, como a camarada Joana Lina, que quase não aceitou os meus cumprimentos, toda ela feita deusa de uma religião que eu não professo.


Pela forma arrogante como me falou não vou mais insistir nas opiniões que tentei trocar consigo, porque vi que o senhor não estava interessado em dialogar, mas apenas em tentar impor-me ideias que - diga-se, mais do que imaginava, horrorosamente atávicas.


No entanto, quero que fique bem claro que, para mim, as conclusões daquele encontro são as seguintes:


1-Reitero, por minha livre vontade, que continuo ligado sentimentalmente ao MPLA (talvez deixe de fazer essa referência pública, e deixe de referir que vocês são meus amigos, se isso tanto vos perturba) conservando o meu respeito ao Presidente do Partido, mas sem temor (como temer um combatente na luta contra o medo colonial e não só!?). O que penso, a partir do nosso último encontro (pode ser que esteja enganado!), é que são vocês que o apoquentam com a ideia de que qualquer referência a ele, desde que seja crítica (mesmo quando positiva) é falta de respeito, é “falar mal do Chefe”, etc., etc., etc..


2- Fica claro que como docente, conferencista e cidadão, ninguém, mas absolutamente ninguém, me obrigará a distorcer as minhas convicções científicas, a favor de ideias de um partido qualquer, por mais maioritário que seja e por mais da minha cor que seja. É aí que vocês inventam que eu falo mal do Presidente do Partido, quando as referências são feitas a um cidadão que é Chefe de Estado e especialmente na sua qualidade de Chefe de Governo, num momento importante, em que todos nós temos o dever cívico de contribuir sem medo. Para mim o tempo da vovó Xica de Valdemar Bastos: “não fala política”, já lá vai há muito tempo. Paradoxalmente, o camarada Dino Matross, foi um dos grandes obreiros desta gesta. É pena! Era para nos tirarem o medo dos estrangeiros e nos trazerem o vosso medo?! Eu recuso-me a tremer perante qualquer tipo de novos medos.


3-Aquelas referências que fez, de forma tão sobranceira e até ameaçadora, sobre o camarada Chipenda (por quem, da lista, nutro um grande respeito), do Paulino Pinto João (degradante!) e de Jonas Savimbi (se não andasse distraído saberia que eu nunca entendi bem das suas razões) foi das coisas mais inacreditáveis na minha vida. O camarada Matross a deixar transparecer que me presto a mendigar os vossos favores ou que tenho medo de perder a vossa protecção? Ainda não se apercebeu que não?!


Neste ponto, saiba que a minha família e amigos, sobretudo os que vivem no Huambo e um pouco por todo o país, reiteraram-me o seu total e pleno apoio, no sentido de que nem que eu venha a comer raízes e ervas (que até são mais saudáveis que as comidas importadas) não irei pedir esmolas a ninguém, o que não significa dispensar os meus direitos e garantias perante as instituições competentes do Estado.


4-Declino o convite que o camarada diz ter pedido para mim, ao Presidente do Partido, para ser convidado ao VI Congresso do MPLA. Não aceito a perspectiva chantagista, condicionante e ameaçadora que deixou transparecer do tipo: “se não for então que não se arrependa” ou “então será abandonado”.


Como costumo dizer, desde a “Queda do Muro de Berlim”, em 1989, que estou preparado, sobretudo espiritual e psicologicamente, para não viver a custa de lugares em qualquer partido. E a mensagem que passo sempre aos meus alunos _ e tenho moral para isso _ é esta: “preparem-se como bons profissionais, para a vida; podem aderir a partidos ou assumir cargos políticos, mas não dependam deles em nenhum sentido, porque podem ser enxovalhados, em alguma altura”.


5-Espero nunca mais ser perturbado quando falar, nas minhas vestes de cidadão e estudioso do Direito. Se a questão é alguma comunicação social, que ainda não se vergou às vossas pressões, andar a divulgar as minhas ideias, o problema não é meu. Mandem fechar tudo o que não fale a vosso favor e deixem-me em paz.


6- Olhem à volta e vejam como arrastam o MPLA à situação de ser o mais retrógrado dos então chamados partidos progressistas de África! Incapazes de perdoar, do fundo do coração (já nem falo da UNITA e dos chamados “ fraccionistas”) até os próprios fundadores do nosso glorioso Partido, como os irmãos e primos Pinto de Andrade; e um Viriato da Cruz, de cujo punho brotaram estrofes esplendorosas, para uma África chorosa mas em “busca da liberdade”, usando palavras de outro vate da liberdade; o Viriato da pena leve e elegante que riscou o próprio “Manifesto”, donde nasceria uma das mais notáveis siglas da humanidade; sigla que vocês vão, hoje, transmitindo às novas gerações, como o símbolo do culto e da correria atrás de enxurradas de dinheiro e de honrarias balofas!


Triste espectáculo que fingem não ver!


Com certeza, já mandaram chamar o nosso “mais novo”, o deputado Adelino de Almeida para nunca mais escrever, como escreveu aquele artigo tétrico, no “Semanário Angolense”, após o desaparecimento do malogrado, talentoso e insigne tribuno, também nosso “mais novo” o ex-deputado André Passy. Dos textos dilacerantemente irónicos do ex-deputado Januário, mas exprimindo com arte as misérias (sobretudo do foro espiritual) que estão a ser criadas neste país, provavelmente nem se importam de reparar: pois, para além de ser já um “ex” é um “mijão de calças”, mesmo aos quase 50 anos, como o camarada Matross gosta de taxar “carinhosamente” todos os jovens que despontam com ideias diferentes das vossas. Por maioria de razão, o mesmo destino (cesto de papéis!) deram, certamente, àquele pujante libelo acusatório de um jovem, a sair dos vinte anos, que me fez chorar (das poucas vezes que chorei, em vida!) onde a vossa e minha geração são postas diante de uma realidade, nua e crua, do amordaçar de sonhos e liberdades que vocês nos anunciaram a todos, mas que ele e os da sua geração só os encontram nos livros de história e no canto esperançoso dos poetas (falo do jovem Divaldo Martins, que também escreveu no “Semanário Angolense”!).


7- E sobre todas estas coisas, não mais falarei com o camarada Dr. Dino Matross. Estou indisponível. A não ser em debate público.


Política, na verdade, diversamente do que vocês querem impor, contrariando (mesmo neste tempo de democracia pluralista), o grande Agostinho Neto, que disse não dever ser um assunto de “meia dúzia de políticos”, terá que ser, e será, inexoravelmente, uma questão fora do esoterismo a que vocês a querem submeter, em Angola.
Estou cansado das vossas chantagens e humilhações. Por enquanto, é este o meu manifesto contra o medo e contra uma ditadura do silêncio que não aceito.


Obs.: Como vocês gostam de distorcer as coisas, guardo cópia deste documento que será distribuído a meus familiares e amigos e, quem sabe, chegará aos militantes de corações abertos, que ainda não os fecharam, ante a vossa inigualável capacidade de manipulação! Quem sabe a todo o país e ao mundo, que para vós não passa dos arredores da Mutamba e da marginal da baía de Luanda?!


Sem mais


Luanda, aos 29 de Novembro de 2009


Marcolino Moco (Militante livre do MPLA)"

domingo, 8 de novembro de 2009

RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE (1)

1.- Introdução

O rio Queve pertence às bacias costeiras do Centro-Oeste de Angola. A sua mais longa nascente situa-se próximo de Boas Águas/Vila Nova- onde passa a ferrovia de Benguela- a 45 km a Este da cidade de Huambo. O rio tem um estirão de 505 km a que corresponde uma bacia hidrográfica de 23 870 km2 . Desagua ao sul de Porto Amboim. Desenvolve-se segundo dois eixos o primeiro no sentido NW com 340 km e o segundo no sentido W com 165 km. A bacia ocupa cerca de 1,5% do território de Angola (1 246 700 km2 ).



Fig 1 Bacia hidrográfica do rio Queve no total angolano. É uma bacia costeira, central. Ocupa cerca de 1,5% da área de Angola. Na relatividade continental é um rio pequeno; no contexto angolano é uma bacia média. Em termos de recursos naturais é uma bacia rica, onde os chamados produtos tropicais encontram boas condições climáticas e edáficas. Possui um formidável potencial hidroelectrico. O turismo poderá ser uma fonte de riqueza, a par com a agricultura,pecuária e floresta exótica.A abundância de energia potencial (hidroeletricidade) poderá atrair indústrias. O Amboim,no terço final, cujo centro de gravidade é a Gabela, é uma região lindíssima. Marcelo Caetano,primeiro ministro de Portugal em 1969, quando por ali passou em 1945, como Ministro das Colónias, escreveu:«O Amboim é o Buçaco decuplicado».

2.- História
O Queve ou Cuvo foi cartografado no século 16 e foi sempre um rio de referência em relatórios muito antigos.
António de Oliveira Cadornega escreveu no século 17 três alentados volumes, cuidadosamente anotados em 1940 por José Matias Delgado e Dr.Alves da Cunha: História Geral das Guerras Angolanas, cada volume contendo em torno de 600 páginas. A ultima edição em 3 volumes foi editada em 1972 pela antiga Agência Geral do Ultramar. Trata-se de uma obra literária valiosa que aborda a história de Angola em tempos recuados (século 17). Pode dizer-se que, historicamente, é a maior obra de referência, pese embora alguns exageros e estar escrita sob a otica dos portugueses de então. Mas é,indiscutivelmente, uma obra de grande importância, até mesmo em termos do continente africano.


Cadornega chegou a Angola em outubro de 1639, tendo enveredado pela carreira militar onde atingiu em 1649 o posto de capitão que lhe foi conferido pelo governador Salvador Correia de Sá. Viveu 28 anos em Massangano, tendo chegado a juiz ordinário em 1660. Morreu em Luanda em 1690. Pode dizer-se que Cadornega é o primeiro historiador da História Escrita de Angola. E é, também, um dos primeiros colonos que se estabeleceu definitivamente em Angola, terra onde “deixou os ossos”.
Na obra citada há muitas referências sobre os vários rios de Angola. Sobre o rio Queve escreveu Cadornega:«O que dizião os antigos conquistadores, que alguns negros antigos dos quilombos dos Jagas que vierão da terra dentro, dizião que de huma lagoa que estava no íntimo deste sertão sahião dela quatro rios caudalozos, que hum deles era este rio Coamza, que descrevemos, outro o rio Cuneni, que fazia sua demora atravessando no reino de Benguella as provincias dos Quimbundos e o Hila, desagoando com suas caudalozas agoas na costa daquele reino; mas não dizião em que parte se metia no mar; o outro era o rio Cubo tambem caudalozo, que pára com sua corrente em o mar, em terras do Mani-Quicombo passando pella província dos Sembis; e o quarto era o famozo e caudalozo rio Coango, que este apelido lhe dá a gentilidade pella terra dentro, e onde desagoa suas numerosas agoas no mar em o Porto do Pinda, vindo fazendo o curso de suas correntes com espaçoza largura pellas costas do Quilombo do Jaga Casangi, pelo quilombo da rainha Ginga e reino de Matamba».


Em outra referência Cadornega diz:«...onde pára com suas correntes o rio Cubo e suas numerozas lagoas, pagando com elas seu tributo ao mar...» «...e pasando o rio Cubo da banda dalem do sertão, está o nosso reino de Benguella com sua cidade São Phellipe beira mar, sita em a provincia chamada dos Quimbundos, com a qual confina a dos Sumbis, e pello sertão dentro com a provincia do Gemge, toda povoada de quilombos de jagas, outros lhe chamão os Quillengas».
E mais adiante:«...e por diante Benguella a Velha, que em hum e outro porto se faz negócio de peças e marfim: aqui entre dous senhorios pára a corrente das suas doces e abundozas agoas o rio Cubo, misturando a sua doçura com o salgado, sendo isto na provincia dos Sumbis, hindo correndo o do Libolo, até onde desagoa no mar o rio Longa, que nesta paragem tributa agoas ao mar desta costa, e pára com as suas arrebatadas correntes; e tambem se diz tem seu nascimento na lagoa ou brejo, de que diz algum do gentio sahe o Zairi, Coamza e Cuneni, e algumas pessoas que discursarão esta materia tem para si serem braços do Nilo;»
No governo do Marquês de Pombal governou a colónia Inocêncio de Sousa Coutinho de 1764 a 1772 . Ele procedeu a um reconhecimento cartográfico de Benguela até Cabo Negro hoje pertencendo à Namíbia. Naquele relatório o rio Queve é mencionado várias vezes:«O rio Cuvo, que faço dividir os dois governos,corre junto a Benguela-a-Velha, e logo vizinhas a este estão umas minas de cobre excelente,que os negros não deixam ver, mas que ao passo de se marchar na sobredita comunicação deve o oficial que comandar a marcha examinar cuidadosamente, e o fará sem algum risco...».


No século 18 os maiores objectivos de Portugal em Angola eram o completo levantamento cartográfico da linha litoral, e posterior edificação de fortalezas na costa, em locais abrigados, e a procura exaustiva de metais preciosos. Corria a lenda de que em Cambambe havia prata em grande quantidade.Novo Redondo (actual Sumbe) despertava a curiosidade e a cobiça dos europeus. De facto foi explorado um cobre vermelho, no rio Quicombo, de valor próximo do ouro. Como era previsível esgotou-se em pouco tempo.
Fundamentalmente o que mais interessava era descobrir um bom local para salvaguarda da navegação marítima. Já vimos, em anteriores ensaios, que a costa de Angola é lisa, com pequenas baías nas restingas originadas pelos rios costeiros que se precipitam dos planaltos.
Logo nos primeiros reconhecimentos se verificou que o rio Queve não “dava entrada” mesmo para barcos de muito pequeno calado. Nem sequer para canôas. A 40 km da sua foz destacam-se, imponentes e vigorosas ameaçando qualquer embarcação, as Cachoeiras do Binga com mais de 15 m de altura e muito caudalosas. Morriam ali as esperanças da Corôa Portuguesa em querer demandar o interior onde constava que havia inúmeras minas de prata.
Como já enfatizámos era, em termos práticos, quase impossível “subir” para os planaltos.A evidente inadaptabilidade de animais de tiro ou carga (cavalos, burros e bois) tornava impossível a ocupação do interior de Angola. Tudo agravado com o maior inimigo dos portugueses: o clima mortífero carregado de doenças desconhecidas a maior parte.


Se até 1885 prevaleciam aqueles objectivos- baías de bom abrigo e minas de metais- a partir daquele ano passou a ser prioritária a ocupação efectiva do interior. Cumprir o estabelecido na Conferência de Berlim em 1885 era o objectivo principal: instituir-se rapidamente a autoridade portuguesa nos novos territórios delineados em Berlim.
Era com sofreguidão que se procuravam rios “calmos”onde se pudesse navegar com uma certa segurança. Em 1885 já o rei da Bélgica Leopoldo II se tinha apoderado do Congo Belga (actual República Democrática do Congo) porque neste país os rios, enormes e caudalosos, são “mansos” (com muito pouca inclinação) dando aso a uma navegação fluvial com relativa facilidade. Isto permitiu uma fácil ocupação militar através de pequenas canhoneiras adaptadas para os rios africanos. Estas canhoneiras possuiam, à frente e à ré, dois pequenos canhões que provocavam o pânico entre os aguerridos africanos quando estes faziam cargas tumultuadas sobre as pequenas e móveis fortalezas fluviais.
Desde Cadornega (1680) até fins do século 19 pouco ou nada se alterou sobre o conhecimento do rio Queve. Em 1890, na sequência da Conferência de Berlim(1885), os reconhecimentos do interior de Angola passaram a ser primordiais para a Corôa Portuguesa com o objectivo de se efectuar uma “Ocupação Efectiva” como estabeleciam os artigos da Carta final da referida Conferência.


Em 1898 Alfredo Filipe de Andrade regente agrícola (engenheiro-técnico agrário hoje) recebeu a incumbência de efectuar um reconhecimento exaustivo do rio, procurando localizar trechos que fossem navegáveis, mesmo sem inter-ligação. Este engenheiro residia em Belmonte (depois Silva Porto,actual Cuito) um povoado bisonho no centro de Angola a caminho de se tornar sede de distrito e depois cidade em 1935.
Alfredo de Andrade deixou um relatório acompanhado de um mapa desenhado por ele. Apesar dos fracos recursos de que dispunha, os dados por ele colhidos aproximam-se muito da realidade. Fez o percurso todo a pé recorrendo, algumas vezes quando se encontava doente, a um boi de montada. Cavalgar um boi de montada era de um incómodo atroz. Os europeus só o faziam em último recurso, quando já estavam muito debilitados pelos febrões do paludismo ou diarreias provocadas por alimentos deteriorados ou águas estagnadas. Quando não havia bois, porque morriam sistematicamente, o recurso era a muito criticada tipoia. A tipoia salvou muitos europeus e nem tudo se cercou de violências: muitos africanos carregavam os europeus doentes por solidariedade.

RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE (2)

Alfredo de Andrade assinalou o afluente Cuito (não confundir com o outro Cuito que deu o nome à antiga cidade de Silva Porto, nem com o Grande Cuito mais ao sul, afluente do rio Cubango) destacando o seu grande caudal. Trata-se de um rio, na margem esquerda do Queve, que recebe as águas da vertente oriental da serra do Moco (2620 m) a maior altitude de Angola e que passa ao lado da vila de Quipeio. Em um trecho deste rio destaca-se a célebre Ilha dos Amores, um ponto turístico para pic-nics.
Alfredo de Andrade destacou vários fazendeiros europeus que se dedicavam à fabricação de aguardente. Esta era a maior fonte de receitas para os europeus que se aventuravam para o interior. Seria de pouca duração esta fonte de lucros. Em 1919 em Saint Germain-en-Laye foi revisto o regime sobre bebidas alcoólicas em África e foi estabelecido um protocolo proibindo o seu fabrico, excepto para a África do Sul, Argélia (onde havia milhares de franceses vivendo da vinha) e a Líbia(onde havia colonos italianos). Era o fim das destilarias em Angola, único suporte económico dos europeus A comissão, reunida em Saint Germain-en-Laye, que proibiu o fabrico de aguardente em África, foi uma ancestral das comissões que se lhe seguiram em Bruxelas, a capital da União Europeia. Parece que ali, desde sempre, gostam de proibir... e de legislar até leis qua vão contra o bom senso. Exemplo actual: a célebre lei que estabelecia o tamanho da fruta, sabendo-se que a fruta “torta” e pequena nunca “apanhou” insecticidas nem pesticidas e que é uma fonte de receita dos pequenos agricultores.



Fig 2 Mapa do levantamento topográfico efectuado por Alfredo de Andrade em 1899. Foi a primeira cartografia da bacia do rio Queve. Todo o percurso foi feito a pé, já frisámos em artigos anteriores que em Angola não havia cavalos ou burros devido a doenças mortais e fulminantes. Apesar dos pouquíssimos recursos disponíveis,em transportes e comida, e das doenças, com a sempre omnipresente malária, este mapa aproxima-se bastante da realidade. A carta aerofotogramétrica 1/100 000 (484 folhas), inteiramente executada por angolanos a partir de 1950, completou com rigor este exaustivo e primitivo trabalho topográfico.

Gente humanitária a daquele tempo, preocupada com os estragos do alcoól nos africanos. Apenas um pormenor: a lei garantiu o consumo das zurrapas que se fabricavam um pouco por toda a Europa. E Angola passou a receber os vinhos e aguardentes da Metrópole, apelidados, jocosamente, de “vinhos para pretos”. Era o fim do desafogo financeiro de muitos e pequenos fazendeiros angolanos. A partir desta proibição não mais se enriqueceu em Angola. As grandes fazendas pertenciam a oligarquias metropolitanas. Estas, sim, enriqueciam graças aos monopólios dos quais se destacava, sempre, a mão de obra barata. Os salários foram , até 1961, escandalosamente baixos, denunciando um mercantilismo ultrapassado. Estes salários nunca propiciaram riqueza para os residentes em Angola
Sobre estes magros salários Marcelo Caetano opinou do alto da sua sabedoria: «A experiência demonstra que os salários muito altos dos produtos da lavra indígena podem ter consequências desastrosas para a população nativa».Teria muito gosto que alguém me explicasse quais são as consequências desastrosas de um salário “muito alto”. Coitados dos gestores actuais! Preparem-se para as “consequência desastrosas”!
O fabrico de aguardente era um suporte económico para a grande maioria dos europeus residentes em Angola, ou usando o economês, era a “holding” dos colonos. A maior parte das fortunas de Angola, daquela época, fundava-se no fabrico de aguardente. Um hectare de cana dava cerca de 450 litros de alcool. A aguardente e a pólvora eram as melhores moedas de troca com os géneros que os angolanos produziam (marfim, borracha e cera) ou já estavam começando a produzir: milho, feijão, e rícino principalmente. Os africanos não aceitavam moeda como troca, vigorava o sistema de permuta.
Alfredo de Andrade passou por onde seria implantado, em 1949 o colonato da Cela. Assinalou: «A Sella é uma grande região, muito rica, muito extensa e muito interessante». Confirma-se, assim, que o nome Cela não é de origem portuguesa, não havia necessidade de lhe mudar o nome para Waku-Kungo no tsunami iconoclasta que varreu Angola aquando da independência.


Já um tanto desanimado, em virtude da forte inclinação do rio, às vezes espumando em quedas e cachoeiras, escreveu:«Se se destruir um obstáculo na ilha Massango o rio Queve é navegável numa extensão de 100 km para barcos aos quais basta a altura média de água de 3 m mas de pouco comprimento por causa das curvas muito fechadas que por vezes o rio tem». Em resumo: muito pouco se aproveitava para navegação fluvial. Apenas 100 km saindo do zero para chegar ao nada. Portugal teria que ocupar o território de Angola a pé uma vez que, como já assinalámos em escritos anteriores, as doenças inviabilizavam a utilização de cavalos, burros ou até bois. Seis anos depois deste reconhecimento começou a construção da ferrovia de Benguela (1349 km) que atravessou Angola em sentido transversal. As ferrovias, de certo modo, atenuaram “a má vontade” dos rios angolanos. As cidades desenvolveram-se, primordialmente, ao longo das ferrovias e das estradas, mas estas só a partir de 1920 sem pavimentos duros até 1961.
Alfredo de Andrade assinalou: «De Sanga para oeste o rio Queve muda de nome para Cuvo e termina na catarata Paula Cid (a ultima)». Trata-se das Cachoeiras do Binga ultima ruptura de declive do rio Queve, a 40 km da foz. Sobre esta escreveu:«...porém, parece que a sua barra é, como as do Quanza, Cunene, Catumbela, e outros, obstruída pela areias arrastadas nas águas do rio e repelidas pela calemas, ali tão vulgares». Na verdade, a foz de todos os rios costeiros em Angola apresenta muita areia quartzosa proveniente dos granitos dos planaltos. Trata-se de uma riqueza que não pode ser desbaratada à tôa. Esta areia é uma preciosa matéria prima para a fabricação de vidros e material electrónico, além da sua evidente utilidade no fabrico de betão de alta resistência. Actualmente a areia já é um bem valioso, os milhões de edificíos e barragens promoveram-na a um melhor patamar. Há países que já têm falta de areias, importam-nas de outros países.


Do estudo feito em 1898 por Alfredo de Andrade consta um mapa de reconhecimento, por ele elaborado, de bom teor técnico, se atendermos aos parcos recursos daquele tempo.
Em fins da década de 50 o governador geral de Angola capitão José Agapito da Silva Carvalho recebeu a incumbência de implantar um colonato, só de europeus, na bacia do rio Queve, mais propriamente na Sella. O colonato foi batizado, obviamente, de Cela.
O novo colonato, mais um a somar ao rosário de fracassos com que Angola se enfeitava, seria uma cópia fiel do teor de vida metropolitano, sendo proibido o recurso à mão de obra africana. Julgava-se, assim, que se calariam as vozes internacionais que acusavam Portugal de utilizar um regime de trabalho compelido entre os africanos-o célebre contrato- já aqui abordado, exaustivamente, em nossos anteriores escritos. Salazar viu o tremendo erro que cometeu ao obstaculizar o desenvolvimento de Angola (duas décadas de torpor de 1930 a 1950) e tentou disfarçar, através de uma ocupação de europeus tardia e diminuta, uma presença europeia que lhe facultasse direitos internacionais ou que disfarçasse o pequeno número de colonos .


O geógrafo Orlando Ribeiro escreveu (182): «O colonato da Cela, o primeiro que se empreendeu, começou em 1950 e deve-se a um governador ignaro e à credulidade de Salazar perante os que o adulavam. Um passeio de avião nesta convergência de rampas rodeadas de montes-ilhas, e por isso pantanosas no centro, e coberta de capim verdejante, levou o governador a considerar a área ubérrima (termo que várias vezes ouvi aplicado por administrativos a solos de aptidão agrícola duvidosa). O projecto inicial era de fundar quarenta aldeias com um total de dez mil habitantes, as expropriações foram poucas, pois a natureza pantanosa do fundo da bacia limitava as áreas de cultura e de povoamento indígena. O colonato ficou sempre muito àquem dos seus ambiciosos propósitos: na melhor das hipóteses ele fixaria apenas 1% da população que sobra no nosso campo».

RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE (3)

Tudo foi modificado a partir de 1961: em vez de casais agrícolas, com 5 ha de terras, passou a haver fazendas médias, de criação de gado, tractores em vez dos idílicos carros de bois, regadio, e mão de obra africana paga de acordo com as tabelas oficiais. Esta modificação foi feliz pois a adaptação de gado leiteiro foi um sucesso, de tal maneira que em 1973 Angola passou de importador a exportador de lacticínios. Diga-se, de passagem, que este sucesso se ficou devendo, também, a vários vectores: estradas asfaltadas, um grande mercado consumidor (Luanda), maior poder de compra das populações, um competente apoio pecuário através da recem criada faculdade de medicina veterinária em Nova Lisboa e da faculdade de agronomia. A concepção inicial da Cela, dirigida com mão de ferrro pelo governador geral Silva Carvalho, falhou estrondosamente, embora tenha recebido muitos avisos por parte dos colonos. A falta de estradas asfaltadas e o baixo poder de compra foram as principais lacunas que inviabilizaram a Cela tal como tinha sido idealizada pelos estrategas de Salazar. As produções apodreciam nos lamaçais em que se convertiam as pseudo-estradas no tempo das chuvas.
Na Cela, e na Matala mais ao sul, consumiram-se milhões de contos, mais de metade das verbas dos Planos de Fomento, na implantação de colonatos “que faziam lembrar os campos da Metrópole”. O retorno destes investimentos foi praticamente nulo. No Tempo Extra a Cela já era cidade, até já tinha liceu (12º ano de escolaridade). Mas com quanto dinheiro, com quanta protecção (escandalosa) oficial? E se este dinheiro tivesse sido gasto com os três EE´s (ensino,estradas asfaltadas e eletricidade?
A colonização da Cela tornou-se uma obsessão para o governador Silva Carvalho. O Bié, principal alfobre da mão de obra compelida, ficou completamente abandonado durante o seu governadorado. O Bié não tinha um metro de asfalto, não tinha telefones, só a sede do distrito é que tinha energia electrica, mas muito deficiente, não tinha raio X no hospital (que funcionava precariamente na Mansão dos Colonos), não tinha ensino secundário gratuito (e portanto fechado para os africanos), nenhuma obra oficial, nenhum estudo, nenhum projecto, nada.
Em meados da década de 50 uma firma americana fez um estudo sobre a Cela, em especial sobre uma regularização dos caudais do rio Queve e o enxugo da Baixa do Cussoi. Este rio, durante as cheias, transbordava para as áreas contíguas onde estavam instalados colonos. Aquela firma preconizou uma barragem de terra no sítio Massango, com acumulação de 600 milhões de m3 de água. Um outro inconveniente no colonato da Cela, este de ordem sanitária, foi a existência de bilharzíose (esquistossomose no Brasil) em alguns rios da região, com especial incidência no rio Cussoi.
Em 1963 um grupo de engenheiros angolanos que constituiam a Brigada de Engenharia da Junta Provincial de Povoamento, começou, finalmente, o estudo da bacia do rio Queve. Como prioridade a instalação de estações e postos hidrométricos com vistas a obterem-se os caudais ao longo do tempo. Fizeram uma obra notável. Foi possível, finalmente, conhecer o rio Queve e os seus potenciais apoiando-se na carta aerofotogramétrica 1/100 000 e naqueles dados de campo. É justo nomear o engenheiro Joaquim Forte de Faria., como representante de todos os técnicos e auxiliares que contribuiram para a excelência dos resultados obtidos em climatologia, hidrologia e medição de caudais.
Infelizmente o rio Queve nunca mereceu a atenção do governo colonial. A sua imensa potencialidade hidroeletrica, para não citar outras (agricultura de géneros tropicais e temperados, mas com métodos modernos e empresários preparados, floresta exótica e gado bovino, abundância de água e um grande potencial hidroeletrico) permaneceu sempre sob um manto de segredo. Ao norte, no rio Cuanza em 1957, uma empresa metropolitana (Sonefe), criada às pressas e eivada de um monopolismo exacerbado, não deixou que se apontassem as potencialidades do Queve, o rio de maior rendimento hídrico de Angola. Logo em 1957 começaram, rapidamente os estudos e execução da barragem de Cambambe no rio Cuanza (Ver Rio Cuanza: o elo entre o sul e o norte, entre o passado e o futuro em Psitacideo.)


Fig 3 Bacia hidrográfica do rio Queve. Tem o feitio de uma “cabaça” um dos objectos familiares da cozinha angolana. Orograficamente a bacia tem três niveis: Planalto com 18 300 km2, Transição com 4 150 km2 e Litoral com 1 420 km2 . No Planalto chove abundantemente e não há secas, apenas anos menos bons em chuvas. A configuração da bacia, a grande e regular precipitação anual, a perda de altitude em escassos quilómetros originam um rendimento hídrico excepcional sob o aspecto de energia Assinala-se a importante situação de Alto-Hama (cruzamento de duas estradas principais), um bisonho povoado antes do asfalto(1961), que se estava transformando em uma grande cidade. É o maior nó rodoviário de Angola. Além disto o Alto-Hama ainda tem boas águas termais e um bom clima de “primavera eterna”. E paisagens lindíssimas, pontilhadas por inselbergs. Tinha condições para se tornar em uma hidrópole.



2 – Climatologia

A maior parte da bacia do Queve insere-se nos planaltos onde as temperaturas são amenas, raramente atingindo os 30 ºC e onde as chuvas são abundantes, regulares e bem distribuídas, física e temporalmente. A estação das chuvas estende-se de Setembro a Maio. É um verão chuvoso com a precipitação média anual atingindo 1400 mm no bojo superior da bacia; no bojo inferior a chuva média anual é de 1200 mm;no gargalo superior a chuva anual situa-se em torno de 1000 mm; no gargalo inferior a precipitação média anual é irregular em torno de 500 mm.


Fig 4 Isoietas anuais na bacia do rio Queve. Isoietas são linhas que unem pontos com igual precipitação, neste caso as médias anuais.Verifica-se que mais de quatro quintos da área beneficiam de chuvas excedendo os 1000 mm anuais. Isto confere-lhe um alto rendimento hídrico, tanto mais que a bacia tem uma apreciável percentagem de granitos “em osso”.Os lençois freáticos (águas subterrâneas) são abundantes, pouco profundos e com recargas anuais.

A temperatura média anual no planalto é de 20 ºC, sendo de 27º C a média máxima anual e de 13º C a mínima média anual. Raramente se atinge 30 º C no Planalto Central.
Na Transição a temperatura média anual é de 23º C, sendo de 29º C a máxima média anual e de 17ºC a mínima média anual.
Na zona litoral as temperaturas são respectivamente 25º, 29º e 21ºC.
A humidade relativa é de 65%, 75% e 80% respectivamente.Os dois primeiros valores são típicos de climas temperados primaveris.

3.- Potamografia

A bacia hidrográfica do rio Queve ou Cuvo está compreendida entre os paralelos (latitude sul) 10º 37´e 12º 47´e os meridianos (longitude Este G.) 13º 35´e 16º 10´. A área da bacia hidrográfica é de 23 870 km2 . O comprimento total da directriz (com duas direcções NO e WNO) é de 420 km mas o seu estirão (percurso real ) é de 505 km.
O rio “nasce” na linha de cumeada, onde está implantada a ferrovia de Benguela, entre as cidades de Boas Águas e Vila Nova à altitude de 1930 m. A maior altitude na bacia é de 2 620 m na serra do Moco. A menor altitude é na foz no Oceano Atlântico 20 km ao sul de Porto Amboim.
Segundo a classificação de castanheira Diniz é uma bacia costeira inserida nos rios do Centro-Oeste, com a foz entre as cidades de Porto Amboim e Sumbe (Novo Redondo).
A área da bacia hidrográfica (23 870 km2 ) ocupa cerca de 1,5% da área de Angola (1 246 700 km2 ). De acordo com o usual em Angola, nenhuma cidade se encontra nas margens do rio Queve. Contrariamente à tendência mundial, as cidades em Angola, como já aqui foi afirmado em escritos anteriores, “fugiram dos rios” devido a vários factores: doenças (paludismo ou malária, bilharzíose, e disenterias) inavegabilidade (leitos muito inclinados e de forte corrente, com rupturas de declive muito acentuadas), crocodilos e hipopótamos. Os rios, ao contrário do Brasil, não contribuiram para a união do país. Foi uma das grandes causas do atraso de Angola onde a modernidade entrou tardiamente só graças à ferrovia e ao automóvel. Usando um termo genuinamente angolano a bacia hidrográfica do rio Queve tem a configuração de uma cabaça, com uma parte bojuda de 18 300 km2 e um gargalo com 5 570 km2 .


Fig 5 O rio Queve “espreguiçando-se” nas extensas planícies fluviais inundadas anualmente. Algumas destas áreas planas podem converter-se em albufeiras armazenando um gigantesco volume de água que poderá ser utilizado em tempo posterior.É uma transmissão de água no tempo. As tubagens fazem a transmissão de água no espaço.

A parte bojuda, planáltica, tem altitudes de 1930 m a 1200 m. O ponto culminante da bacia é no monte Mepo com 2360 m de altitude O rio espraia-se em planícies fluviais, inundadas anualmente, que retardam os picos de cheia. Estas planícies estão rodeadas por cadeias montanhosas de rara beleza. Mas no meio delas emergem inselbergs (montes ilhas) que chegam a atingir alturas de mais de 300 m(em relação ao solo circundante). Estes testemunhos de relevo são de constituição granítica, resistentes às erosões geológicas. Um inselbergue notável, por estar proximo de uma estrada nacional, é o Monte Lovili ou Lubiri com 2503 m de altitude.
Nos primeiros 70 km, até à confluência do rio Cuito, o Queve tem inclinações acentuadas; segue-se um leito com inclinação suave até Cafula somando 315 km. Depois é a Escarpa Atlântica onde o rio desce mais de 1 200 m em escassos 80 km. O trecho final é “plano” com inclinação menor do que 1/1000, ou seja menos de um metro em um quilómetro.



RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE (4)

Os principais afluentes do rio Queve com áreas das respectivas bacias superiores a 300 km2
são : na margem direita Lumbuambua, Colele, Cusso, Cunhamgama, Cuvira, Caninda, Cussoi, Tunga,Chilo e Carlaongo.
Na margem esquerda: Calongua, Cuito, Hama, Cuvombua, Cuchém, Cuvele, Hungue, Cassalovir e Luati.
Até ao “gargalo superior” (altitude de 600 m) a constituição geológica da bacia é predominantemente granítica o que favorece a recarga dos aquíferos subterrâneos por apresentar embasamentos arenosos. Por tal motivo todas a linhas de água são perenes (têm caudal todo o ano), com fortes caudais, mesmo na estação seca (Cacimbo de Maio a Setembro). A estação das chuvas vai de Outubro a Abril).
Cerca de 80 % da área total é envolvida por uma cadeia montanhosa de vertentes muito inclinadas que limitam uma zona central vasta e plana pontilhada “aqui e ali” por numerosos inselbergs ou montes-ilhas graniticos que conferem uma rara beleza à região.
O maior afluente é o rio Cuvira com 2 410 km2 de bacia hidrográfica e apreciável caudal.
O caudal médio do rio Queve, na estação seca, situa-se entre 200 e 240 m3 /s. O menor caudal situa-se entre 20 a 30 m3 /s. No trecho próximo da jangada do Amboíva foi estimada uma cheia de 1 770 m3 /s tendo como escala a subida do nível do rio em 5,40 m.


Fig 6 A Cela, o Amboim e o Litoral são as três regiões edafo-climáticas da bacia do rio Queve. Na Cela os dois rios-Queve e Cussoi-transbordam anualmente,com relativa facilidade. Na estação seca(Cacimbo) as áreas inundadas apresentam gramíneas (capim) de notável aspecto vegetativo, bons para pecuária embora acres. A Cela apresentava em 1973 um bom desenvolvimento económico apoiado na produção de leite e lacticínios. Corrigiu-se a tempo o erro da Cela que foi o de se querer implantar ali o modo agrícola metropolitano sem estruturas rodoviárias de escoamento dos produtos.. O Amboim (a verde) é uma região orográfica intermédia com excepcionais aptidões agrícolas para as culturas tropicais ricas, com relevância para o café arábica. O Amboim ainda é bem servido por chuvas (800 mm anuais). Nesta região situava-se a maior “plantation”(fazenda) de Angola: a CADA (leia-se cádá). Tinha um dos melhores hospitais de Angola, tudo nela funcionava “em esferas”. A montante, a azul, destaca-se a Cela(rio Queve e rio Cussoi). Na foz (a azul) podem-se irrigar milhares de hectares “gota a gota”por aspersão e em pivots centrais por gravidade.


Fig. 7 Pico do Lubire ou Lovili. Situa-se próximo da estrada Luanda-Huambo. Atinge a altitude de 2503m- com uma altura de 978 m. É um inselberg de granito que se destaca altaneiro na paisagem circundante até dezenas de quilómetros.



Fig.8 Dois inselbergs destacando-se na paisagem. Eram conhecidos, entre os camionisas, por “as mamas” Quase granito puro originam enormes escorrências durante as chuvas.


Fig.9 Perfil longitudinal de rio Queve.Na parte superior, até à confluência com o rio Cuito perfazendo 70 km, o leito apresenta inclinações da ordem de 7,5 m em 1 km; segue-se um trecho de 320 km onde a inclinação do leito é da ordem de 60 cm em 1 km ou seja um optimo declive para armazenar as águas das chuvas; neste trecho o rio espreguiça-se desenvolvendo-se em meandros. Segue-se a Escarpa Atlântica onde o rio cai 900 m em 80 km, um formidável potencial hidroeletrico; depois mais 35 km até ao mar. Neste ultimo trecho destacam-se as Cachoeiras do Binga com 15 m de altura.


Fig.10 O rio Queve “muito calmo”antes de transpor a Escarpa Atlântica. Foi neste trecho que o engenheiro agrário Alfredo de Andrade em 1899 conseguiu” arranjar” 100 km navegáveis mas sem qualquer interesse para a penetração no interior, de modo que se pudesse concretizar uma das clausulas exaradas na Conferência de Berlim em 1885:ocupação efectiva do território. Em termos de economia não existiam quaisquer povoados ou produções que justificassem uma tal navegação.E como trazer os materiais constituintes das barcaças tendo que subir a Escarpa Atlântica, sem auxílio de animais de tracção?

4 – Aproveitamentos hidroelétricos

O rio Queve, como aliás todos os rios de Angola, decepcionou os governos de Lisboa nos longínquos anos dos fins do século 19. Só o rio Cuanza, no século 16, chegou a dar uma certa esperança de navegabilidade quando os portugueses subiram até Cambambe (onde se encontra a barragem de Cambambe) em cerca de 200 km; para montante da barragem o rio Cuanza precipita-se em rápidos, corredeiras e grandes quedas tornando inviável qualquer navegação, mesmo até de canôas. Outro rio conhecido naquelas épocas (Dande) ficou inviabilizado nos rápidos das Mabubas, onde se encontra erigida uma barragem. O rio gémeo do Dande-Zenza ou Bengo- que abastece Luanda- só dava navegabilidade, para barcos de muito pequeno porte, em cerca de 70 km entrando pela foz no Cacuaco. No século 19 chegou a haver um transporte regular, com pequenos barcos a vapor, do Cacuaco até Icolo e Bengo.
Foi num destes pequenos barcos que o missionário e explorador inglês David Livingstone iniciou a sua viagem de regresso até ao Linyanty (actual sudoeste da Zâmbia). Livingstone saiu pela foz do Bengo, no Cacuaco, em um pequeno barco a vapor em 20 de setembro de 1854,subiu o rio, passou pelas ruínas do convento de S.António até Icolo e Bengo cuja «...população era de 6530 africanos,172 mestiços e 11 europeus. Proporção de escravos 3,38%» conforme escreveu Livingstone, minuciosamente, no seu diário.
No contexto geográfico angolano o rio Queve insere-se na categoria de bacia média mas é excepcionalmente energivoso, pois pode produzir mais de 3000 MW de potência hidroeletrica, não incluindo os afluentes que têm as mesmas características orográficas.


Fi.11 Porto Amboim já era conhecida no século 16. O seu nome primitivo foi Benguela, uma homenagem ao soba Benguela que privou com os primeiros navegadores que tentaram subir o rio Longa, mais ao norte. Após a fundação de S.Filipe, depois a actual Benguela, passou a chamar-se Benguela-Velha até ser rebatizada de Porto Amboim. Tinha tudo para ser um bom porto marítimo servindo o eixo Calulo-Quibala-Gabela. Infelizmente ficou apenas um sonho dos angolanos.

O perfil longitudinal é elucidativo. O rio Queve é extraordinariamente energivoso ( significa que tem grande potencial de energia eletrica). Reune todas as condições necessárias para geração de energia eletrica: chuvas abundantes, regulares e bem distribuidas, solos porosos, solos rochosos mas muito fendilhados (retêm a água durante um certo tempo), planícies de inundação propícias para transferência de água no tempo regularizando caudais através de grandes barragens; materiais de construção baratos, expropriações de pouca monta, povos sedentos de progresso e muito industriosos, regiões agrícolas bem definidas com vocação para cereais e gado bovino, ou para produtos tropicais ricos (café, algodão, rícino, frutas etc), áreas extensas no terço inferior susceptíveis de serem irrigadas gota a gota por gravidade ou outros processos. Por ultimo, mas das


Fig.12 Cachoeiras do Binga. Estão a 40 km da foz, têm 15 m de altura. Estiveram sempre sob a mira dos habitantes de Gabela e Porto Amboim desejosos de “extrairem” eletricidade. Chegou a ser feito um projecto de aproveitamento hidroeletrico que foi, deliberada e estrategicamente, ignorado. Ao fundo vê-se a estrada Gabela-Novo Redondo (Sumbe) e a ponte construída na década de 40.
mais importantes, a zona do Amboim em escarpa ao longo de 70 km, pode albergar mais de 4 grandes aproveitamentos hidroeletricos a fio de água utilizando a água acumulada a montante.


RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE (5)

Estimamos um volume provável de mais de 5 km3 de água em duas ou três barragens. Este volume não excede a afluência anual média, o que significa que estarão sempre com grande repleção.. Fig.13 Ponte sobre o rio Queve (referida na figura anterior) antes das Cachoeiras do Binga. Observa-se a água ficando “mais branca” ao atravessar a ponte: começam os rápidos do Binga logo transformados em quedas mais a jusante. A ponte tem quase sempre carros parados em cima dela: quem é que resiste a um tão belo espectáculo?

O rio Queve tem um bom caudal específico anual, podendo gerar mais de 3000 MW, com uma garantia de mais de 85%. Portugal tem 36 barragens totalizando 4 578 MW, ou seja o rio Queve, por si só pode produzir 65% de todas as barragens portuguesas. Estas estão muito condicionadas aos anos hidrológicos com garantias que chegam a atingir menos de 40%.

5 – Zonagem agro-climática

A figura a seguir apresenta a zonagem agro-climática definida pelo engenheiro Castanheira Diniz nos anos setenta do século passado.
O engenheiro agrónomo Alberto Castanheira Diniz foi para Angola em 1953 contratado pela CUF –Companhia União Fabril- para efectuar estudos de viabilidade para a cultura do Kenaf (cânhamo) em redor de S.Salvador, actual Mbanza Congo, em uma área de 22 000 ha. Esta planta fibrosa podia substituir a juta, matéria prima da sacaria destinada ao transporte do café.
A sacaria de juta era toda importada da União Indiana então já de muito má vontade em relação a Portugal. Motivo: a pendência em relação aos territórios de Gôa, Damão e Diu administrados por Portugal. Nehru, primeiro-ministro da União Indiana- recém independentizada da Inglaterra (1947)-, queria acabar com todas as ocupações estrangeiras no continente indiano. Apelidava as possessões portuguesas de “uma verruga no lindo rõesto da União Indiana” que era necessário extirpar..
De tal maneira Castanheira Diniz se enfeitiçou por Angola que acabou por se radicar. Era difícil, a um espírito científico como ele, resistir aos desafios que Angola apresentava. Uma tremenda sorte para Angola! Ele desenvolveu uma notável actividade científica publicando mais de 15 obras de inegável valor. Mas a sua obra maior é “Características Mesológicas de Angola”, publicada em 1973.


Fig.14 Mais um inselberg beirando uma estrada secundária. Estes monte-ilhas, de constituição granítica, acumulavam muita água contribuindo para o grande caudal de base durante o período seco ou cacimbo.


Fig.15 (para ampliar, clique em cima do mapa)


através dos dados fornecidos pela Missão de Inquéritos Agrícolas e por diversos estudos feitos em Angola. A Missão de Inquéritos Agrícolas, idealizada pelo engenheiro agrónomo Jorge Bravo Vieira da Silva, foi de uma utilidade indesmentível. Pela primeira vez tinha-se uma noção das riquezas de Angola, quer de recursos naturais quer humanos. Os resultados referentes às produções agrícolas foram surpreendentes.
A obra “Características Mesológicas de Angola” é uma descrição e correlação dos aspectos fisiográficos, dos solos e da vegetação das zonas agrícolas angolanas. É uma monumental obra científica que pode e deve servir de base a qualquer empreendimento agro-pecuário, comercial ou até de mineração. É, indubitavelmente, a base da moderna geografia angolana. Emparelha com a obra de Gossweiler “Carta Fitogeográfica de Angola”de 1943.
Posteriormente, já em Portugal e com o patrocínio da Cooperação Portuguesa, o engenheiro Castanheira Diniz publicou em 1998 outra obra de referência: “Angola o meio físico e potencialidades agrárias”. Além desta destacam-se, também, obras sobre o rio Cunene e Rio Cuanza. Seria fastidioso enumerar todas as suas realizações constantes em livros e artigos dispersos.
De acordo com a Zonagem Agro-Climática definida por Castanheira Diniz a bacia do rio Queve insere-se, parcialmente, nas zonas agricolas ZA 15- (Litoral-Sul de Luanda), ZA 16- (Libolo-Amboim), ZA 17- Transição Centro-Noroeste e ZA 24- Planalto Central .
ZA 15- Litoral-Sul do Cuanza- Estação de chuvas de 6 meses variando de 400 mm anuais no litoral (influência da corrente fria de Benguela) até cerca de 1000 mm na periferia interior sendo março o mês mais chuvoso. O período mais quente é entre março e abril (26-27ºC) e os mais frios (Cacimbo) entre 20-21ºC. Pequenas amplitudes térmicas. Clima semi-árido a árido. Esta faixa litoral possui solos calcários (uma raridade nos planaltos do país) de boa fertilidade, originando pastos doces. A irrigação tem que ser sistemática devido à ausência de linhas de água perenes, à pouca precipitação irregular e à debilidade (águas salobras) dos lençois subterrâneos. Pode dispor-se de água canalizada, à pressão, em conjugação com os sistemas de barragens a montante.
O abacateiro, o algodoeiro, a bananeira, o mamoeiro, a mangueira, a cana de açucar,o feijão e a palmeira dem-dem podem ser culturas de grande sucesso. Porto Amboim posiciona-se como pivot desta área.
ZA 16 – Libolo-Amboim- Estação de chuvas de 7 meses (outubro a abril) variando de 900 mm a 1000 mm. Ao contrário da zona anterior as chuvas são regulares com poucos desvios. Na estação seca há nevoeiros persistentes com um grau de insolação muito baixo, predominando a saturação em humidade da atmosfera, especialmente durante a noite, um aspecto da mata característica que abriga o café robusta (regiões cafeeiras de Libolo, Amboim e Seles). As temperaturas médias anuais são superiores a 20 ºC, com amplitudes em torno de 4ºC. A cidade da Gabela pode considerar-se o pivot desta zona.
ZA 17 – Transição Centro-Noroeste- Estação de chuvas de 7 meses (outubro-abril) variando de 1000 mm nas terras baixas até 1300 mm nas terras altas. Temperatura média anual entre 20º e 21º C. Amplitudes térmicas anuais inferiores a 4ºC. Café robusta em culturas ocasionais. Boa aptidão para rícino, sisal, massambala, mandioca, batata, batata-doce, arroz, amendoim,soja, bananeiras, maracujá, goiabeira, citrinos, mangueira, produtos hortícolas, milho, feijão. As espécies florestais exóticas têm bom poder vegetativo.«A bovinicultura, com tecnicas de maneio tendente à melhoria de pastos e à sua utilização por períodos mais dilatados durante a seca, poderá ser uma das alavancas promotoras do progresso desta zona». Nesta zona podem implantar-se sistemas de irrigação ocasional,aproveitando-se a energia abundante e barata que pode ser obtida por sistemas hidroeletricos implantados no rio Queve. O pivot desta zona é a cidade da Quibala situada na bacia do rio Longa.
ZA 24 – Planalto Central- É a área de maior altitude com a sua maior parte acima dos 1500 m. Temperatura média anual entre 19 e 20º C.Pode considerar-se um clima temperado mas com inverno seco (maio a setembro) e verão quente e chuvoso (outubro a abril). Chuva de 1100 mm a 1400 mm anuais. No inverno seco são raros os nevoeiros mas a insolação é muito alta. As noites frias, sem humidade e de ceu limpo, proporcionam um ceu estrelado de rara beleza, difícil de narrar. É a maior impressão que eu guardo de Angola, vindo em segundo lugar as chuvas diluvianas acompanhadas de trovoadas violentíssimas. Nesta zona o nível de fertilidade é baixo mas os africanos souberam tirar notável partido do meio e das diversas situações fisiográficas cultivando com sucesso milho, feijão, batata, batata-doce, mandioca, produtos hortícolas e frutas tropicais e de clima temperado (uma chamada especial para os morangos). Aqui é pertinente a irrigação ocasional para suprir as pequenas oscilações temporárias das chuvas (pequeno cacimbo). O arroz é uma cultura bem sucedida. Toda a zona é favorável à bovinicultura e à suinicultura apoiadas em pastos melhorados e em medicina veterinária permanente. Condições excepcionais pera floresta exótica (eucaliptos, cedros, cupressus, casuarinas e grevíleas) associadas à industria de mel e cera.

6 – Conclusões

6.1 – Até ao século 19 o rio Queve, como todos os rios de Angola, com excepção dos rios Dande, Bengo e Cuanza próximos de Luanda, mereceram pouca atenção dos governos de Lisboa. Portugal empenhava-se no Brasil, a população metropolitana (pouco mais de 1 milhão de habitantes) era escassa para ocupar tão grandes extensões territoriais. A principal preocupação em África, em termos geográficos, era o reconhecimento da costa angolana (1 650 km) com o fito de encontrar boas baías de acolhimento para os barcos. Foram cartografadas as partes finais dos rios costeiros e tentou-se subi-los, mas sem sucesso. O rio Queve já era mencionado em fins do século 16 como sendo muito turbulento.
6.2 - No século 18, no tempo do Marquês de Pombal, o governador geral Sousa Coutinho (que cumpriu 8 anos de governância, só igualado por Silva Carvalho em 1947-1955) interessou-se pela cartografia angolana especialmente a linha litoral.
6.3 - Em decorrência das “imposições” da Conferência de Berlim (1890) foi efectuado um reconhecimento exaustivo, feito pelo engenheiro tecnico agrário Alfredo de Andrade em 1898, com vista à navegabilidade do rio Queve. Frustraram-se as expectativas: o rio Queve oferecia alguns trechos “calmos”, isolados sem comunicação com o mar, sem qualquer peso económico. Logo a seguir, integrado em um estudo da áreas circunjacentes à futura ferrovia de Benguela, o médico naval Pereira do Nascimento apresentou um estudo em 1905 sobre as potencialidades do terço superior do rio Queve. Este estudo conduziu à implantação de vários colonatos europeus, com destaque para o Lépi.
6.4 - No governadorado de Silva Carvalho foi implantado o colonato europeu da Cela no terço médio do rio Queve. Sem estradas e portanto sem saída para os seus produtos, com as populações africanas arredadas do projecto, o colonato definhou e foi salvo a partir de 1961 com uma reconversão para a bovinicultura. Projectou-se uma barragem em Massango para produzir eletricidade e prover à irrigação. Ficou no papel.
6.5 - Em 1962 foi criada a Brigada de Engenharia da Cela que em pouco tempo obteve dados valiosos sobre as chuvas e os caudais da bacia hidrográfica. Foi possível aquilatar a enorme potencialidade energivosa do rio Queve, por si só susceptível de produzir mais de 3500 MW (se incluirmos os afluentes também bastantes energivosos).
6.6 – Em 1973, dois anos antes da independência, a balança comercial de Angola era a segunda melhor de África em termos quantitativos e qualitativos. O petróleo em 1973 ainda não era marcante na economia angolana. Naquele ano Angola produziu 147 068 barris diários ( menos de 10% da actual produção em torno de mais de 1,5 milhões de barris). A partir de 1985 o petróleo em Angola foi uma autêntica corcucópia. Uma descolonização desaustinada e depois duas guerras civis desmantelaram toda a economia angolana. Foi uma pena, pois poder-se-iam ter construido 4 grandes hidroeletricas e umas dezenas de pequenos aproveitamentos hidráulicos, tudo interligado por uma rede nacional de transmissão. Angola hoje disporia de um melhores sistemas de hidroletricidade no mundo. A energia seria abundante e barata o que atrairia empresários sérios a capazes de impulsionar uma economia, empresários que viveriam permanentemente em Angola.
A energia do petróleo tende a ser substituida por outra formas de energia menos poluentes e a electricidade ocupa o primeiro lugar entre todas elas. Um motor eletrico tem muito maior rendimento do que um motor de combustão. Vale aqui acentuar que a energia do rio Queve, toda convertível em eletricidade, corresponde à de 60 000 barris de petróleo por dia.

Luiz Chinguar
Outubro 2009


Esta matéria esta integrada no livro “ Mucandas do Tempo do Caparandanda” em fase de pré-prelo


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

ANA PAULA SANTOS - A BRIGADEIRA

Ana Paula dos Santos promovida a Brigadeiro na reserva enquanto militares apodrecem à espera de um simples reconhecimento da sua condição de combatentes . . .



A primeira Dama, Ana Paula dos Santos terá sido promovida ao grau militar de brigadeiro na reserva, em circunstâncias nunca tornadas publicas.
Em 2001 havia sido promovida a Coronel, a quando as autoridades atribuíram patenteamento alargado a algumas figuras como Silva Mateus e José Fragoso, conotados ao movimento “27 de maio”. Ambos haviam sido elevados a generais na reserva.

São mesmo desconhecidos os critérios ou passagem da mesma em alguma academia militar no país. Em geral, as primeiras damas, antes de os esposos tomarem posse são remetidas a um treinamento ou instrução com bases elementares acerca da própria segurança e em manterias de inteligência no sentido da gestão de informação de assuntos do Estado.

É provável (embora sem certeza) que a primeira dama tenha recebido alguma instrução militar ou de segurança. Uma das evidencias esta na forma como se comunica em “gestos” ou “sinais” com os seus seguranças quando deseja abandonar um local publico onde se encontra (cinemas, festas e etc).

domingo, 6 de setembro de 2009

1 - ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS - OS OSSOS DA DESCOLONIZAÇÃO (PARTE 3)

«Isto é selva e na selva só sobrevive a lei do mais forte e, por isso, não vale a pena estarmos para aqui com fantasias e cada um procurará armar-se o mais possível; até no campo político o sucesso depende muito do factor força».
Do arvorado a almirante Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola em 1974 citado pelo general Silva Cardoso no seu livro “Angola Anatomia de uma Tragédia”.

«Acabaram-se os sonhos. Agora só nos restam as pataniscas e as rabanadas».
De um “retornado
” ao desembarcar no fervilhante aeroporto de Lisboa, fugido de Angola, no Verão de 1975.

Antes de 1960 não existia a palavra descolonização. Ela apareceu para explicar a debandada dos europeus de África. Como já afirmámos, o termo mais correcto seria "descolonialismo" uma vez que, exceptuando a Argélia, Angola, Moçambique e Rodésia (actual Zimbabué), não havia colonos nos restantes países de África. O termo descolonização só se pode aplicar aos três primeiros. No Zimbabué não houve descolonização porque o país se auto- proclamou independente em 1966 com um regime dominado pelos colonos. Posteriormente estes abandonaram o país. A África do Sul nunca passou pelas agruras do colonialismo mas acumulou pesares também muito graves, originados pelo apartheid que ali vigorou até 2000.
Portugal nunca considerou que Angola se pudesse tornar independente, por isso sustentou uma guerra, contra as correntes nacionalistas angolanas, durante 13 anos (1961/1974). Era inevitável a emancipação de Angola mas o governo metropolitano convenceu os colonos de que tal não se verificaria. E estes, ingénuos e mal informados, acreditaram. E aquele tentou “segurar” a colónia até onde fosse possível, na esperança de que tudo poderia melhorar com o tempo.
Devido a vários factores, já enumerados em artigos anteriores , Angola em 1974 estava bem estruturada administrativamente mas anulada nos aspectos mais importantes para uma nação: político, diplomático, comércio internacional,cultural , jurídico e militar. Este ultimo era o mais importante para uma independência endógena ou seja de dentro para fora. Na independência teria que ser um exército, genuinamente angolano e coeso, a assumir, posteriormente, a segurança e a defesa, permitindo e assegurando referendos e eleições. E sobretudo não permitindo abusos. Mas isso não sucedeu porque toda a estrutura militar em Angola em 1974 era primordialmente metropolitana. Diz-se que os efectivos militares em Angola já dispunham de mais de 50% de angolanos, mas a verdade é que não os havia no topo da hierarquia militar. Foi pungente ver estes angolanos atarantados, procurando um nicho nos três exércitos que entraram em Angola, referentes aos Movimentos de Libertação. Em resumo: teria que haver um "descolonialismo" porque os colonos também estavam sujeitos aos caprichos de Lisboa. De certo modo estavam colonizados.
Por outro lado as forças militarizadas da Metrópole estavam inquietas após 13 anos de guerra, sem uma solução à vista. A maioria dos jovens em Portugal estava a emigrar, fugindo a uma guerra injusta e despropositada e que, em essência, não lhes dizia respeito. Portugal queria entrar na Europa mas as colónias eram um empecilho.
Em 25 de Abril de 1974 uma parte dos oficiais e sargentos do exército português, após treze anos de operações militares, o período que nós designámos por O Tempo Extra (1961 a 1974), resolveu dar um basta à guerra da independência, ou guerra colonial ou guerra em África, conforme o ponto de vista da cada um. A causa próxima do poisar das armas teve contornos de corporativismo. Durante o período culminante do colonialismo, de 1930 a 1960, o corpo de oficiais do exército português era de elite.O ingresso na Academia Militar estava sujeito a filtros,mais ou menos apertados, conforme as circunstâncias e as vagas. Os ultramarinos, ou seja os naturais das colónias, podiam esperar um filtro tipo chapa de aço. Os oficiais saídos daquelas academias eram de absoluta confiança do governo. Gozavam de prerrogativas elitistas e regalias materiais. A Academia Militar, antes de 1961, destinava-se inteiramente para os metropolitanos e, mesmo estes, passavam por uma rigorosa selecção.
Podemos supor que Salazar alimentava a secreta esperança de que, in extremis, irromperia um qualquer acontecimento internacional que pudesse reverter o quadro “de aguentar” para um quadro a seu favor, menos implicante internacionalmente. Já tinha havido ameaças, em épocas anteriores, e ele sabia disso. Eis algumas dessas situações, já aqui indicadas (no livro), mas que repetimos para frisar a sorte que sempre tinha acompanhado os governos de Lisboa:
-Após o ultimato de 1890 a Inglaterra acabou por proteger as colónias de Angola e Moçambique da cobiça da Alemanha, da Bélgica, e da França. Portugal sempre era um velho aliado e, sobretudo, não tinha indústrias que absorvessem os minérios de África. Portugal era um empecilho às pretensões dos alemães, dos belgas e dos franceses , mas não fazia sombra à Inglaterra. Neste aspecto até convinha aos ingleses a posição portuguesa, esta evitava o predomínio de qualquer outra potência europeia. A viagem do rei inglês Eduardo VII a Portugal, em princípios do século 20, acabou por apagar todos os azedumes provocados pelo Ultimato em 1890.
-Após a guerra 14/18 as colónias continuaram intactas devido à cooperação de Portugal no conflito. Quando chegou a altura do rateio, entre os vencedores, Portugal lá estava entre eles. E, para desenvolver o território, conforme se preconizou na Sociedade das Nações após o conflito, lá foi para Angola, outra vez, Norton de Matos. Foi demitido logo que passou o perigo. Um costume que se repetiria mais tarde. Os ardores desenvolvimentistas passavam logo que o horizonte político internacional se desanuviava.
-Durante a década de 20 Portugal foi acusado de praticar trabalho forçado. Foi publicado o Relatório Ross, em 1925, que provocou comentários acres na imprensa mundial. Chegou a insinuar-se que a Sociedade das Nações deveria intervir. O craque da Bolsa de Nova Iorque em 1929 acabou por desviar as atenções.
-Em 1935 novo sobressalto: Hitler começou a mostrar apetites coloniais, chegou a referir-se às antigas colónias alemãs em África. Angola foi mencionada, como pátria de acolhimento, para os judeus que estavam a ser expulsos da Alemanha nazi. A grande guerra 1939-1945 acabou por salvar, mais uma vez, a presença portuguesa em África. Esta ficou, desta vez, com prazo.
-Durante a guerra 1939-1945 o fim do colonialismo foi preconizado pelo presidente Roosevelt mas a sua morte em 1945 lançou tudo no esquecimento.
-Em 1961, quando houve necessidade de intervir militarmente em Angola, Salazar alimentava a esperança de que ia haver uma terceira guerra mundial e, neste caso, a colónia de Angola permaneceria, como despojos, como sucedeu após a guerra 1914-1918. É dele a seguinte frase, citada por Franco Nogueira(159):«Não entrámos na guerra 39/45 mas de certeza que entraremos na próxima». No fundo talvez ele alimentasse a secreta esperança de um novo conflito mundial, que seria devastador, não tenhamos dúvidas, mas que alteraria profundamente o estado do mundo e do qual talvez se pudesse tirar partido como sucedeu após a guerra de 1914-1918.
Sabe-se hoje que o conflito esteve muito perto de acontecer com os atritos relativos à instalação de misseis em Cuba, em 1962, pela União Soviética.
Antes das guerras africanas iniciadas em 1961, na admissão para a Academia Militar em Portugal eram mais os candidatos do que as vagas. A selecção era rigorosa. A partir do início da guerra colonial em 1961 começou a reversão: eram mais as vagas do que os candidatos. Em termos práticos significa que a guerra iria ser comandada “sempre pelos mesmos”. A situação foi-se agravando e acabou por ficar insustentável. Solução: admitir milicianos como candidatos à Academia Militar. Em alguns casos a guerra acabou por apontar para milicianos com mais atitude militar do que os eleitos segundo as regras anteriores, o que confirmava o elitismo vesgo que existia na admissão àquela Academia.
As vagas na Academia Militar, antes de 1961, eram reservadas só para metropolitanos, e para as famílias privilegiadas. Gilberto Freyre, quando visitou Portugal em 1952 apercebeu-se disso, tendo escrito, a propósito, quando esteve na Índia portuguesa(95):«Só os comandantes e oficiais são metropolitanos e brancos. Outra restrição aos direitos de plena cidadania portuguesa sentida pelo luso-indiano. Desde Cabo Verde que ouço à prática portuguesa de impedir-se ao português nascido no Ultramar ocupar cargos de responsabilidade político-militar e de tornar-se oficial do Exército ou das Forças Armadas; e também a discriminação entre português da Metrópole e português do Ultramar, quando funcionários públicos, para efeitos de licenças ou de viagens a Portugal».
Era inevitável o choque. O Ministro da Defesa, que promulgou os Decretos 353/73 e 409/73, que abriam a inacessível porta da Academia Militar aos oficiais milicianos, era o General Sá Viana Rebelo que tinha sido Governador Geral de Angola de 1956 a 1959. O decreto banalizava o curso de oficiais do Quadro, uma situação injusta e desagradável para quem a Academia era emblemática.
Era a causa próxima para o eclodir de uma revolta. Estavam fartos de comissões todos os oficiais do Quadro e, como prémio, recebiam a desvalorização do curso, com o consequente rebaixamento do status e o atraso em promoções.
A opinião pública mundial não alinhava com as razões apresentadas por Portugal, em querer manter as suas colónias. Até o Brasil, embora nunca tivesse sido hostil, punha as suas reticências quando Portugal “era chamado à pedra” nas instâncias internacionais. O ostracismo do país era mais um motivo para o descontentamento dos oficiais e dos portugueses em geral. Ninguém, no mundo, alinhava com os agonizantes imperialismos, nascidos no fim do século 19. Os jovens na Metrópole estavam a ser castigados com incorporações que lhes obstruíam o futuro.
O governo, nos fins de 60, argumentava que a incorporação de Angola era constituída por mais de 50% de naturais da colónia, mas não elucidava que não existia um único oficial subalterno e, muito menos, um oficial superior africano. Até 1961 nem sequer havia sargentos africanos no Exército português. Só “soldados indígenas”. A incorporação militar angolana era acéfala. Quando foi necessário assumir a defesa das populações, porque o Exército Português se desobrigou “de um dia para o outro”, verificou-se uma insólita debandada geral. Os angolanos militarizados não possuíam uma hierarquização de topo nacional. Obedeciam a uma estrutura superior metropolitana e absentista. Na independência do Brasil isto não sucedeu. Mesmo em Angola até 1947, provindo da 1ª república em Portugal, ainda Angola tinha um exército próprio, com oficiais que ficavam a residir em Angola quando se aposentavam, muito embora centralizado sob um comando metropolitano. Em 1947 o governo de Salazar desmantelou toda a ainda incipiente estrutura militar de Angola e centralizou tudo em Lisboa.
Em 1974 o governo já tinha institucionalizado a guerra. A situação militar na Guiné agravava-se de ano para ano. Aquele país africano é pequeno, mas Portugal continha com dificuldade os focos de insubmissão. Volvidos quase 40 anos, quem lê sobre a guerra na Guiné pergunta-se, perplexo: mas qual o interesse de Portugal em relação à Guiné? Salazar temia o desfecho dominó, pois já existia um precedente na Índia Portuguesa.
Os guineenses eram mais unidos e organizados naquela guerra do que hoje, independentes e em tempo de paz. A guerra é sempre mais fácil de fazer do que a paz. Destruir é facílimo.Agora, construir...
O general Spínola, quando foi governador na Guiné, tentou uma aproximação com os nacionalistas, chegou a dialogar com o Presidente do Senegal Leopold Senghor. Mas esbarrou com a intransigência de Marcelo Caetano ( substituiu Salazar em 1968) que insinuou que era mais honrosa uma derrota militar, como já tinha sucedido em 1961 em Goa, Damão e Diu na Índia. Parece que aceitava a derrota como um fatalismo, tal como sucedera com o seu antecessor Salazar no caso da Índia Portuguesa em 1961.
Logo que Marcelo Caetano assumiu o cargo de primeiro ministro em Portugal em Setembro de 1968, devido à precária saúde de Salazar, começaram as desavenças. Spínola e Costa Gomes, dois generais bem conceituados, queriam mudanças mas Caetano era um irresoluto. Tinha medo de tomar qualquer decisão para o Ultramar, embora tivesse apresentado um Parecer sobre uma federação, em 1962, quando não estava no governo.Não teve coragem de o assumir. Depois, no governo, era contrário às ideias então defendidas (uma federação de estados) e, segundo dizem, não queria que se falasse no tal Parecer. A sua desculpa era a de que o Parecer estava ultrapassado.

2 - ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS - OS OSSOS DA DESCOLONIZAÇÃO (PARTE 3)

Há uma velha fábula que relata que um gato enorme e façanhudo aterrorizava uma pacífica comunidade de ratos. Quando o gato aparecia, silencioso como só os felinos o sabem ser, era um pânico geral pois, às vezes, nem havia tempo para fugir. Os ratos resolveram fazer uma reunião geral. A proposta, feita por um velho rato político já aposentado (com três reformas acumuladas, a caminho de uma quarta e sempre “à coca” de mais prebendas), uma espécie de senador caga-sentenças,foi aprovada por unanimidade: alguém tinha que colocar um guizo, barulhento, no pescoço do gato. Assim, quando ele se deslocasse, por causa do tlim tlim agudo, dava tempo para “cavanço”. Alguém tinha que afrontar o gato. A seguir foi apresentada outra moção: quem iria desafiar o felino, quem iria pôr o guizo no pescoço do gato ? Também unanimidade geral: ninguém se ofereceu. A proposta caiu logo a seguir, e todos concordaram: o melhor era, cada um, manter-se em forma para poder correr rápido.


António de Spínola resolveu “pôr o guizo no gato”, neste caso Caetano, cuja mentalidade de adiamento estava criando embaraços aos militares, fartos das guerras coloniais. O guizo foi o livro “Portugal e o Futuro” saído em 1973. Segundo muitas opiniões, era um desafio a Caetano.
O regime caetanista estava tão sensível que o livro lhe provocou um abalo. Não apareceu logo à venda, foi barrado pela censura, a sua primeira aparição foi no Brasil. Depois acabou por circular a princípio só em Portugal, e finalmente em Angola muito mais tarde, quando já não interessava e todas estruturas desabavam diariamente. O livro de Spínola, quando entrou em Angola, estava mais desactualizado que um balancete de 1920, quando ainda se faziam escritas comerciais de modo a detectar-se qualquer alcance que era a palavra então usada para a hoje vulgar roubalheira.
A ditadura estava tão fechada a mudanças que o livro causou um abalo. Li a edição brasileira em 1973, quando eu estava completamente desinformado (para não dizer tapado), e achei-a pouco concisa, com frases demasiado complicadas, com uma solução escondida e capciosa (denunciando medo) e, especialmente, fora das realidades e do tempo. Propunha uma pálida solução, favorecendo só os metropolitanos, com soluções extraídas do pequeno universo da Guiné. Esta colónia, em área, equivalia à de um pequeno distrito em Angola.
O livro é um exercício de contorcionismo político, com medo de afrontar a dura realidade e, principalmente, de abordar as independências das colónias. Ainda hoje não percebo o afã da DGS (polícia política da ditadura que substituiu a PIDE ) em não deixar a sua livre circulação. Poucos portugueses terão a pachorra de o ler e, menos ainda, facilidade em o entender. Diz-se que se venderam 100 000 exemplares. Talvez, mas que tenham sido lidos integralmente, arrisco um numero 100 vezes menor. Como dizem os brasileiros era prosa “para boi dormir”.


Mais de metade do livro(212) estende-se por considerações filosóficas, que nada tinham a ver com os complexos problemas com que se debatia Angola. Vejamos algumas passagens: «Os homens não se constituem em sociedades por reconhecerem estas como valores transcendentes a preservar; antes, as sociedades é que se constituem por atitude volitiva dos seus participes, que a ela aderem na medida em que reconhecem beneficiar da sua integração na comunidade».
E, mais adiante « Toda a super-estrutura deve, pois, para permitir a subsistência e a prosperidade da sociedade que serve, harmónica e harmonizante, isto é, deve reger-se pelo equilíbrio individual, em ordem a que de troca entre o que cada um dá e recebe resulte um excedente pessoal que permita a satisfação das necessidades crescentes de cada um».
E depois: “A intransigência na defesa de controversas convicções não pode conduzir à adesão das partes contrárias; e os apelos à coesão só resultam quando se afasta o que desune e se procura o que é de facto agregador».
E esta: « Mas não se ignora que, em qualquer arquitectura política, a consistência que lhe advém da existência de um poder em exercício se radica no binário “finalidade a atingir –força prossecutora”, factores que, pela geral adesão que provoquem, produzem a obediência voluntária que por sua vez gera o poder autêntico em termos de vida política e social. Somos, por esta via, conduzidos ao cerne do problema, que se situa no quadro das “ideias prosseguidas-força prossecutora”, pedra angular da sobrevivência das nações».
E toma lá mais prosa narcoléptica:« Não se trata de um quadro estático, pois que o limiar das necessidades mínimas sobe de nível a um ritmo cada vez mais acelerado, tendendo cada vez mais a ampliar-se a gama destas necessidades e a reduzir-se o leque das necessidades e solicitações complementares - isto é, daquelas cuja insatisfação, proporcionando mal-estar relativo, não constitui todavia problema social».
E continuando a prosa hipnoléptica:« São valores essenciais permanentes, embora de conteúdo mutável, o respeito dos direitos humanos que não podem ser feridos pela integração dos indivíduos na vida social: a harmonização do interesse geral entendido como somatório e resultante dos interesses particulares que o conformam; a construção de um Estado em que o poder se subordine aos fins assim definidos e se revista da autoridade legítima que lhe advém dessa subordinação; e a participação dos cidadãos na gestão dos seus destinos, tornada cada vez mais imperativa pela permanente elevação do seu nível cultural e do seu grau de consciencialização».
E mais prosa: «Primeiro, do ponto de vista lógico há que estabelecer uma certa correspondência entre os factos passados e futuros, integrados numa linha de sequência que se traduz na evidência de o futuro ser história no amanhã. Assim o futuro, tal como foi o passado, surge numa sequência de factos que só terão sentido desde que ligados por relações de nexo. E aqui apenas se apresentam duas alternativas: ou essas relações são deixadas a leis naturais, que as encadearão ao sabor das reacções de fortuna, ou se pretende controlar os factos eliminando zonas de incerteza, influenciando as suas determinantes e comandando as suas consequências, o que obviamente pressupõe a definição prévia de uma lógica de concatenação que afinal não é mais do que a definição de uma estratégia».


Conteúdos chatos, mais para impressionar do que para elucidar, encontradiços em qualquer manual de sociologia enfatuada, mas inadequados para o momento grave, que exigia uma profunda e realística reflexão sobre os verdadeiros problemas que afligiam os residentes das colónias.Tinha que se discutir frontalmente, preto no branco ( a frase vale, até, pelo seu duplo significado), qual a saída para uma situação provocada, essencialmente, por um torpor histórico a que não faltou displicência, arrogância, egoísmo, incompetência e muita preguiça. Conteúdos difíceis de entender, numa fase em que tinha que se usar uma linguagem popular, compreensível por todos.
Naquela altura, o que nos interessava que « Toda a super-estrutura deve, pois, para permitir a subsistência e a prosperidade da sociedade que serve, harmónica e harmonizante, isto é, deve reger-se pelo equilíbrio individual, em ordem a que de troca entre o que cada um dá e recebe resulte um excedente pessoal que permita a satisfação das necessidades crescentes de cada um»?
O livro perde-se em 2/3 do seu conteúdo com divagações sociológicas do tipo atrás apresentado. Só no último capítulo intitulado “Uma Hipótese de Estruturação Política da Nação” é que é, finalmente, apresentada uma hipótese de solução para o fim das guerras coloniais. Mas neste capítulo volta o mesmo pendor que é o de não se abordar os problemas com frontalidade, ou, como diz o povo, “ não se dá o nome aos bois”.


Este capítulo começa usando o estilo anterior, de tudo explicar para que ninguém entenda coisa alguma. O que interessa é manter um estilo intelectual um tanto incompreensível. Vejamos:«Seguindo um processo mental puramente analítico, tem-se vindo a equacionar o problema nacional no quadro dos factores que o condicionam, agrupados quanto possível segundo as suas múltiplas dependências. E, como a complexidade que hoje caracteriza a fenomenologia político-social vem determinando uma crescente gama de interligações entre esses factores, os diversos campos de análise deixaram de encerrar-se em compartimentos estanques, sendo assim inevitáveis certas repetições de conceitos, em ordem a que a análise não resulte incompleta em dado plano, pelo facto de determinado argumento, que também lhe é próprio, ter sido já expendido noutro ponto. E, entre imperativos opostos de simplificação e clareza, prevaleceu este último por motivos evidentes. Por outro lado, sendo o trabalho de análise essencialmente decompositivo, impôs-se desmontar os factos à luz de um espírito realista que, por extrapolação dos seus efeitos, nos conduziu a uma conclusão de impossibilidade; e por aí poderíamos ter ficado se apenas nos animasse uma intenção meramente crítica, deixando a outros a tarefa de construir soluções».
Lendo mais este pedaço de prosa ocorre perguntar: qual era o medo do Governo em publicar-se este livro ? Eu confesso a minha ignorância: não percebo a maior parte destes conceitos, apesar de ter visto todos os filmes do Cantinflas. Mas Marcelo Caetano ficou magoado com o tom e o desafio de Spínola. Que tom e que desafio? Não restam dúvidas de que o regime, o Estado Novo, estava em fase terminal, em tudo viam fantasmas. Pelo contrário, o governo deveria ter autorizado este livro com fins terapêuticos. Era um grande remédio, sem efeitos colaterais, para todos os portugueses que sofressem de insónias.


Finalmente a páginas 196 vislumbra-se qual a solução política que Spínola preconiza para as colónias: « a tese federativa, para a qual somos assim impelidos, não deixa, é certo, de comportar aspectos negativos que devem ser acautelados».
A favor desta tese Spínola pergunta :« Será porque o portuguesismo da nossa gente africana desapareceria por encanto perante uma mudança da Constituição?» Mas ele acredita: « Somos dos que crêem firmemente no portuguesismo da nossa gente africana. E, porque assim é, defendemos a tese federativa como a única que permite real expressão ao País plural que idealizamos. Porque, se não acreditássemos nesse portuguesismo, não teria sentido o empenhamento pessoal na mais firme defesa do Ultramar».
Em síntese, o livro “Portugal e o Futuro” não apontava os “cancros” da dominação colonialista, fáceis de enunciar, impossíveis de “curar” depois de dezenas de anos sem quaisquer reformas:
Apropriação, pela Metrópole, das divisas comerciais, e outras, de Angola. A colónia produzia, então, mais de 40 artigos de exportação, cada um com valor superior a um milhão de dólares;
Clivagem propositada entre as comunidades africana e europeia de modo a não se verificarem entendimentos sociais e, muito menos, políticos;
Obstrução quase total dos lugares de topo, políticos ou outros, para os angolanos quer fossem de ascendência europeia ou africana, mais agravada para estes últimos;
Exaltação,a toda a hora , de um portuguesismo exacerbado induzindo a ideia de que quem não concordasse com ele era “um traidor à Pátria”; o portuguesismo aliás é o grande trunfo de Spínola imbuído, como estava, com as suas pequenas, e algo artificiais, experiências sociais na Guiné;
Ensino com anos de atraso: só depois 1961, a partir do governo de Venâncio Deslandes, é que o ensino primário foi encarado a sério; com muitos bons resultados posteriores, acrescente-se;
Também a partir de 1961 foi instituído o ensino universitário mas com três lacunas: não havia os cursos de direito, arquitectura e sociologia.
Censura obstinada nos jornais, na rádio, no cinema e na literatura;
Dificuldades em viajar para o estrangeiro, era difícil tomar conhecimento das democracias;
Ausência confrangedora de televisão;
Grande incorporação de angolanos nas Forças Armadas mas comandados sempre por metropolitanos.


A moeda circulante em Angola era fictícia sem qualquer valor internacional inclusivé na própria Metrópole. Na pré-independência deixou de ter valor até em Angola.
Capacidade decisória totalmente centrada em Lisboa.
Volvidos quase 40 anos confunde-nos a ingenuidade política de Spínola: quantos na Guiné, em Angola, em Moçambique, até em Portugal tinham a noção do que era uma constituição? Quantos sentiam a nacionalidade Portuguesa?


Alguém escreveu que os portugueses são os chineses da Europa. Quando querem dizer verdades fazem mil e um rodeios, a maioria das vezes acabam por não concretizar o essencial.E as verdades nunca são paridas, desculpem este termo, devido aos circunlóquios e subterfúgios que enfeitam, e acabam por mascarar, qualquer verdade em Portugal exasperando os ouvintes os tele-espectadores e os leitores. Os portugueses têm medo de dizer, frontalmente, uma verdade!
Respeitando o patriotismo de Spínola e a sua boa vontade, melhor dizendo a sua ingenuidade, entendemos que a sua solução, na realidade bem intencionada, mas só isso, apresentava-se fora do tempo, se é que, alguma vez, esteve dentro do tempo. E fora da realidade, também. Talvez que na década de 50, quando Portugal ainda não sofria as asfixiantes pressões internacionais , quando os africanos “ainda não tinham aberto os olhos” e não tinham enveredado pela luta armada, fosse possível encarar a hipótese de uma federação de estados, mas para isso teriam que se fazer reformas arrojadas para a época. Muito ousadas, enfatizamos. A velha frase latina tem sempre acuidade: ubi bene, ibi patria, a minha pátria é onde me sinto bem. Ora para que os africanos se sentissem portugueses, como argumentava Spínola, era necessário que se tivessem feito reformas muito ousadas a tempo e horas. Era necessário que eles usufruíssem, em pleno, da cidadania e da civilização moderna.O que não sucedeu.